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Crítica. ‘Baby’ temporada final: A montanha-russa perfeita

A temporada final da série italiana estreou a 16 de setembro na Netflix.

Baby regressou na quarta-feira (16) à Netflix uma última vez. A série italiana criada pelo coletivo de escrita GRAMS e baseada no escândalo de prostituição infantil Baby Squillo estreou em 2018. Esta terceira temporada conta, tal como as anteriores, com seis episódios e é a última por decisão dos criadores.

Antonio Le Fosse, Eleonora Trucchi, Marco Raspanti, Giacomo Mazzariol e Re Salvador entendem que “as personagens completaram o seu caminho” e que, “depois de três temporadas, a série chegou à sua conclusão natural. O Espalha-Factos acompanhou a série e analisa agora o capítulo final.

Lê a recap das temporadas anteriores em: ‘Baby’: Recorda o caos hipnotizante dos capítulos anteriores à temporada final

A melhor das três

Uns minutos chegam para se perceber que esta é a melhor temporada de Baby. A tensão está ao rubro o tempo todo, o uso de estruturas narrativas é perfeito, a banda sonora é (tal como nos capítulos anteriores) escolhida a dedo para aumentar (ainda mais) o ritmo e o suspense da ação.

Isto a nível narrativo, porque a nível visual esta temporada é fabulosa. Francesco Di Giacomo e Stefano Falivene – diretores de fotografia – já nos tinham habituado a planos bem compostos e a escolhas de luz e cor belíssimas, mas este ano superaram-se. Movimentos de câmara, composição, jogos de cores: tudo é pensado e executado em articulação com os sentimentos das personagens e as sequências de ação específicas.

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Fotografia: Netflix/Divulgação

Em muitas produções visuais – quer sejam séries ou filmes – o ambiente parece ser pensado à parte da narrativa em si, resultando em trabalhos visualmente belíssimos com narrativas pouco apelativas ou em trabalhos perfeitos a nível narrativo mas sem suporte visual que corresponda. No caso de Baby, a forma complementa o conteúdo, ou o conteúdo complementa a forma, como poucos conseguem fazer – não são vistos como duas peças individuais do baralho mas como os dois lados da mesma carta.

Quando temos um segredo, sentimo-nos alheados daquilo que é suposto sermos. Mas nunca nos sentimos sós. Realmente, se há coisa que aprendemos é que nada nos liga mais a uma pessoa do que um segredo. Por vezes, torna-se um peso insuportável e sentimos vontade de o contar a toda a gente, mas isso seria um erro enorme. O que nos mantém unidos desfazer-se-ia e deixaríamos de saber quem somos. No fundo, quem somos nós sem os nossos segredos?

Desta vez, a narração inicial (citada em cima) é de Ludovica (Alice Pagani). Começamos a temporada com as duas amigas presas no mesmo ciclo vicioso de sempre: Chiara (Benedetta Porcaroli) a preparar-se para ir ter com mais um cliente e Ludovica a dançar no bar com Fiore a dar-lhe drogas para a mão. De repente, a cena muda para um plano com uma carrinha de vigilância e uma equipa de forças especiais, mostrando desde cedo que nesta temporada ninguém está para brincadeiras.

Os primeiros quatro minutos são um bom vislumbre do que aí está para vir. O ritmo mantém-se rápido mas agora os perigos são ainda maiores; há muito mais em jogo. Aliás, cada episódio é um ataque cardíaco em formato visual.

Damiano (Ricardo Mandolini) continua à volta das fotografias de Chiara, sem saber o que pensar nem o que fazer – se seque o coração, se segue o “certo”, se simplesmente se afasta. Sofia – a jovem envolvida num outro esquema de prostituição infantil que é introduzida na segunda temporada – assume agora um papel importante. A relação de Ludo e Fabio aprofunda-se ainda mais, passando os dois a agir como verdadeiros irmãos. As relações de Fabio com Ale e de Fabio com Brando também ganham mais tempo de ecrã.

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Fotografia: Netflix/Divulgação

Niccolò desta vez tem um dilema sério com a namorada. Brando está em casa há um mês e recusa-se a sair, depois de descobrir quem o pai verdadeiramente é, enquanto descobre quem ele próprio é também. Surge uma nova personagem feminina, que se torna amiga de Damiano. É introduzido um novo antagonista, também pelo lado de Damiano, o detetive privado da temporada anterior que agora tem outros interesses. Por seu lado, os inspetores tentam aproximar-se dos jovens para obter informações; a polícia está em cima de Manuel e de Fiore – e em vez de acalmar a operação e ser discreto, Fiore, previsivelmente, só se enterra mais.

Ludovica e Chiara têm de lidar com os pais, que têm reações adversas ao descobrir que as filhas se prostituem. Mas, apesar de tudo, “todos escolhemos os nossos problemas. Alguns perseguem-nos, mas somos responsáveis por não os largarmos”.

Somos todos culpados

Inevitavelmente, acaba por ser um verdadeiro jogo do gato e do rato. Já era antes, com pais e amigos; agora, também é com as forças de segurança e com terceiros envolvidos. Quando pensamos que estão livres de perigo, não podíamos estar mais enganados.

Paralelamente a tudo isto, Ludovica e Chiara parecem divergir ideologicamente cada vez mais uma da outra, indo ao encontro da tendência implícita desde o início. Chiara está distante dos que a rodeiam e mesmo do próprio público. As suas ações são quase incompreensíveis – se não tratasse Baby dos temas que trata e se já não estivéssemos habituados. Obcecada com a sua vida secreta, não sabe como parar, caminhando a passos largos para a autodestruição sem sequer saber porquê. No sentido oposto, Ludovica quer parar, recompor a vida, ser apenas uma jovem normal. Já nem o dinheiro lhe importa.

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Fotografia: Netflix/Divulgação

No fundo, apesar de o dinheiro ter sido um factor numa determinada altura, nada disto teve alguma vez a ver com dinheiro. É uma questão de liberdade e domínio, a necessidade que nem elas próprias compreendem de ir contra tudo e todos, de quebrar regras, de sentirem que estão no controlo – e controlo é algo que, francamente, nunca tiveram. Estavam dispostas a arruinar tudo o resto. “É algo que tenho de encarar sozinha”, diz Chiara, admitindo que algo está errado em si.

No exterior, tudo parece determinado a afastá-las uma da outra. Todavia, resistem e mantêm-se unidas, prometendo que nada as “vai dividir”. Apesar de tudo, uma informação crucial está a ser escondida de Ludo, que continua a ser manipulada e destruída aos poucos. É impossível não se ter pena da situação em que Ludo fica; já relativamente a Chiara, o sentimento é conflituoso. Afinal, Ludo acaba por ser uma vítima das circunstâncias quase desde o início, enquanto que Chiara sempre soube o que estava a fazer.

Pelo meio disto tudo, há personagens que têm um desenvolvimento interessante. Niccolò acaba por surpreender imenso com a evolução positiva que tem. Apesar de os seus crimes serem piores, Brando também surpreende positivamente. Monica surge como uma aliada para Damiano, assumindo o papel de figura maternal. Natalia, ainda que tenha atitudes questionáveis, revela ter alguma noção do que está certo. Já Fiore só mostra mais uma vez o seu caráter possessivo e violento.

Ao longo dos seis episódios, vamos vendo dois movimentos inversos: as personagens tentam seguir em frente com as suas vidas ao mesmo tempo que são apanhadas pelo passado. Ainda, vêm o inevitável choque da vida normal com a vida secreta a acontecer – quer seja na esfera familiar, quer seja na esfera de amizades ou até mesmo no ambiente escolar.

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Fotografia: Netflix/Divulgação

Em Oltre l’acquario – o episódio final – usam a sua última carta, numa tentativa desesperada de provarem que o dizem é verdade, regressando ao espaço da fatídica festa da primeira temporada. Estas cenas servem quase como um ponto final no que a série pretende dizer relativamente à prostituição: a decadência, a dificuldade das personagens em enfrentar o próprio passado e o terror de alguma vez o voltarem a repetir.

A ligeira romantização que se podia sentir nas outras temporadas desapareceu completamente. Agora, tudo é cru e duro, já não há qualquer tipo de beleza naquele modo de vida obscuro. Não se vê “dinheiro fácil”, inocência, festas em que toda a gente se diverte, prendas ou a tão referida sensação de controlo. Vemos apenas as personagens – todas elas – a definhar e a bater no fundo. Exatamente como previa, esta última temporada é o fim das cadeias de ações e decisões, onde as personagens sofrem as consequências últimas de tudo até então. Chiara acaba por admiti-lo: “olho em redor e penso que o mais certo seria admitir que, no final de contas, somos todos culpados.”

O início do fim

O terceiro episódio, Esprimi un desiderio, tem um início bem diferente e está construído narrativamente de uma maneira sublime. Representa precisamente o meio da temporada, o início do fim de Baby.

Estes seis episódios são mais negros, mas, simultaneamente, têm mais momentos leves. As cenas finais de 100 giorni, por exemplo, são o culminar de todas estas relações de uma maneira leve e doce (ou ácida, dependendo do ponto de vista e das expetativas de cada um para os casalinhos). O amor, a amizade e a lealdade são valores que se destacam, tidos de forma implícita como tudo o que vale a pena preservar.

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Fotografia: Netflix/Divulgação

Cada pequeno detalhe relativo a cada personagem – tantos, ao longo destes 18 episódios – que apenas parecia um fio perdido, interliga-se de uma maneira complexa com todos os outros pequenos detalhes. Os GRAMS, afinal, nunca deixam nada ao acaso. No final, tudo acaba por encaixar de forma perfeita. É, sem dúvida nenhuma, a melhor temporada de Baby – tanto a nível narrativo como a nível visual. Para uma pessoa que prefere sempre as primeiras temporadas, Baby é a exceção à regra.

Quase que em jeito de extra, a narrativa avança dois meses para nos permitir despedir das personagens de Parioli e ter um vislumbre do seu destino – destino esse que inclui tanto as consequências do passado como o que o futuro reserva. É um final agridoce, mas acertado e uma excelente conclusão para Baby. Ao contrário do que acontece com tantas outras séries da Netflix, em que se fica sempre à espera de só mais uma temporada, contudo a temporada nunca surge e as histórias ficam a meio, o drama italiano teve o fim que tanto merecia.

Os GRAMS mostraram ter talento e despedem-se de Chiara e Ludovica com uma promessa entre as duas: a de “nunca esquecer”.

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Baby Temporada 3
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