'Summerland' dá a Gemma Arterton um dos melhores papéis da carreira.
IFC Films / Divulgação

Crítica. ‘Summerland’ e as relações humanas com a guerra como pano de fundo

O filme chegou às salas nacionais na passada quinta-feira (24)

Summerland é a primeira aventura de Jessica Swale nas longas-metragens, depois de ter realizado três curtas. O filme conta com Gemma Arterton no papel principal, numa história que seduz o espectador mas que oferece menos do que promete. Mesmo assim, o enredo e as personagens possuem algum encanto, inserindo a produção, sem desprimor, na categoria do cinema de conforto.

O filme começa na costa de Kent, em Inglaterra, no ano de 1975, onde vemos uma versão mais velha (Penelope Wilson) de Alice Lamb, a personagem principal da história, a gritar rudemente com uns miúdos que estão à porta do seu chalé para que estes se vão embora e a deixem continuar a datilografar na máquina de escrever. Daqui saltamos para os anos 40, onde ficamos a conhecer a jovem Alice (Gemma Arterton) a escrever à mesma máquina e a gritar, à mesma, com crianças.

Mesmo que à primeira vista não tenhamos logo a perceção do que vai tratar a história, o argumento, escrito pela própria realizadora, consegue estabelecer, de forma eficaz, que Alice não é a típica protagonista simpática e amável – fazendo-nos perceber que estamos perante um arco narrativo que acompanhará a jornada de transformação de uma personagem.

A personagem de Arterton vive distanciada da sua comunidade, e rapidamente percebemos o porquê: Alice é uma mulher quase reclusa que decidiu enveredar pela investigação, tentando descortinar mitos e folclore, na procura dos factos por detrás da ficção. Este interesse em temas da mitologia pagã leva as crianças da vila a achar que Alice é uma bruxa ou “espiã alemã”, e os adultos acabam também por ter medo do que esta possa estar envolvida.

“Espiã alemã” porque o filme se passa durante a Segunda Guerra Mundial, apesar de ser fácil esquecermo-nos disso ao vê-lo. A guerra é praticamente invisível e pouco citada, apesar das bombas que caíam, ao mesmo tempo, no resto do país. A falta de referência à guerra faz com que a história pareça desenrolar-se dentro de uma bolha protetora, tornando Kent numa espécie de sítio mágico. Esta decisão de afastar a ação dos confrontos militares pode ser desconcertante para quem esteja à espera de um produto mais pesado narrativamente, dado que o filme é dotado de uma inocência que teima em fazer com que tudo acabe bem no final.

Uma história leve, mas bem interpretada

Mas se já sabemos porque é que as crianças de Kent não gostam de Alice, resta entender de onde vem a animosidade da protagonista. Numa segunda trama dentro do argumento, inserida através de flashbacks ocasionais a um passado recente, vemos o desenvolvimento da relação entre Alice e Vera (Gugu Mbatha-Raw), uma amizade que se desenvolve num romance que não é aceite pela sociedade, ainda para mais entre uma mulher branca e outra negra.

Mas Vera tinha o sonho de ter filhos e criar uma família, e a relação termina deixo Vera sentindo-se traída e abandonada, e a amargura desenvolvida por este acontecimento levou-a a passar a olhar para as crianças com um certo ódio.

summerland
IFC Films / Divulgação

Esta animosidade começa a desaparecer quando aparece Frank (Lucas Bond), um rapaz despejado – literalmente – à porta de casa de Alice. Com ambos os pais diretamente envolvidos no esforço de guerra, Frank é evacuado temporariamente para Kent, longe das bombas alemães lançadas sobre a cidade de Londres. Sem saber, Alice foi escolhida para acolher Frank durante o período mais tenso da guerra.

Nos primeiros momentos, Alice mostra-se horrorizada com a novidade, dando permissão à criança para ficar apenas uma semana na casa, até que outro lar lhe possa ser facultado. Mas tudo muda neste espaço de tempo, durante o qual Frank, uma criança solitária, adorável e assustada, consegue derreter o gelo que reveste o coração de Alice.

O argumento não é muito inovador, dado que já vimos vestígios deste tipo de narrativa noutros filmes, em que pessoas que se odeiam aprendem a gostar uma da outra. Neste caso, Frank começa a interessar-se pelo trabalho académico de Alice, que lhe conta sobre a existência de Summerland, uma versão pagã do céu, que supostamente pode ser visto da costa de Kent, tratando-se de uma ilha flutuante sobre o mar.

Os laços começam a estreitar-se entre os dois e, apesar do guião não ser o mais rico em conteúdo, Arterton e Bond são assombrosamente talentosos, demonstrando uma química totalmente capaz de vender a história ao espectador. No fim, Summerland acaba por ser um veículo para mostrar, mais uma vez, que Gemma Arterton é uma enorme atriz, demonstrando vulnerabilidade e amargura, misturada com uma certa crueldade, com uma facilidade impressionante. A atriz já tinha brilhado no excelente Herói da Nação e aqui superioriza-se ainda mais, permitindo esquecer, em alguns momentos, a fragilidade do guião.

Summerland podia ser de outro nível

Como dito acima, o filme vai-nos exibindo alguns flashbacks da relação entre Alice e Vera – e é nestes momentos que desejamos que o argumento escrito por Swale tivesse sido mais corajoso. Os ingredientes estão todos lá, e o filme consegue quebrar com certa heteronormatividade que impera em filmes de guerra, para além de incluir uma relação entre uma mulher negra e uma branca. Mas é tudo feito de forma tímida e silenciosa.

As cenas entre as duas atrizes são reduzidas em número e duração e, apesar de visualmente bonitas, falta-lhes a intensidade emocional para que se tornassem no foco do filme e do espectador. E é uma pena, porque Summerland só ganharia em se centrar mais na relação das duas mulheres, tão arriscada e provocadora para a época.

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O final do filme também deixa a desejar do ponto de vista narrativo, dependendo de várias coincidências em que é difícil acreditar. As reviravoltas do enredo atribuem ao filme uma certa característica de conto de fadas, onde tudo tem necessariamente de correr bem às personagens principais, o que retira algum realismo à obra de Swale.

Mesmo assim, Summerland é salvo, em primeiro lugar, por ser visualmente imaculado, com os seus cenários soalheiros da costa de Kent conjugados com o excelente trabalho de câmara de Laurie Rosie, focando-se em janelas com vistas encantadoras que dão uma naturalidade ao filme que corresponde com a paisagem e, em segundo lugar, por Gemma Arterton, que faz um excelente trabalho em carregar a história às costas, e pelo jovem Lucas Bond, que consegue reproduzir, ao mesmo tempo, a fragilidade e inocência tão característica nas crianças.

O resto do elenco também é bastante digno de nota, contando com Tom Courtenay a interpretar o professor da escola, que enche as medidas de um papel tão curto, e a jovem Dixie Egerickx, que dá vida a Edie, a amiga que Frank faz no primeiro dia de aulas e que mostra ser quase uma futura versão de Alice, apelidando-se de “independente” e “individualista”. E, apesar da leveza da história, fica-se com vontade de ver o que a realizadora Jessica Swale fará no futuro.

Mesmo com um final que é quase uma traição à premissa da história, o filme acaba por ser esquecível. No entanto, ancorado por uma performance emocional de Gemma Arterton, Summerland tem o coração no sítio certo, providenciado aos espectadores uma agradável e emotiva experiência no cinema.

'Summerland' dá a Gemma Arterton um dos melhores papéis da carreira.
6.5

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