Miguel Guilherme Conta-me Como Foi
Fotografia: João Marcelino / Espalha-Factos

O ator Miguel Guilherme acusa a ministra da Cultura de não ter “vocação” para o cargo

O artista deixou duras críticas ao Estado no que toca ao apoio do setor cultural

O ator Miguel Guilherme confessou achar que a ministra da Cultura está a ocupar um cargo que não gosta e para o qual “não tem vocação”.

Numa entrevista ao jornal Público, onde promoveu a peça de teatro Última Hora, com estreia marcada para 8 de outubro, no Teatro Nacional D. Maria II, e onde interpreta Santos Ferreira, diretor do jornal com o mesmo nome, o ator deixou ainda duras críticas ao Governo.

Quando o tema da conversa chegou a Graça Fonseca, a atual ministra da Cultura, o ator explicou que, qualquer que seja o ministro da Cultura português, terá de assumir o cargo sabendo que “vai levar pancada e estar-se nas tintas para isso”, tendo de prosseguir sempre aquilo que ache ser mais correto. Na opinião de Miguel Guilherme, Graça não gosta da posição que ocupa nos dias de hoje, na medida em que “como política, foi para ali porque tinha de ir para ali, porque alguém lhe pediu”, referenciando inúmeras polémicas em que a ministra já se viu envolvida, com alguns pedidos de demissão a fazerem-se ouvir.

O momento em que a contestação subiu de maior tom foi quando a ministra se viu confrontada com o facto de a União Audiovisual estar a apoiar entre 150 a 160 trabalhadores do meio em graves dificuldades. Graça recusou-se a responder, referindo que aquele era um momento para beber “um drink de fim de tarde”.

O ator deixou, porém, bem claro que lhe custa muito “diabolizar pessoas”. Mas, na sua opinião, “a ministra [da Cultura] não tem vocação, a vocação dela provavelmente não é esta.” A figura coletiva do Estado foi igualmente merecedora de críticas por parte de Miguel Guilherme, sendo que, para o ator, esta “não assume as suas responsabilidades na cultura”, demitindo-se de “ter uma política cultural“, onde não basta “distribuir dinheiro e dizer: ‘Olha está aqui isto, agora dividam entre vocês.'”

O artista afirmou também que “o ensino do teatro nunca teve grande importância na sociedade portuguesa.” Ainda sobre o assunto, Miguel Guilherme referiu que “a grande precariedade” que está a abalar o mundo do teatro “também faz parte da condição de ser ator”. 

As críticas a Graça Fonseca provenientes do setor artístico

Recorde-se que Miguel não foi o primeiro artista do meio a insurgir-se contra a prestação de Graça Fonseca no cargo de ministra da Cultura. Já em julho, numa emissão d’ O Programa da Cristina, Simone de Oliveira denunciou as dificuldades pelas quais os artistas estão a passar dadas as graves consequências que a pandemia trouxe para o setor da cultura, fazendo ainda críticas a Graça Fonseca.

No programa das manhãs da SIC, Simone de Oliveira lembrou a importância deste setor e as dificuldades financeiras atuais pelas quais muitos profissionais estão a passar. Sei que há colegas meus, e de várias áreas, que estão a passar muito mal. Os técnicos, as pessoas todas que vivem dos espetáculos de verão, os músicos, os homens e mulheres fadistas, os teatros, entre outros, enumerou Simone, em conversa com Cristina Ferreira.

A artista portuguesa, que confessou estar a recibos verdes há 62 anos, não deixou passar a oportunidade de apontar responsabilidades ao Ministério da Cultura, com particular ênfase à Ministra: “A senhora podia ser minha filha. Veja se sabe alguma coisa de nós, porque muito frontalmente eu tenho de lhe dizer que a senhora não sabe nada de nós. Digo isto na sua presença, na presença do Presidente da República e perante todos. Não sabe nada de nós, gente que sofre, que precisa de comer”, disse Simone de Oliveira.

A recusa da ministra em responder à pergunta a envolver a entrega solidária, por parte da União Audiovisual, de bens alimentares a cerca de 160 trabalhadores do setor em dificuldades, também originou uma onda de indignação. Em declarações à SIC, a coreógrafa Olga Roriz considerou que a ministra, com “postura estranha, de professora primária”, não compreende o atual nível de precariedade e a situação financeira dos profissionais e das entidades das Artes e Cultura, salientando que estes devem “ser bem representados”.

“Neste momento, tínhamos que ter alguém muito forte, mulher ou não, que estivesse realmente do nosso lado e percebesse o que se está a passar. Isso não acontece”, afirmou a profissional.

Também à SIC, o ator Albano Jerónimo dirigiu, “com conhecimento de causa”, uma interpelação, como que em apelo, a Graça Fonseca. “Pergunto se a própria ministra se revê naquilo que está a acontecer, se percebe aquilo que está a acontecer”, exprimiu.

Albano Jerónimo lamentou o não acesso “de forma gratuita” a testes de despistagem da Covid-19 para trabalhar em segurança, o que se tornou uma despesa extra. “É uma medida tão simples que iria colmatar, sem dúvida, os escassos orçamentos para realização de um filme em Portugal”, explicou.

Visivelmente agastado com o papel da tutela, o músico António Manuel Antunes, conhecido por Tó Trips, dos Dead Combo, foi mais incisivo nas críticas ao ministério liderado por Graça Fonseca.

“Este Ministério da Cultura é uma fachada, não existe. Há décadas que o pessoal anda a pedir a miséria de 1% para a Cultura. Enquanto não houver dinheiro, não existe. Em vez de se chamar Ministério da Cultura, deviam chamar-lhe outra coisa qualquer. Uma rulote de bifanas, uma chafarica”, apontou Tó Trips, na reportagem da SIC.

A atividade cultural foi assolada pelo surgimento da Covid-19, que obrigou à interrupção, adiamento e cancelamento de espetáculos, de produções e de digressões de artistas por todo o país. A retoma tem sido gradual, em tempos onde se reclamam mais e maiores apoios financeiros.

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