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Fotografia: Fox / Pexels

Opinião. É tempo de pensar o jornalismo antes que nos removam os ovários

No domingo (20) tornou-se notícia em Portugal que o partido Chega, de extrema-direita, viu ser entregue na sua Convenção Nacional uma moção que propõe retirar os ovários das mulheres que fizerem a interrupção voluntária da gravidez em Portugal. A informação surgiu primeiro nas redes sociais, nomeadamente o Twitter, e depois foi para os media.

Basicamente existem dois grupos de opiniões: aqueles que pensam que o jornalismo deve ignorar o assunto e aqueles que pensam que o assunto deve ser divulgado pelos media do país. Vamos aos argumentos. O principal argumento do primeiro grupo é de que se trata de pura estratégia do partido para ganhar divulgação gratuita na imprensa com propostas radicais sem hipótese real de aprovação. O segundo grupo acredita que o jornalismo não deve fechar os olhos diante de uma grave ameaça aos valores humanos.

Enquanto jornalista e investigadora faço parte daqueles que acreditam que o jornalismo deve, sim, divulgar essa agenda. Mas não de qualquer maneira, por exemplo “olha, eles disseram isto” ou usar o adorado termo “polémica”, sem contextualizar o real perigo. Se assim for, o que poderia ser benéfico à democracia torna-se justamente o contrário. Basta ver os erros da imprensa brasileira em um passado recente, sendo agora obrigada a lidar um governo autoritário e apoiado por pessoas violentas e anti-democráticas.

No entanto, é, sem dúvida, uma questão complicada. Em geral, o jornalismo, especialmente os sites de notícias, são reféns da lógica de instantaneidade das redes sociais, especialmente o Twitter e Facebook. Os assuntos dos trending topics de certa maneira pautam o trabalho dos media e não há como fugir nestes casos.

O jornalismo estaria a ser omisso caso não divulgasse que Portugal possui um partido que quer esterilizar mulheres. Mesmo que a moção tenha sido rejeitada, já não é grave o suficiente que em 2020 isto esteja em discussão? Que se sintam confortáveis em apresentar tais propostas em um país democrático?

Neste ponto, o jornalismo é, ao mesmo tempo, traído e beneficiado pelas redes sociais – e tudo que é dito nelas. Deixar passar o timing, quando toda gente está a falar do assunto, não é tão interessante, afinal, jornalismo é um negócio. Mas simplesmente apanhar o tema e atirá-lo como manchete também não é o caminho ideal, pois contribui para beneficiar essa agenda, sem escrever com aprofundamento e contextualização.

Tudo indica que daqui em diante, em que tais propostas ganham o gosto de parte da população, os assuntos desta linha não irão parar. O mundo vive uma pandemia, mas também uma onda de ascensão de partidos com ideias perigosas. Em alguns países, como Brasil, as estratégias deram certo e partidos extremistas são governo, em parte por causa de erros dos media. A diferença é que era algo relativamente novo na época. Hoje já existem exemplos e estudos científicos que podem guiar o jornalismo em não cometer os mesmos erros. Sem dúvida, é uma dificuldade fazê-lo com imediatismo, principalmente em redações com poucos jornalistas e muito trabalho.

Com o exemplo da moção, uma notícia com perspectiva de género – e de humanidade, claro, é possível dar conta de dizer o que se passa e qual o contexto. Ao mesmo tempo, é um bom tema para explorar reportagens que por vezes passam batidas nos media do país, com raras exceções – como as reportagens do jornal Público, sobre direitos das mulheres.

Portanto, outra maneira de trazer os temas à tona, ainda mais perto de uma eleição, é ter sempre em pauta uma agenda com temas que são decisivos no discurso eleitoral. Neste ano, a analisar pelas propostas do Chega, imigração e direitos das mulheres terão destaque, já que fazem parte dos planos do partido propostas como “Eliminação do acesso gratuito a serviços de saúde para imigrantes ilegais e da comparticipação para todos os residentes legais que não tenham um mínimo de cinco anos de permanência em Portugal” e “deportação de todos os imigrantes ilegais” ou ainda “Revogação da Lei do Género e Igualdade”.

Vejam bem, que todos estes são assuntos que dialogam diretamente com a sociedade contemporânea. Nem precisamos recorrer à ficção como The Handmaid’s Tale para ficarmos atentos e atentas. Basta ver os noticiários brasileiro, e casos como o da ministra da Família, Damares Alves, que agiu para impedir o aborto de uma menina de 10 anos violada pelo tio. Ou nos Estados Unidos, onde mulheres imigrantes estão a ser esterilizadas sem consentimento.

Em nome de uma suposta imparcialidade o jornalismo não pode ser omisso nem irresponsável. É preciso que a população saiba o que se passa no cenário eleitoral do país. É preciso que o jornalismo profissional possa orientar as pessoas sobre o que se passa em Portugal e no mundo. É uma reflexão que deve ser feita pelos media, para que no futuro, com avanço dos extremismos, não tenham que fazer editoriais do tipo “como é que chegamos aqui?”.

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