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Capa do álbum "Ultra Mono", IDLES. (Divulgação)

Crítica. ‘Ultra Mono’ e o sentimento acima do gritado no novo álbum dos IDLES

"As letras consideradas previsíveis acabam por ser irrelevantes porque, no fundo, o que importa aos fãs destes cinco é a forma como se manifestam perante assuntos que nos assustam, entristecem, enfurecem diariamente."

O terceiro álbum de estúdio dos IDLES foi lançado esta sexta-feira (25). Tem por seu nome Ultra Mono, título que não partilha com nenhuma canção do alinhamento. Horas depois de os ouvirmos novamente, a toda a força, nas plataformas habituais, as opiniões dividem-se.

Alguns veredictos são totalmente divergentes, o que poderia ser uma ameaça à ideia de união que a banda tem pregado nos últimos anos. Ainda assim, dentro do grupo de fãs da banda, que reúne gente desde adolescentes à terceira idade, tudo é ouvido e todos tentam compreender: há quem diga que é o melhor álbum da banda, há quem diga que é demasiado repetitivo. Há quem se pergunte se a banda não voltará a dar-lhes a mesma “energia” e “sentido de compaixão”, que antes haviam dado em tantos outros minutos.

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Publicado por um fã no grupo associado à banda, no Facebook.

Não podemos deixar de questionar se estas opiniões se deixaram influenciar pelas recentes controvérsias associadas à banda ou se os IDLES estão, efetivamente, a tornar-se repetitivos.

O conflito entre Joe Talbot e Lias Saoudi, atipicamente relevante para a forma como entendemos o álbum

Os britânicos não estão propriamente em boas relações com os Fat White Family, tendo o vocalista, Lias Saoudi, se referido às músicas deles como tendo letras que parecem “ter sido generadas por um algoritmo desenhado pelo Guardian”, em que todos os assuntos urgentes são “mencionados sistematicamente da forma mais previsível possível”. Saoudi acrescentou que sente que não “aprende nada sobre o Joe Talbot [vocalista dos IDLES] a ouvir o Joe Talbot“. Por fim, atira que “a maneira mais fácil de ganhar popularidade online é, claro, simplesmente regurgitar aquilo em que toda a gente já acredita”.

Estamos a falar de uma banda cujo som e atitude se aproximam do punk (embora não o digam com todos os dentes e proclamem não encaixar o seu som num género específico), onde este regurgitar de forma previsível ou com simples menções a fortes temas é o grande motto. Ou esquecemo-nos da existência dos grandes clássicos do género, como foram os (muito piores musicalmente, talvez sinal do tempo) Sex Pistols?

Admitimos que existem sons em que esta ideia de repetitividade se manifesta, e admitimos que existem sons neste novo álbum em que o simples atirar de palavras sobre os assuntos urgentes em todo o mundo não funcionam – ‘War’ funciona bem em termos de som mas a letra deixa a desejar, e ‘Anxiety’ deu-nos mais ansiedade do que qualquer outra coisa (talvez por parecer ouvir-se versos de uma canção dos Green Day nos seus primeiros dias).

Mas admitimos também que existem momentos em Ultra Mono em que funcionam muito bem – ouçamos, por exemplo, o track em que Jehnny Beth acompanha a banda, ‘Ne Touche Pas Moi’O tema complexo da liberdade da mulher é explorado todos os dias, em todo o lado, de maneiras diferentes: em Portugal (embora, aos IDLES, nem lhes passe pela cabeça), tem vindo a ser desafiado nos últimos dias por convenções e propostas radicais de partidos de extrema-direita em Portugal (todos sabemos do que se fala aqui).

Talvez por isso este track tenha sido particularmente importante, e não precisou de aprofundar nada – a resposta é tão simples, ainda que tão inalcançável para tantos, quanto o verso dita: “‘Cause my body is my body / And it belongs to nobody but me”.

Quem diz que a nossa raça e a nossa classe não são adequadas?

A ideia de justiça social não falta em nenhum som de Ultra Mono, embora se manifeste especialmente em alguma das canções, como é o caso de ‘Grounds’ (um dos primeiros singles lançados),Reigns(a melhor canção do álbum, na nossa opinião) e ‘Carcinogenic’ (num tom mais obscuro). O timing em que surgem é também interessante – a altura em que ‘Grounds’ foi lançado como single foi a altura em que os Estados Unidos da América viviam o luto por George Floyd, que aconteceu em junho, mas entretanto passaram quase quatro meses e a situação só piorou (em todos os aspetos possíveis, e por todo o mundo).

A política britânica está no centro das atenções do grupo, como seria expectável, por ser a sua realidade. Já em 2017, ouvimos Joe dizer “The best way to scare a Tory is to read and get rich” (no single ‘Mother’, do primeiro álbum de estúdio, Brutalism). Em 2018, a canção ‘G.R.E.A.T’ foi desde logo reconhecida como um ataque ao processo do Brexit, e a situação dos imigrantes foi também mencionada no singleDanny Nedelko‘. ‘Reigns’ é a sucessora e também não precisa de mais do que 4 versos distintos para o fazer corretamente. Logo o primeiro:

“How does it feel to have blue blood coursing through your veins?”

Mas falta algo a Ultra Mono…?

Descrito pelo vocalista da banda, este novo álbum teria várias referências a amor próprio, e isso ter-se-ia visto logo no primeiro track. Mas há dificuldades em encontrar essas referências na música em si, ou no resto do álbum (sendo exceção ‘Mr. Motivator‘, talvez, por nos ter dado um extra-boost na altura de isolamento social – culpa do vídeoclipe, também). Em comparação com o álbum anterior (que pode ser uma comparação errada, admitimos), este tema foi fortemente explorado, aliado também ao combate da masculinidade tóxica.

Em várias ocasiões, Talbot mencionou que este álbum exploraria o conflito interior por que muitos de nós passamos, e que o mesmo referiu já várias vezes ainda não ter ultrapassado. Talvez esta incompreensão resulte desse conflito.

E talvez seja isto que alimenta o comentário anteriormente mencionado, de como há quem não consiga conhecer Joe Talbot na música que Joe Talbot faz (comentário que até perceberíamos caso não existisse a bomba emocional e pessoal que é ‘June’, também no álbum anterior). Repita-se: talvez esta incompreensão resulte desse conflito.

LÊ TAMBÉM: Entrevista aos IDLES: “Usamos honestidade e vulnerabilidade como um ponto de interesse”

Ultra Mono é o melhor álbum dos IDLES?

O álbum fecha com ‘Danke’, que a banda dedica ao já falecido Daniel Johnston, cantor norte-americano que viveu, escreveu, cantou sobre os problemas psicológicos que nos ultrapassam, durante toda a sua vida. Na sua canção mais conhecida, em 1990, entoou:

“True love will find you in the end
You’ll find out just who was your friend”

E os IDLES entoaram-no de volta em 2020. Esta é a canção que todos os fãs dos IDLES esperam ver num álbum da banda – um hype-up, um símbolo da união, que o cumpre mais do que a canção de abertura.

“I’ll be your hammer 
I’ll be your nail 
I’ll be the house that allows you to fail
I am I”

Mas apesar deste absoluto banger que fecha Ultra Mono, se nos perguntarem se este é o melhor álbum que os britânicos conceberam…? Não. A fasquia estava demasiado elevada desde Joy As An Act of Resistance, e levou a que muitos procurassem neste álbum algo equivalente ao que sentiram com o álbum lançado em agosto de 2018.

O ponto em comum entre os três álbuns de estúdio de IDLES é exatamente o sentimento.

O sentimento continua acima do gritado. As letras consideradas previsíveis acabam por ser irrelevantes porque, no fundo, o que importa aos fãs destes cinco é a forma como se manifestam perante assuntos que nos assustam, entristecem, enfurecem diariamente.

E, especialmente, a forma como permitem que estas pessoas, que ouvem as suas músicas, se manifestem através das mesmas, podendo berrar essas palavras previsíveis ou simplesmente bater com o pé ao ritmo dado, quando as ouvem em sítios onde não podem fazer o anteriormente sugerido.

Pontuação: 7/10

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