Parasitas

Um ano de ‘Parasitas’. As lições de Bong Joon Ho para o pós-pandemia

O filme estreou há um ano nos cinemas portugueses e marcou a época de prémios no início de 2020

Fez este sábado (26) um ano desde que Parasitas, a obra-prima de Bong Joon Ho, chegou às salas de cinema portuguesas. A produção fez história em fevereiro ao tornar-se no primeiro filme estrangeiro a ganhar o Óscar de Melhor Filme. Em março instalou-se a pandemia da Covid-19 e o resto é história. Levanta-se a vontade de fazer uma reflexão interessante: que lições nos deixou Parasitas para um mundo pós-pandémico?

A história do filme, em si, quase não precisa de ser apresentada. No núcleo temos uma família pobre que consegue arranjar maneira de se infiltrar e ser empregue por uma família rica, assumindo identidades diferentes. Mas é muito mais que isso. Por ser um argumento dotado de várias camadas, numa crítica, sobretudo, às diferenças socioeconómicas brutais que existem nos dois extremos de uma sociedade, foi com surpresa que se viu, na altura, personalidades como Elon Musk ou Chrissy Teigen a expressar admiração pelo filme, levando a questionar se perceberam realmente a mensagem que Bong queria passar.

Este tipo de fenómeno não é desconhecido, em que celebridades expressam um amor estranho por produtos que criticam abertamente o seu estilo de vida, cada vez mais perpetuador de um fosso entre quem é milionário e quem não tem dinheiro para comer. Por exemplo, Kylie Jenner promoveu, no ano passado, uma festa de anos temática inspirada em The Handmaid’s Tale, série de ficção em que se denuncia os perigos de uma ditadura emergente, castradora de mulheres, tornando-as meros escravos, alvos de violência e sem qualquer direito de expressão.

A socialite, basicamente, glorificou a violência e a opressão que a própria série crítica, no meio de um ambiente político tenso, marcado por preocupantes recuos na legislação do aborto em alguns pontos dos Estados Unidos. O caso ganha contornos ainda mais alarmantes quando, nos últimos dias, em Portugal, um militante de um partido político queria que as mulheres vissem os seus ovários serem-lhes retirados caso abortassem por razões contrárias a um “perigo imediato para a sua saúde”. 

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Parasitas e a Covid-19

Este não entendimento, por parte das celebridades e pessoas poderosas deste mundo, do que Parasitas nos quer levar a refletir, torna-se ainda mais estranho dadas as mensagens que o filme deixa também para uma sociedade que está a passar por uma crise global sanitária, provocada pela Covid-19.

Parasitas
Fotografia: Divulgação

Por um lado, Parasitas é um grito de revolta contra a desigualdade, dado que vemos duas famílias a viver em lados opostos do espectro económico. A família Kim vive numa cave, sem acesso à internet, e com grande dificuldade em pagar as contas, por estar desempregada. A sua única fonte de rendimento é montar caixas para as pizzas. A família Park tem um estilo de vida completamente diferente, gozando de uma existência privilegiada, vivendo numa casa gigante e moderna, muito similar às moradias que as celebridades fizeram questão de mostrar, nas suas redes sociais, durante o confinamento obrigatório motivado pela pandemia.

Os Kim representam aqueles que, na sociedade, mal ganham para poder comer. Não têm ligações, as chamadas “cunhas”, o preconceito leva-os a não conseguir ter acesso a uma melhor educação, não há segurança em termos de trabalho e tornam-se, como se pode ver no filme, muito mais vulneráveis a desastres naturais. Não é preciso dependermos da ficção para vermos este fenómeno a acontecer no mundo real. É da perceção geral que a pandemia está a servir, largamente, para que os ricos fiquem cada vez mais ricos, e os pobres cada vez mais pobres.

Se olharmos para o nosso país, a RTP relata que o mês de julho terminou com pouco mais de 400 mil pessoas desempregadas inscritas no Instituto do Emprego e Formação Profissional, contabilizando um acréscimo de 37% face ao mesmo mês do ano passado – mais 110 mil pessoas desempregadas. Nos Estados Unidos, milhões de recentes desempregados tiveram de começar a procurar emprego. Do outro lado da barricada, a agência Bloomberg relata que Jeff Bezos, o CEO da Amazon, viu o seu património liquido crescer para uns estonteantes 169 mil milhões de euros, no meio da pandemia. A Forbes noticiou que Elon Musk triplicou o seu património liquido nos últimos sete meses.

Se em Parasitas uma mera chuva torrencial fez com que uma família indefesa visse o estado da sua residência deteriorar-se completamente, enquanto os ricos mantiveram-se protegidos e seguros, com a pandemia, a história é a mesma. Quem sofre são sempre os mesmos e os ricos mantêm-se no topo.

Parasitas
Fotografia: Divulgação

Não olhando a meios para atingir fins, o desemprego começou a aumentar, tudo para que os altos empresários de gabarito pudessem manter os lucros a níveis satisfatórios. As pessoas que tinham, finalmente, recuperado da crise de 2008, provocada pelos mesmos de sempre, viram-se atiradas para a mesma situação degradante em que viviam, perdendo os empregos, muitas das vezes precários.

Falando em desigualdades, se olharmos para quem está a ser testado para ver se há infeção, a injustiça fala alto. Se nos lembrarmos do caso de famosos a testar para a Covid-19, sem terem resquícios de sintomas, num cenário de tratamento preferencial, percebemos o quanto a dita sociedade comum fica para trás nestes casos. Em Portugal, por exemplo, reina a desinformação junto dos ditos bairros sociais, numa população cada vez mais marginalizada, sem acesso a serviços de saúde básicos, em muitos casos.

Parasitas vem estabelecer, não pelo conteúdo narrativo em si, mas do ponto de vista formal, outra ponte com o que vivemos. Na altura, muito poucas eram as pessoas que acreditavam na glória do filme de Bong nos Óscares, pelo facto de ser um filme sul-coreano e os norte-americanos serem muito avessos a ver filmes com legendas. Recordam-se as palavras de Trump, em reação à coroação de Parasitas como o Melhor Filme nos Óscares: “O vencedor foi um filme sul-coreano. Mas que raio é que foi isso?”, questionou o presidente, durante um comício no Colorado. “Já temos problemas que cheguem com a Coreia do Sul quanto a trocas comerciais, e ainda por cima dão-lhes o prémio de Melhor Filme do ano.

Esta xenofobia, muito marcada nas redes sociais pelo desinteresse de alguns de verem filmes estrangeiros, ainda para mais asiáticos com legendas em inglês, só demonstra que a indústria norte-americana tem ainda muito que aprender com a indústria de entretenimento asiática. A frase de Bong Joon-Ho, proferida na cerimónia dos Globos de Ouro, onde Parasitas também brilhou, é de lapidar e nunca mais esquecer: “Depois de superarem a barreira das legendas, com um centímetro de altura, vão ser introduzidos a muitos mais filmes maravilhosos.”

Parasitas
Fotografia: Divulgação

Estávamos em fevereiro, e Parasitas tinha rendido o mundo com a sua qualidade, como se tivesse dado um abanão na xenofobia do mundo. Mas poucos sabiam que viria aí uma pandemia tão mortífera como a da Covid-19, que serviria ainda para mostrar que o velho preconceito se mantém enraizado.

Falo do caso da China, acusada por meio mundo de ter criado a Covid-19. Aliás, todo este cenário pandémico foi uma oportunidade, uma espécie de passe livre, para as pessoas poderem exacerbar a sua xenofobia para com o povo chinês, muito levada às costas por Donald Trump. A origem do vírus tem levado a cabo uma onda de ataques e situações de verdadeiro bullying contra o povo chinês e Trump já se referiu à Covid-19 como o “Vírus Chinês”. Está tudo dito quando é o próprio Presidente da maior potência do mundo a demonstrar publicamente este tipo de comportamentos, estando bem ciente de que a sua palavra influência milhares de americanos.

Em Portugal, as pessoas olham com uma desconfiança (errada) para a comunidade negra que vive em bairros sociais, por exemplo, quando é esse mesmo tipo de preconceito que aumenta a desinformação e o fosso entre quem tem poder e quem está condenado a viver de forma miserável. Chegou ao ponto de se entrar em lojas de proprietários chineses em que as pessoas se afastavam, receosas de que, só pela nacionalidade, fossem automaticamente transportadores do vírus.

A pandemia serviu para as pessoas proclamarem que parámos todos “para respirar” e poder apreciar coisas que não podíamos enquanto estávamos dedicados às nossas vidas frenéticas. A verdade é que é só conversa de café: à medida que ficamos mais conscientes do nosso privilégio, causado pelo sistema capitalista, o cenário mantém-se com o favorecimento dos mais ricos. Dinheiro continua a ser palavra de ordem e continua a significar poder. E nem todos o têm.

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