Gerard Butler é o protagonista de Greenland
Cinemundo Lda. / Divulgação

Crítica. ‘Greenland – O Último Refúgio’, mas só dos ricos e poderosos

O filme chega esta quinta-feira (24) às salas de cinema nacionais.

Greenland – O Último Refúgio é o mais recente filme realizado por Ric Roman Waugh, numa história onde o fim do mundo serve de reencontro com Gerard Butler, depois de terem trabalhado juntos em Assalto ao Poder. Este seu novo trabalho consegue a proeza de ser dos piores filmes do ano, dada a previsibilidade e a triste masculinidade tóxica a povoar o argumento de Chris Sparling.

A história é pouco original: uma família (branca) americana luta pela sobrevivência quando o mundo inteiro descobre que, de repente, um cometa se dirige para a Terra e vai, por certo, destruir a maior parte do planeta. O herói de serviço é John Garrity, interpretado por Gerard Butler, ator sempre eficiente em tudo o que faz, que tem de salvar a mulher, Allison (Morena Baccarin) e o jovem filho Nathan (Roger Dale Floyid), levando-os para uma espécie de refúgio criado pelo governo na Gronelândia.

Para já, os (poucos) pontos fortes de Greenland

Os poucos pontos positivos desta produção apocalíptica quase se esgotam na performance de Butler. O ator já está mais que rodado nestas andanças, tendo feito Assalto ao Poder, Assalto a Londres, Assalto à Casa Branca, Hunter Killer e Geostorm – A Ameaça Global. Todos eles são filmes em que Gerard é o protagonista, sempre incumbido de salvar governos de caírem, presidentes da morte e o mundo da extinção, respetivamente. Apesar de agora parecer apenas entrar em blockbusters demasiado permeáveis ao esquecimento, Butler é sempre sinónimo de qualidade e traz consigo, em todas as suas incursões, alguma dignidade aos projetos em que entra.

O outro elogio tem que ver com uma relativa plausibilidade da história. Pelo menos em comparação a Geostorm – A Ameaça Global, que envolvia algo como a criação de um satélite para controlar as catástrofes naturais. Neste filme, lá conseguimos aceitar que pode vir aí um cometa qualquer ameaçar a vida na Terra. A dupla de atores que rodeia Butler, Morena Baccarin e Scott Glenn, no papel de Dale, o sogro do protagonista, também são apostas certeiras numa tentativa de contrabalançar o fraco argumento com um elenco de algum nível.

Um argumento problemático

Mas ficamo-nos por aqui nos elogios. Em primeiro lugar, o argumento tem uma paixão gritante por esta família nuclear composta por pai, mãe e filho, ao ponto de ser irritante. Logo na primeira cena do filme, John, um construtor de arranha céus de profissão, parece saber à partida algo mais que o resto dos comuns mortais, sem ainda haver vestígios de pedaços de um cometa assassino. O protagonista olha melancólico para o céu, no prédio da obra onde está a trabalhar, como se já estivesse à espera de alguma coisa.

Allison, a mulher, é a “típica” esposa ambulante a quem tem de ser tudo explicado, porque a personagem parece não ter ideias ou vontades próprias. Depois, temos o idiótico sistema montado para salvar algumas pessoas da morte certa. John recebe uma mensagem por telefone do Governo a dizer que a sua família foi selecionada para refúgios criados pela entidade governamental na Gronelândia, uma espécie de Arca de Noé mas, neste caso, só para quem tiver um bom emprego.

Sim, porque se descobre mais à frente que o critério de escolha utilizado incluí apenas as pessoas com empregos que sejam “úteis” para construir a civilização do futuro, depois de tudo ter passado. O filme podia servir de crítica social, se não abraçasse abertamente o conceito por si criado. Numa cena, a família estava a dar uma festa em casa quando descobre a notícia de que foi selecionada para o refúgio e os restantes amigos, ao verem que não receberam a mesma mensagem, começam a questionar-se do porquê. Aliás, o argumento de Sparling chega a colocar, em pleno 2020, uma mulher negra, sem nome, apenas com esta breve aparição, a perguntar-se o porquê de não ter sido escolhida.

Imagem: Divulgação / Cinemundo Lda.

E isto é só a ponta do iceberg. Na teoria, todos os filmes sobre o fim do mundo são carregados aos ombros por protagonistas nos quais o público se revê ou por quem consegue torcer, para ficar investido na narrativa, mas Greenland nem isso consegue fazer. Na hora de partir para o local onde estão os aviões militares que irão transportar as famílias escolhidas para a Gronelândia, John é confrontado, na estrada, pela vizinhança que não foi escolhida, e uma mãe chega até a dar a própria filha para que esta se salve. Dado que as regras dizem que só pode ir a família escolhida, os Garrity são obrigados a seguir em frente.

E John faz isto com uma frieza pouco animadora. O filme podia enveredar pela clássica cena em que os protagonistas voltam para trás e mostram compaixão pelos vizinhos, mas nem isso faz. Seguimos em frente, sem olhar para trás. Como é possível o espectador torcer por um protagonista depois de tamanha arrogância? Chegados à base aérea, milhares de pessoas protestam à porta por falta do convite para se salvarem da morte.

O filho Nathan é um jovem diabético, dependente das injeções de insulina. E, de forma absolutamente previsível, no segundo ato do filme, a criança tira um cobertor da mala para se aquecer durante a viagem de carro e, na hora de partir, as injeções ficam caídas no chão, sem que ninguém dê por elas. Passamos grande parte da segunda metade da ação à procura das injeções, com John a ter de voltar atrás e a desencontrar-se da mulher e do filho, que quase partem para o lugar seguro sem o nobre pai de família. O filme acaba reduzido à busca de umas simples injeções de insulina que, mais tarde, desaparecem por completo da história, como se, por magia, já não fossem precisas.

E depois, uma segunda reviravolta: pessoas doentes não podem ir para a Gronelândia e, afinal, Nathan não pode embarcar – o futuro parece que só pode ser composto de gente saudável e “útil”. Mas porque terá a família, mesmo assim, recebido o tal convite? Parece que o Governo, para além de ter criado um sistema que viola a igualdade entre as pessoas perante o Estado, também comete erros informáticos na seleção de quem “merece” ser salvo.

A história está tão focada no futuro da família Garrity que, se o trio não consegue embarcar para a Gronelândia, mais ninguém consegue. Pouco depois de John perceber que a mulher e o filho não estão nos aviões, despoleta-se uma invasão dos manifestantes e os aviões começam a incendiar-se, assassinando, presumivelmente, as centenas de pessoas que lá estavam dentro, para além das que se aproximaram, em vão, destes meios de transporte de salvamento.

A masculinidade tóxica bem presente em Greenland

Passamos demasiado tempo a acompanhar as sucessivas – e incrivelmente repetetitivas – tentativas dos Garrity de se reunirem, sendo estes indivíduos bem mais bafejados pela sorte e simpatia do que aquela com que trataram os vizinhos, tendo em conta, pelo menos, a quantidade de pessoas que lhes aceitou dar boleia. No inicio do filme, percebemos que John e Allison estão separados, e já perto do fim da trama ficamos a saber porquê, numa revelação que é a cereja no topo do bolo num argumento pobre e recheado de masculinidade tóxica: John traiu Allison.

O filme podia ter seguido em frente, mesmo depois de dar mais um tiro no pé na tentativa de criar um protagonista que fosse querido pelo público. Mas volta a falhar ao colocar Allison a perdoar John, como se nada tivesse acontecido, pouco depois de se reencontrarem. Este tipo de narrativas, com traições perdoadas, sobre famílias brancas privilegiadas, arrogantes e imunes à morte certa dos outros pertence a um passado que teima em se manter vivo no presente das grandes produções de Hollywood. A nossa sorte é que o cinema já não depende do sucesso de Greenland, que decerto será esquecido pela irrelevância da sua história.

A palete laranja que reveste o filme cai no ridículo.
Imagem: Divulgação / Cinemundo Lda.

A história tenta pegar no drama humano e emocional da separação da família e das tentativas de reencontro, cada um com as suas atribulações, mas é tudo tão vazio e tedioso que pouco nos importamos, não chegando para elogiar a decisão, mais alternativa para um filme apocalíptico, um produto sempre tão centrado na destruição do planeta. As questões de classes sociais ficam à porta, e o privilégio é apontado mas acaba por ser defendido e absorvido pela família, tornando o argumento num dos piores do ano, que nos põe a questionar se queremos mesmo torcer pelos protagonistas nesta aventura, o que é um péssimo sinal no cinema deste género.

O último terço do filme desenrola-se em piloto automático, com a família a chegar a arriscar a vida de outros para se salvar, entrando depois na clássica corrida contra o tempo de, neste caso, chegar à Gronelândia por meios próprios e o final chega à previsível meta, sem arriscar, quebrar convenções ou inovar. Tudo isto é entretenimento pobre, que se leva demasiado a sério, sem espaço para gargalhadas ou momentos mais leves.

Mesmo nos aspetos técnicos, os efeitos visuais deixam algo a desejar, e pouco vemos da destruição, propriamente dita, causada pelos pedaços do cometa anunciado, típico aspeto de filmes sobre o fim do mundo. Sucessos como 2012, de Roland Emmerich, o melhor do género nos últimos anos, deram-nos o “festim visual” de assistir à destruição de símbolos culturais icónicos, como a Cidade do Vaticano ou a Torre Eiffel, e de cidades inteiras que ficaram submersas pela força das águas, um espetáculo satisfatório a que também não temos direito com este filme.

Greenland não chega nem perto disso, ficando-se por coisas muito pontuais e já gastas noutro tipo de produções, e acaba por ser um filme muito vazio, que serve apenas para pararmos de pensar durante duas horas, mas que, mesmo assim, não dá ao público o divertimento esperado.

 

Gerard Butler é o protagonista de Greenland
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