Noiserv
Fotografia: Divulgação // Vera Marmelo

Entrevista. Noiserv: “O disco tem todo um conceito à volta, como se fosse uma história”

O novo disco de Noiserv, Uma palavra começada por N, ficou, esta sexta-feira (25), disponível nas lojas e para escuta nas plataformas digitais. Em entrevista ao Espalha-Factos, o artista revela sobre como este seu novo trabalho apresenta um “cuidado maior com cada um dos sons“, o espaço crescente que as componentes visuais ganharam na concepção deste disco e todo o significado por trás das 11 faixas que constituem o trabalho.

O quarto longa-duração de Noiserv, projeto musical pelo qual se tem apresentado, desde 2005, o produtor e multi-instrumentalista David Santos, vê o músico explorar uma “estética mais arrojada“, mas que não esquece o Noiserv que “muitos conhecem“. É um disco que explora, maioritariamente, dois sentimentos.

Este seu novo projeto tem vindo a ser revelado aos poucos. Desde dezembro do ano passado que o artista nos tem presenteado com um novo single e videoclipe na última sexta-feira de cada mês. Os vídeos foram criados em conjunto com a produtora audiovisual Casota Collective, tendo as ilustrações do disco, e respetivos singles, sido feitas pelo músico em parceria com Nuno Sarmento.

O artista vai embarcar numa digressão de apresentação do disco que se inicia a 25 de setembro, em Fafe, tendo datas confirmadas até novembro de 2020, passando por localidades como Lisboa, Porto, Braga, Castelo Branco, Vila Real e muitas outras.

Noiserv - UMA PALAVRA COMEÇADA POR N
Fotografia: Divulgação // Noiserv e Nuno Sarmento

EF: Na introdução a este novo disco, Uma palavra começada por N, lê-se que este possui uma estética mais arrojada comparada com os teus trabalhos anteriores. Em que aspetos achas que o é e que elementos e influências introduziste neste teu novo trabalho?

Noiserv: Acho que, em termos de ser mais arrojado ou não, este disco tem um cuidado maior com cada um dos sons. O que não quer dizer que nos outros discos, eu não tenha tido esse cuidado, mas neste perdi muito mais tempo com cada som em particular, com cada textura e com cada início de música. Isto porque, se calhar, fico cada vez menos rapidamente satisfeito e não me contentei logo com os primeiros sons que ia encontrando. Portanto, em termos desse arrojado que se fala, acho que pode ter sido um bocadinho isso. Em termos de influências, eu não acho que existam influências para essa alteração. Essa veio em sequência dos trabalhos que eu tenho vindo feito e das colaborações que tenho tido noutros projetos, tanto de cinema, como teatro, como dança. E nessas variadas coisas, eu tenho aprofundado melhor a “qualidade” de cada som e isso fez com que, quando eu cheguei a este disco, tivesse a vontade de procurar algo que eu ainda não tivesse explorado da mesma maneira. Acho que é o caminho que vou fazendo que me vai dizendo o que quero fazer a seguir e não propriamente coisas que vi noutras pessoas.

Uma palavra começada por N é o título deste disco. O N presente no título é uma referência a este projeto musical do Noiserv?

Tanto pode ser como pode não ser. Uma das vantagens desse título é ter muitas hipóteses. Ainda há bocado, numa entrevista, me diziam que atualmente só se fala que estamos a viver o “novo normal”, e novo normal eram duas palavras começadas por n. E eu acho que o título tem essa piada. Claramente, Noiserv é uma dessas palavras começadas por n e, se calhar, até é o motor principal para que o título seja esse, mas eu senti alguma dificuldade em conseguir arranjar uma palavra só que descrevesse este título ou que descrevesse este disco. E, de repente, o título podia ser um conjunto variado de coisas, muitas delas eu nem sei quais. Dá muitas mais possibilidades àquilo que o disco podia ser para quem o estivesse a ouvir. Portanto, claramente começou por vir de Noiserv, mas rapidamente percebo que poderá ser muito mais do que isso.

Neste teu novo trabalho, as músicas parecem ligar-se entre elas através dos sentimentos que ecoam. Quais eram os sentimentos que pretendias transmitir?

As músicas não falam todas propriamente das mesmas coisas. Tirando duas ou três, de uma maneira ou outra, todas elas falam sempre um bocadinho dos meus receios que sinto na altura daquilo que estou a fazer. E eu acho que, na altura de fazer um quarto disco, há muita preocupação, pelo menos da minha parte, de entender o que é que queres, ou não, fazer, se aquilo poderá eventualmente ser gostado pelas pessoas que já gostavam do que fazias antes e ver até que ponto é que essa preocupação extrema te pode limitar, ou não, criativamente. Depois, também é tu próprio perceberes quem é que tu és e quem é que tu não és, e isso já é um bocadinho mais transversal a todos os meus discos. Por exemplo, a música ‘Neste Andar’ fala muito disso, dessa quase diária condição que nós temos de questionarmos-nos a nós próprios. Praticamente todo o disco fala desses dois momentos. Desse “o que é que somos, o que é que não somos” e, acima de tudo, dessa noção de tu perceberes em que ponto, não da tua carreira, mas da tua situação criativa, é que estás ou não estás e como é que lidas com isso, com as expectativas dos outros, mas também com as tuas próprias. E tu queres chegar a um resultado final, independentemente desses receios todos que possas ter.

Desde dezembro de 2019 que nos tens revelado uma nova canção e vídeo na última sexta-feira de cada mês. Existe algum propósito por de trás disso?

O propósito principal era que as pessoas pudessem ir conhecendo o disco todo ao longo do ano e, depois, quando este saísse, tu conhecias a última música. Agora, a ideia de chegar a esse ponto veio de muitas ideias antes dessa. Uma delas é eu achar que cada disco, hoje em dia, vive dos dois ou três singles que tem e depois só conhecem o resto do disco, as pessoas que vão procurar ouvi-lo todo. E dessa maneira, eu conseguia que as pessoas que me seguissem, mesmo aquelas que não comprassem o disco, ouvissem o disco todo. É como se eu estivesse a dar o espaço a cada música que elas não teriam caso saíssem apenas no disco. E de repente, cada música tinha um mês para poder ser ouvida, para poder ser avaliada da maneira que fosse. Portanto, fez-me sentido que os lançamentos fossem dessa forma. Juntamente, eu tinha a ideia de que, visualmente, tinha de existir uma coerência maior entre todas as músicas ou entre todos os videoclipes, que é uma coisa que eu não tinha feito nos discos anteriores. Ou seja, queria que todos os vídeos se ligassem de uma maneira maior e não queria dar preponderância apenas a só uma ou outra música. Queria que todas elas, também nos vídeos, funcionassem como um conjunto. E a partir do momento em que eu ia ter um vídeo para cada música, fez-me sentido que cada um desses, como estava a dizer antes, tivesse a chance de “respirar” algum tempo. A ideia básica foi essa. Ao contrário dos outros discos, para o disco que sai na sexta-feira, quem quis estar atento, se calhar já conhece praticamente o disco todo. Só não conhece o alinhamento em que o disco estará, sendo que isso foi propositado, para que fosse uma nova experiência.

Deste grande importância à componente visual deste disco. Não só nos videoclipes, mas também nas várias artworks e naquela que será a edição física. Qual a relação que pretendias criar entre todas estas componentes?

O disco tem todo um conceito à volta, como se fosse uma história. Tem as diferentes perspetivas com que nós podemos olhar para uma mesma coisa, e essa mesma coisa podemos ser nós próprios, quando estamos a tentar interpretarmos-nos. E eu acho que um disco, ou um conjunto de músicas tem, além da parte musical, uma série de outras componentes que podem, também, ser utilizadas para reforçar o seu conceito. Hoje em dia, com as plataformas digitais, cada música acaba por ter uma capa que poderá, ou não, ser diferente da do próprio disco e, portanto, há mais esse local aonde podes dizer alguma coisa. Os videoclipes também são uma outra forma, mais visual e até, mais direta, de dizeres alguma coisa. E, havendo todos esses pontos, eu apenas quis que, em todas as coisas que eu achasse que a música pudesse estar ligada, aprofundar de que forma é que isso podia dar mais alguma coisa ao disco. E foi dessa forma que tanto os artworks dos singles nas plataformas digitais, como os próprios videoclipes, foram todos mais pensados. Cada música viveu muito mais, até para mim próprio, do que anteriormente. Houve um trabalho muito maior de criar mais elementos que se relacionassem com o próprio disco.

Para a criação dos videoclipes deste disco, tens colaborado com a produtora audiovisual Casota Collective. Como é que foi essa colaboração e qual foi o teu papel no desenvolvimento do conceito de cada vídeo?

O meu papel em todas as coisas relacionadas com o Noiserv é um papel sempre muito presente e, não que eu não deixe que as outras pessoas não possam ter ideias, mas, inicialmente, essas vêm praticamente sempre de mim porque fui eu que fiz as músicas e sou eu que tenho uma ideia concreta sobre o que aquela música é ou não é. Felizmente, tenho-me conseguido rodear por pessoas cuja capacidade criativa eu valorizo e gosto muito. E o trabalho com os Casota [Collective] foi maioritariamente isso. Eu cheguei ao pé deles e disse que ia lançar um disco, com 11 músicas e que queria fazer dez ou onze videoclipes que tinham, de alguma forma, ligar-se todos uns aos outros, dentro do mesmo universo. E perguntei: “Como é que vamos fazer isto?”. E começámos a ter vários encontros, várias reuniões, em que eu dou uma ideia, eles dão outra, e a coisa foi crescendo e foi-se construindo. Portanto, tudo aquilo que se vê no resultado dos vídeos, começou por uma ideia, uma coisa que eu tive, mas depois foi em conjunto que os criámos.

Referenciaste que já efetuaste várias colaborações na área do cinema, teatro e dança. Que enriquecimento retiras dessas experiências?

Eu acho que qualquer coisa que uma pessoa faça enriquece sempre. Isto porque, todos os trabalhos são diferentes, as pessoas são todas diferentes. E eu tento, pelo menos, fazer, não digo objetivamente, sempre diferente. E tudo isso são diferentes gatilhos para que eu consiga fazer alguma música para aquelas coisas. Quando volto a um disco meu ao fim de uma série de colaborações, eu sinto-me sempre mais rico por todas as experiências que tive e que influenciam sempre o disco a seguir. A questão da dança, por exemplo, é uma área que me permite ser muito mais experimental, muito menos “cancioneiro”. Poucos são os espetáculos de dança que têm uma música com verso e com refrão. Claro que tem muitas cadências, e cadências essas que se podem repetir, mas não é uma canção dita, vá, “normal”. E isso abre muito o espectro criativo daquilo que a pessoa é capaz de fazer. Acho que todas essas coisas que tenho feito têm sido muito importantes, até no meu amadurecimento enquanto músico.

Vais agora fazer uma digressão para a apresentação deste teu novo trabalho. Antes disto, já tiveste a possibilidade de dar concertos após o desconfinamento. Podes contar um pouco de como foi essa experiência? Quais as principais diferenças num concerto, dito, “normal”?

A grande mudança é com todos os cuidados que tu tens de ter logo à chegada. Depois, todo este quase receio porque não sabes muito bem se o concerto vai acontecer ou não. A qualquer momento pode haver um novo confinamento que obrigue a cancelar de novo as coisas. E, juntamente com isso, há a questão também do público. Acho que as pessoas estão com mais receio em poderem ir às coisas. E mesmo as que não estão com receio e que vão, há o uso obrigatório da máscara, há todo um distanciamento. E tens um concerto que pode estar esgotado, mas que às vezes nem chega a metade da lotação que teria. É toda uma dinâmica diferente, mesmo para quem toca e para quem vê o público porque não vês as caras. Não vês se as pessoas estão a rir, se não estão. Eu acho que é importante que as coisas aconteçam e que se consiga, da melhor maneira possível, aproveitar as oportunidades que se vão tendo, que os músicos continuem a tocar, que as pessoas continuem a querer ir ver os concertos e que ambas as partes respeitem aquilo que é suposto respeitar. Todas estas novas regras são uma aprendizagem para quem toca e para quem vê.

Durante o confinamento, muito do consumo de música foi feito através de plataformas digitais, como o Spotify ou Apple Music. No entanto, é praticamente impossível viver só dos lucros obtidos destes serviços. Que opinião tens dessas plataformas, enquanto artista?

Eu acho que é uma discussão longa, e já vem de há muito tempo, sobre as plataformas digitais. Eu sinto que todas as pessoas estão de acordo que, antigamente, quando a música tinha de ser comprada numa loja, tanto para as editoras como para edições independentes, o lucro seria eventualmente muito maior. Agora, eu acho que, uma pessoa, tal como durante o confinamento, tem de conseguir fazer as coisas com aquilo que tem à frente. É preciso ter a noção de que vivemos numa altura em que as pessoas ouvem a música nos telemóveis, ouvem a música nos tablets. Portanto, as plataformas digitais, e já nem tanto o Youtube, é onde as pessoas ouvem grande parte da música. Um artista bater o pé e não meter a música nessas plataformas para mim acho que é um erro porque faz com que as pessoas não te consigam ouvir no meio através do qual, atualmente, se ouve grande parte da música. E, portanto, acho que, é preciso ter a noção que as coisas mudam e que o artista tem de se adaptar. E, neste caso, eu não acho que o adaptar seja ir contra, mas sim, tentar viver da melhor maneira possível com essas novas ferramentas e tentar, de alguma forma, que essas ferramentas te ajudem.

Com estas plataformas de streaming, quando eu gosto de um artista novo e mando o link da música a um amigo meu, esta ligação é muito mais rápida do que antigamente, quando se dizia “depois empresto-te o CD”. E essa pessoa a quem eu mandei o link, se calhar, vai mais rapidamente a um concerto do que esse amigo a quem eu teria eventualmente emprestado o CD. Portanto, também há coisas boas da rapidez com que a música pode ser partilhada. Agora, em termos de lucros verdadeiros, e não que o lucro viesse maioritariamente dos CDs, mas a subsistência de um músico vem, basicamente, dos concertos e um bocadinho das vendas físicas que consiga fazer nos mesmos concertos. Não é das vendas digitais. E, para isso, é necessário que se tenha hábitos de consumo de cultura verdadeiros, em que não pode ser suficiente ver as séries da Netflix ou ouvir músicos no Spotify. Tem de começar, até pelos próprios músicos. Ir ao cinema, ir ver espetáculos de teatro, ir ver espetáculos de dança, ir a concertos. Se todas as pessoas forem aos espetáculos, o Spotify vai ser apenas uma ferramenta para partilha e audição de música. Mas não acho que haja uma fórmula milagrosa para isto. As coisas vão andando, vão mudando e a pessoa vai gerindo.

As datas para a digressão de apresentação de Uma palavra começada por N podem ser encontradas na página oficial de Facebook do Noiserv e os bilhetes já estão à venda.

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