Os Quatro e Meia
Rui Marques, Tiago Nogueira, Ricardo Almeida, Mário Ferreira, João Rodrigues e Pedro Figueiredo

Os Quatro e Meia: “Na música não há barreiras”

Três anos depois de se terem estreado no primeiro lugar do top de vendas nacional, Os Quatro e Meia regressam aos originais com o segundo trabalho discográfico. Produzido por João Só, O Tempo Vai Esperar, lançado esta sexta-feira (25), conta com onze temas: dez inéditos e uma renovação com a participação de Pedro Tatanka, dos The Black MambaCarlão junta-se também ao grupo no tema Bom Rapaz.

Os Quatro e Meia surgiram em 2013, após uma atuação bem-sucedida do grupo de universitários de Coimbra num espetáculo de angariação de fundos para uma academia de dança. O grupo é composto, atualmente, por seis elementos: João Rodrigues (violino e bandolim), Mário Ferreira (acordeão e voz), Pedro Figueiredo (percussão), Ricardo Almeida (voz e guitarra), Rui Marques (contrabaixo) e Tiago Nogueira (voz e guitarra). Todos têm, para além da música, outra profissão: há três médicos (Pedro, Ricardo e Tiago), dois engenheiros informáticos (Mário e Rui) e um professor de música (João).

Em entrevista ao Espalha-Factos, os elementos Mário Ferreira (M.F.), Ricardo Almeida (R.A.) e Tiago Nogueira (T.N.) partilharam que Os Quatro e Meia não acreditam em barreiras musicais, tendo este novo álbum espelhado “essa abertura de horizontes“. A forma como foram acarinhados por outros artistas com mais experiência nas colaborações para este novo trabalho fê-los constatar, precisamente, “que na música não há, de facto, barreiras“.

Para quem ainda não vos conhece, como é que definem Os Quatro e Meia?

T.N.: Nós somos uma banda que nasceu há quase oito anos. Surgimos em Coimbra, porque foi lá que nos conhecemos, embora não sejamos todos de lá. Desde sempre que tocamos música em português, somos uma banda de pop atualmente, embora as nossas raízes também tenham muito de música tradicional. No fundo é isso, somos seis amigos que se conheceram antes de isto tudo, que não eram músicos até então e que, de repente, quase por obra do acaso, acabaram por enveredar numa carreira musical.

Os Quatro e Meia
Coimbra é definida como “a cidade onde tudo começou”. Imagem: Facebook

O vosso estilo define-se como uma mistura de vários registos. Para vocês, existem barreiras ao nível do que pode ser feito musicalmente ou o vosso desafio é mesmo quebrar esses convencionalismos?

R.A.: Nós cremos que não, aliás não acreditamos muito em barreiras e só temos apenas um ideal: tem de nos soar bem aos seis, independentemente do estilo de música de que estejamos a falar. Se nos soar bem, então vamos por aí e vamos tentar descobrir o que é que pode sair, porque às vezes abrimos uma pequena porta e surge uma nova área lá em casa por descobrir e que podemos perfeitamente aproveitar ao máximo.

Esta procura por enveredar em novos registos é algo que tem caracterizado o vosso percurso?

T.N.: Sem dúvida alguma e acho que este novo álbum também espelha um bocadinho essa abertura de horizontes. Se fizermos uma comparação com o primeiro, o Pontos nos Is, provavelmente nesse focámo-nos, sobretudo, naquilo que eram as nossas músicas iniciais e nas nossas influências até antes de começarmos a tocar juntos. Este segundo álbum, para além das nossas influências, tem outras, temos a produção do João Só aqui a colocar também mundos novos, temos instrumentos que não tínhamos no primeiro álbum e que surgem neste, nomeadamente guitarra elétrica, e que de certa forma expandem aquilo que tem sido até aqui a nossa sonoridade. Fomos ganhando também, nestes três anos que entretanto passaram, alguma experiência acumulada com outros músicos que tocaram connosco em concertos e ensaios. Procurámos não nos esgotarmos no que já tínhamos.

Neste novo álbum contam com a participação de Pedro Tatanka dos The Black Mamba e de Carlão. Trazerem colaborações para os vossos trabalhos também serve essa missão de alargar o leque de registos musicais?

M.F.: Sim, é sempre um prazer tocar com outros músicos. Nós conhecemos o Pedro Tatanka num concerto nosso, ele foi convidado para vir tocar connosco e adorámos a experiência: o tema Se Eu Pudesse Voltar volta a estar no disco e nós achámos que fazia sentir incluir também a voz do Pedro Tatanka no disco. Tivemos uma situação um pouco diferente com a questão do Carlão. Quando a música surgiu, há dois ou três anos, logo no início nós conseguíamos imaginar a voz do Carlão na nossa canção. E, por brincadeira, acabámos por comentar entre nós que fazia sentido uma música com o Carlão. Quando chegámos realmente ao estúdio e estávamos já no processo de gravação, falámos com o João Só [que produziu o álbum] e ele entrou em contacto com o Carlão.

T.N.: [Para] nós, que acabámos por cair no mundo da música assim de uma forma um bocadinho casual, é engraçado perceber que há quem tenha a projeção e o carisma que o Carlão tem e tenha esta facilidade e esta abertura de entrar num projeto completamente diferente e mesmo assim achar piada a isto. Com estas experiências nós percebemos que na música não há, de facto, barreiras.

O grupo nasce após uma atuação bem-sucedida em 2013 e, quatro anos depois, em 2017, lançam o primeiro álbum. Como é que foram esses primeiros quatro anos?

T.N.: Foi sobretudo de “apalpação” do terreno, nós aparecemos quase por acaso. Nos primeiros quatro anos, foi um crescimento gradual: começámos a escrever os nossos próprios temas, começámos a perceber que havia gente que nos achava piada e que começava a identificar-se connosco. No fundo, fomos colecionando experiências. De repente, apareceu-nos uma agência, o que fez também ali um clique na nossa cabeça de perceber que poderíamos atingir uma dimensão diferente e começar a chegar a mais público. Depois, surge também a Sony Music interessada em editar dois discos. Na altura, para nós foi completamente incrível perceber que a Sony Music queria ser nossa parceira e foi isso também que nos estimulou a juntar aquelas primeiras músicas que fomos fazendo num álbum e começámos a trabalhar em estúdio, coisa que até aí não tínhamos propriamente feito.

Pontos nos Is, o vosso primeiro trabalho, entrou diretamente para o primeiro lugar do top de vendas nacional. Estavam à espera desta receção por parte do público?

R.A.: Fomos completamente apanhados de surpresa, honestamente não estávamos à espera. Temos famílias grandes, muitos amigos, e eles se calhar compraram alguns desses CD, mas daí até chegarmos ao primeiro lugar do top ainda ia uma distância muito grande do que sonhávamos.

Seguiram-se vários concertos de norte a sul do país, atuações em festivais de verão e a estreia nos coliseus. Este primeiro álbum permitiu que consolidassem o nome d’Os Quatro e Meia no panorama nacional?

T.N.: O nosso intuito foi darmo-nos a conhecer. Nós temos noção de que éramos um fenómeno muito local. Começámos por tocar em Coimbra, não éramos propriamente uma banda de bar ou de garagem, mas tínhamos quase como habitat natural um mundo de auditório, de teatro e foi sobretudo nesse tipo de espaços que nós fomos fazendo as nossas primeiras aparições. Mais do que consolidar, penso que foi dar a conhecer. Consolidar talvez seja mais este segundo em que já algumas pessoas nos conhecem, mas muitas se calhar só conhecem o nome ou só conhecem duas ou três músicas.

Três anos depois, chega agora o vosso segundo trabalho discográfico, O Tempo Vai Esperar. Este título tem algum significado especial?

T.N.: Como quase todas as pessoas do mundo, nós temos uma relação especial com o tempo e com aquilo que temos de fazer com ele. Como temos outras profissões para além da música, a gestão do tempo tem sido sempre um tema que a nós nos diz muito, porque é fácil perceber que ser engenheiro e músico, ser professor e músico, ser médico e músico é algo que implica aqui uma ginástica muito grande e faz com que, às vezes, nós odiemos a falta de tempo que temos, e que, outras vezes, nós nos sintamos tão bem que adorávamos que o tempo parasse ali. Por isso, temos tido aqui uma relação muito especial com o tempo e o álbum reflete também um bocadinho isso, embora as músicas vão para lá disso, mas o título pareceu-nos muito apropriado e ainda por cima tornou-se quase premonitório de que o álbum ia ter mesmo que esperar para ser lançado, entre abril e setembro.

Dos onze temas do novo álbum, quatro já são conhecidos – O Tempo Vai Esperar, A Terra Gira, Canção do Metro e Bom Rapaz Feat. Carlão. Que feedback é que têm recebido?

T.N.: Tem sido ótimo. A versão que nós tínhamos lançado de O Tempo Vai Esperar é bastante distinta da que consta no álbum, porque os arranjos nunca são minimamente parecidos nem nós somos capazes de fazer ao vivo o que fazemos no estúdio e vice-versa. Mas a verdade é que esses singles de avanço tiveram um impacto muito interessante e A Terra Gira é provavelmente das músicas que tem mais visibilidade: passou muito tempo na rádio, consta também no alinhamento de uma telenovela, é das músicas que têm tido mais carinho por parte do público. O Bom Rapaz também tem gerado um grande interesse com o contributo que o Carlão lhe deu.

O concerto de apresentação deste novo trabalho aconteceu no dia 22, no Convento de São Francisco, em Coimbra, onde já tinham estado, em 2018, com o vosso primeiro disco. Voltar às origens é uma forma de retribuírem o primeiro apoio?

T.N.: Nós gostamos sempre de voltar [a Coimbra]: foi lá que crescemos, foi lá o nosso primeiro público, talvez aquele que nos segue há mais tempo e, de certa forma, é lá que consideramos [estar] a nossa casa. Mais do que uma retribuição, é o reconhecimento de que nos têm tratado sempre muito bem e é lá que está a maioria dos nossos amigos e da nossa família mais próxima. Por isso, para nós fez sentido que o lançamento fosse numa casa que nos diz tanto e junto das pessoas que nos seguem também há mais tempo.

É incontornável não passarmos pelo tema da situação atual. Como é que vos tocou, enquanto grupo, a pandemia?

M.F.: Tocou principalmente porque deixámos de poder fazer aquilo que gostávamos que era, para além de termos a nossa profissão paralela, nos juntarmos, fazermos música, termos ensaios, termos concertos, estarmos com os nossos amigos. Acabámos por ter de nos limitar à profissão paralela e também ao processo criativo à distância, ou seja, acabámos por perceber que a única forma que tínhamos, durante dois, três meses, era de trabalhar por WhatsApp.

T.N.: Para além disto, a nossa banda não se esgota nos seis que estão no palco e que dão a cara, há muito mais gente à volta, uma equipa técnica que ficou parada este tempo todo. Eles, mais do que colaboradores nossos, são quase família. Isto é uma coisa que nos consome tanto tempo e que nos leva a fazer tantos quilómetros todos juntos, nós os seis e a nossa equipa toda, que uma das nossas principais preocupações numa fase inicial foi precisamente como é que eles iriam ficar logo sem concertos. É algo que, de facto, tem tido um impacto muito sério em todas as áreas do entretenimento, na Cultura em particular, e na música muito em específico há a ausência de concertos que tem mexido com todos, e com eles ainda mais.

Todos os membros do grupo têm uma outra ocupação, para lá da música. Tendo em conta que há vários artistas a passar dificuldades, isto salvaguardou-vos durante esta fase?

T.N.: Sim, para nós é obviamente uma âncora poder não depender totalmente da música e a verdade é que, em Portugal, infelizmente, poucas são as pessoas que podem dizer que dependem exclusivamente da música. O que existe mais são pessoas com duas profissões. Nós estamos nessa posição como tantos outros. Agora, que nos dá essa segurança, dá. Como sempre nos deu a segurança de, muitas vezes, as nossas opções não terem de ser feitas naquela busca quase doente pelo sucesso, mas sim numa ótica de podermos fazer uma coisa de que gostamos sem a pressão externa constante de ter de fazer música que tem de vender.

Viver apenas da música é uma opção em que se veriam no futuro ou preferem manter as duas ocupações em paralelo?

R.A.: Esse é um assunto que nós não consideramos. Todos nós, além do facto de sermos músicos, adoramos as nossas outras profissões e, como tal, quando se faz algo de que se gosta, normalmente não pensamos em mudá-las. Portanto, não colocamos essa hipótese em cima da mesa, neste momento.

feedback que têm recebido já por parte do público em relação aos novos singles pode ser um prenúncio para o que pode ser a receção a este novo trabalho?

T.N.: Esperemos que sim. É claro que nós quando fazemos um álbum estamos sempre à espera de que as pessoas gostem dele, caso contrário teríamos de refazê-lo por completo. Nada que nunca nos tenha ocorrido, por acaso. Eu acho que isto acontece com toda a gente que trabalha no processo criativo: achar sempre que podia ter feito melhor. Claro que nós poderíamos ter feito sempre melhor. Mas às vezes também se entra numa espiral um bocado negativa, por isso, se calhar, é melhor isto do que sair não tão melhor. E nós temos de tentar simplificar um bocadinho essa ideia, porque, na verdade, já nos aconteceu a experiência de fazer de novo e parece que voltámos exatamente ao mesmo.

Mais Artigos
O Próximo Convidado Dispensa Apresentações com David Letterman
‘O Próximo Convidado Dispensa Apresentações com David Letterman’ está de volta à Netflix