Ratched
Imagem: Ratched | Netflix

‘Ratched’: Terror com muito estilo e pouca substância

Ratched é a mais recente produção de Ryan Murphy para a Netflix. Os oito episódios foram lançados esta sexta-feira (18) e já alcançaram o primeiro lugar no top português do serviço de streaming.

A série é uma prequela do livro Voando Sobre Um Ninho de Cucos, e retrata o passado da vilã principal da obra, Mildred Ratched. A narrativa cobre a ascensão ao poder da infame enfermeira no hospital psiquiátrico em que trabalha. Sarah Paulsoé a estrela que encarna o papel, sucedendo a Louise Fletcher, que ganhou o Óscar de Melhor Atriz pelo seu trabalho na adaptação para filme da obra original, protagonizada por Jack Nicholson.

Sem nova temporada de American Horror Story (AHS), podem os fãs de Murphy contar com o terror de Ratched para os satisfazer? O Espalha-Factos analisa a nova série da Netflix.

 Ryan Murphy sem filtros

Não vamos perder muito tempo: Ratched é terror sem limites de bom senso, violento, imprevisível e exagerado. Sem nunca se tornar demasiado explorativo, é principalmente estiloso, da forma que só Ryan Murphy sabe fazer. Isto é o que o espectador precisa de saber acima de tudo: esta série vai chocar a cada episódio, e as cenas estão a par das mais icónicas de AHS.

Para esse feito, é de louvar a realização, a edição e os efeitos especiais. Os dois primeiros conseguem transmitir a tensão dos momentos críticos da narrativa. Já no que toca aos efeitos especiais, fornecem sempre um nível extra de sangue e outras feridas gráficas. É terror que não se leva a sério e que só pretende fazer rir e chorar por mais.

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Mas se a loucura do terror é divertida, a qualidade da história sofre com esse entretenimento. As personagens são todas inconsistentes e caricaturais. Todas cometem atrocidades e contribuem para um desfecho cada vez mais sangrento. A sexualidade reprimida, a doença mental e o abuso e práticas erróneas das instituições psiquiátricas na época não são temáticas, mas apenas meras âncoras narrativas para Ratched provocar os seus eventos distorcidos.

Os diálogos são dolorosos. Quer pelas frases desajeitadas e forçadas, quer pelas descrições surreais que as personagens fazem de acontecimentos implausíveis. Porém, é no romance que tudo piora. A certo ponto, Ryan Murphy mais parece que está a escrever um filme pornográfico só que sem a nudez explícita.

Ratched
Imagem: Ratched | Netflix

O elenco lida com o caos do argumento da melhor forma. Todos estão cientes do nível de seriedade da série, contudo não deixam de oferecer todo o seu talento. E, claro, Sarah Paulson é fantástica no papel principal, como sempre. Por ser a protagonista, acaba por ter mais tempo de antena, o que lhe dá a oportunidade de acrescentar mais profundidade à sua personagem. É a anti-heroína com morais questionáveis (inclusive do ponto de vista da consistência) que acaba por manter o interesse do espectador.

É melhor que Louise Fletcher? Nem melhor, nem pior. Acaba por ser uma extensão natural da interpretação original. O que é, talvez, o melhor elogio que se possa fazer a Sarah Paulson.

Se o argumento está à toa, o mesmo não se pode dizer do aspeto audiovisual. Ratched é linda. A cinematografia, os cenários e as roupas usam cores primárias e vibrantes. O verde e o vermelho estão em todo o lado e, ocasionalmente, até absorvem o enquadramento por completo. Ryan Murphy sempre deu foco ao aspeto visual das suas produções, mas este é um dos melhores trabalhos da carreira do artista.

A banda sonora não fica nada atrás. Um arranjo instrumental intenso, bombástico e inquieto não para de gerar tensão. Nos momentos mais emocionais, a música também cumpre o objetivo, porém é mesmo nas cenas de terror que a composição brilha. Não obstante, a inclusão do tema de Cape Fear é o melhor aspeto do som de Ratched. Um tributo inventivo de Murphy a um dos clássicos do cinema.

Ratched
Imagem: Ratched | Netflix

Desenganem-se aqueles que pensam que os oito episódios vão terminar com o início do livro. Nem de perto nem de longe. Ao contrário de HollywoodRatched não é uma minissérie e há uma clara intenção de continuar a narrativa. O desfecho mantém o exagero do drama que o precede. Tendo em conta o sucesso que a série aparenta ter em termos de visualizações, uma continuação está praticamente garantida.

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Ratched é exatamente o que se pode esperar de uma telenovela de terror. Caos, violência, reviravoltas extremas, emoções ao flor da pele, e muito (muito) sexo. Tudo feito com o estilo e a elegância visual típicas de Ryan Murphy. No entanto, não se deve esperar qualidade, mas sim diversão. É entretenimento fácil, se bem que exige uma certa paciência para aturar tanta confusão. O limite dessa paciência fica nas mãos do espectador.

 

Ratched
Ratched
5.5
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