Alba Baptista em Warrior Nun
Fotografia: Netflix/Divulgação

Passaporte. O projeto que põe Portugal no mapa de Hollywood

Nuno Lopes, Albano Jerónimo ou Alba Baptista são alguns dos nomes que puseram Portugal no mapa. Mas será que chegaram lá por acaso?

Passaporte é o nome do projeto que está na cabeça de todos os atores que vivem em Portugal. Criada por Patrícia Vasconcelos, esta é uma iniciativa que tem como ambição internacionalizar carreiras e dá-las a conhecer ao mundo, ou, tal como muitos o descrevem, é uma oportunidade para várias oportunidades.

Casting director há mais de 30 anos, Patrícia Vasconcelos é fundadora e membro da direção da Academia Portuguesa de Cinema (APC), onde criou e desenvolveu o Passaporte. Além disso, é membro do International Casting Directors Network e a única portuguesa presente no Casting Society of America, o que lhe permitiu fazer vários contactos internacionais.

Contudo, a casting director reparava que quando os seus colegas faziam recrutamentos na Europa, paravam sempre em Espanha e nunca vinham a Portugal. “Ao longo de muitos anos fui dizendo aos meus colegas que um dia ia arranjar financiamento para os levar a Portugal e eles iam descobrir os atores extraordinários que temos.”. Surgiu então a ideia por detrás do Passaporte.

Decidida a destacar o talento português, Patrícia não parou até ter os recursos necessários. Foi assim que, em 2016, o projeto ganhou asas para voar. “Organizei tudo, as ideias vieram todas da minha cabeça e depois tive de as executar. Criei tudo de raiz, desde as regras de candidatura à escolha dos atores e dos casting directors.”, sublinhou.

Patrícia Vasconcelos
Patrícia Vasconcelos

Das várias caras que já rondaram o Passaporte, algumas destacam-se. Entre os casos de sucesso do programa distinguiram-se Alba Baptista, que protagonizou Warrior Nun, da Netflix, Simão Cayatte, que participou na série espanhola En el corredor de la muerte; Lídia Franco, que apareceu no filme 6 Underground; e Albano Jerónimo que, durante a primeira edição, entrou para o elenco da série Vikings. Foi ainda através do projeto que Nuno Lopes, Paulo Pires e Rafael Morais foram selecionados para o elenco de White Lines.

“A oportunidade para algo que eu já queria há muito tempo.” – Lucas Dutra

A corrida começa quando as inscrições para o Passaporte abrem. Nessa altura, inúmeros atores portugueses tentam a sua sorte, sabendo que, caso sejam selecionados, poderão ver as suas carreiras alteradas para sempre. É o pote de ouro no fim do arco-íris que todos procuram. “Este ano tivemos 600 candidatos e foi muito complexo”, revelou Patrícia Vasconcelos.

As candidaturas, que decorreram entre fevereiro e maio, são, no entanto, um processo complexo que obriga os atores a demonstrarem o seu talento. Quem o diz é Lucas Dutra, conhecido pelas novelas nacionais Alma e Coração e Os Nossos Dias. “Pedem-nos um currículo por escrito com o nosso trabalho, depois enviamos o showreel e uma self-tape, que pode ser um monólogo ou uma cena filmada por nós, a ler um texto numa língua que não a materna. Além disso, pedem uma foto nossa e um vídeo de apresentação, também noutras línguas. Pedem ainda que digas os idiomas que falas e os desportos que praticaste, para terem várias informações tuas.”

Lucas Dutra é um dos 12 selecionados para a edição de 2020, e, além disso, é o ator mais novo a alguma vez ter ingressado o Passaporte. Está a estudar Realização e Cinema em Londres e, uma vez que o projeto se realiza normalmente em maio, pensou em esperar e tentar apenas quando tivesse “mais formação” e “trabalhado mais um bocado”.

“A verdade é que com a Covid as coisas se alteraram e a data também foi alterada.”, diz Lucas. “A minha agente disse-me para experimentar, fazer o showreel e ir. Depois eu comecei a pesquisar mais sobre o Passaporte e vi que era a oportunidade para algo que eu já queria há muito tempo, que era trabalhar lá fora. Então tive de tentar”.

Lucas Dutra
Lucas Dutra

Na outra face da moeda está Joana Ribeiro, a atriz portuguesa célebre no mundo das novelas, entre elas Dancin’ Days, Poderosas e A Teia, e também pelos filmes O Homem que Matou Dom Quixote e Linhas Tortas. Joana foi uma das selecionadas para a primeira edição do Passaporte, em 2016, o que lhe permitiu internacionalizar a carreira. “Decidi candidatar-me não por achar que o que se faz lá fora é melhor, mas sim para ter acesso a mais projetos. Pareceu-me muito interessante trazer casting directors do mundo inteiro para conhecer atores portugueses. Eu quis experimentar esta iniciativa porque também queria perceber como é que era a indústria lá fora.”, contou a atriz.

Apesar de toda a preparação envolvente, Joana considera-a “necessária”, já que os casting directors que vêm a Portugal não estão à espera que os atores falem só português. “Eu lembro-me que no meu ano tive reuniões em francês e se eu não soubesse falar a língua, tinha perdido uma oportunidade muito grande. É sempre importante para um ator munir-se de várias armas, tanto em idiomas como dança ou desporto.”. Lucas Dutra concorda com a atriz e acrescenta ainda que “o trabalho de ator é desafiares-te a fazer coisas diferentes.”

Joana Ribeiro
Joana Ribeiro

 “O Passaporte põe-nos lá fora, torna-nos globais.” – Joana Ribeiro

Este ano, os cobiçados lugares do Passaporte foram ocupados por 12 candidatos, mas este número tem vindo a diminuir de ano para ano. “Na primeira edição entusiasmei-me e decidi pôr 40, foi uma loucura.”, comentou Patrícia Vasconcelos. Apesar de na segunda edição o número ter continuado elevado, a casting director percebeu que tinha de mudar as coisas. “Comecei a pensar que se escolhesse tantos atores por ano, daqui a uns anos já não havia ninguém para apresentar e o projeto morria. Por isso tive de começar a escolher poucos de cada vez.”

Mesmo assim, com o passar do tempo a família Passaporte cresceu. No entanto, os organizadores não se esquecem daqueles que já passaram por esta casa. Todos os atores selecionados em edições anteriores têm o privilégio de voltar às seguintes, caso sejam chamados para alguma atividade ou mesmo para uma entrevista com um casting director.

No decorrer do projeto, que este ano se realiza de 23 a 27 de setembro, os atores podem finalmente colher os frutos do seu trabalho árduo. Durante o evento têm a oportunidade de conversar com outros atores; participam no showcase; em palestras sobre o mercado internacional; e nos workshops, que incluem como fazer um showreel e self-tapes. “Lá fora é muito business e cá é um mercado mais pequeno e uma indústria que funciona de maneira diferente. No Passaporte aprendemos a exponenciar as nossas qualidades como atores.”, explica Joana Ribeiro.

Joana Ribeiro

Considerada pela organização como um dos “casos de sucesso do programa”, Joana tem uma perspetiva diferente daquilo que o Passaporte tem para oferecer aos atores. “Esta iniciativa é ótima porque nos permite conhecer pessoas deste meio, mas doutros países. O Passaporte põe-nos lá fora, torna-nos globais porque nós somos cidadãos do mundo e ótimo Portugal estar na mira dos recrutadores internacionais.”. A atriz contou ainda que foi no projeto que conheceu o seu agente inglês, bem como as casting directors Priscilla John e Camila Isola, que a têm escolhido para os seus projetos, como os filmes Fátima e Infinite.

Já Lucas Dutra, que aguarda ansiosamente a chegada do dia D, confessa que espera que o Passaporte lhe dê a chance de conhecer casting directors, produtores e realizadores do mundo inteiro e que lhe abram portas através do networking e do contacto. “Até pode não me dar nada, mas a oportunidade de conhecer todas estas pessoas e mesmo de ter sido selecionado, juntamente com atores consagrados e que eu admiro muito, é um voto de confiança enorme. E é isso que eu quero mostrar, que é uma prova de confiança bem dada e que eu vou estar lá a 100%.”

Lucas Dutra

“Não é só pelo projeto em si, é pelas pessoas que conheces.” – Lucas Dutra

Ainda que o futuro seja incerto, os atores nunca deixam de pensar no que poderá estar ao virar da esquina. Desse modo, Joana Ribeiro menciona que todos os projetos são interessantes, dependem apenas “da personagem, das pessoas envolvidas e da altura em que se está.”. Embora trabalhe mais no estrangeiro, devido à maior oferta de oportunidades, a atriz clarifica que gosta de trabalhar em Portugal e gostava de o fazer mais. “Não tem que ver com o sítio, mas sim com o projeto. Se houver um projeto muito bom em Portugal e um não tão bom lá fora, eu vou escolher ficar cá, não vou para fora só por ser algo internacional.”

Em relação aos próximos trabalhos, a atriz diz que “neste momento não fazia sentido estar a fazer uma novela”, ainda que tenha feito duas seguidas em 2019. “Gostava muito de fazer teatro proximamente e há essa possibilidade para o ano e também gostava de fazer um filme.”

A paixão pelo palco estende-se igualmente a Lucas Dutra que expõe que também gostaria de participar num “teatro ou musical na Broadway ou mesmo algo diferente.”. Todavia, o ator diz não ser “picuinhas”, e ficaria contente em fazer “cinema, televisão, streaming, uma novela mexicana, brasileira, ou seja o que for.”. Lucas declara ainda que nunca deixaria de escolher um projeto, nem pela Covid-19, nem por não ser um formato que o agrade. “Aliás, não há nada que me desagrade dento das artes performativas, mas não é pelo projeto em si, é pelas pessoas que se conhece.”

Lucas Dutra

“Temos atores com tanto talento que é uma pena ficarem confinados ao nosso mercado nacional.” – Patrícia Vasconcelos

Devido à Covid-19, a edição de 2020 não irá receber muitos americanos, ao contrário de outros anos. Desta vez, e de forma a adaptarem-se à nova realidade, optaram por fazer as sessões via Zoom, que vão incluir, entre outros, as casting director de Avatar e do Joker. “Esta edição vai ser mais virada para aqueles que vêm fisicamente da Europa, sobretudo de França, Itália e este ano, pela primeira vez, vamos ter uma alemã.”, destacou Patrícia Vasconcelos.

A casting director esclarece ainda que este ano adicionou um júri internacional, de forma a ter uma visão exterior na decisão dos atores. Este júri incluiu, para além da criadora do projeto, Paulo Trancoso, presidente da APC, e três casting directors, Frank Moiselle, da Irlanda; Nathalie Cheron, de França; e Monika Mikkelsen, da Paramount Pictures EUA.

No próximo ano pretende voltar a mudar o júri, assim com o processo de candidatura “para não serem mais de 90 ou 100”. Além disso, Patrícia revela ao Espalha-Factos que vai ter uma fatia para os atores mais consagrados e com mais experiência e outra para os novos talentos, chamada de New Blood. “Ainda não divulguei isto, mas o Lucas Dutra enquadra-se aí.”

Patrícia Vasconcelos

“Quando eu soube que era um dos mais jovens, fiquei mesmo com vontade de fazer isto, de inspirar as pessoas e fazer um bom trabalho.”, refere Lucas. Efetivamente, o Passaporte conseguiu juntar novos talentos e nomes firmados. Por um lado, personalidades que o país conhece das mais variadas plataformas, seja do teatro, das novelas ou do cinema e, por outro, atores que estão ainda numa fase inicial de carreira. É por isso mesmo que Joana Ribeiro alega que este projeto faz sentido para toda a gente. “Há vários caminhos diferentes e tem que ver com o que se está à procura. Há um momento para tudo e todos os caminhos são válidos.”

Assim, desde a primeira edição, Patrícia Vasconcelos orgulha-se de ter posto Portugal no mapa e de conseguir que o mundo do audiovisual olhasse para o país do canto da Europa. “Temos atores com tanto talento que é uma pena ficarem confinados ao nosso mercado nacional.”, conclui.

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