the social dilemma
Fotografia: Netflix/Divulgação

Crítica. ‘The Social Dilemma’ desvenda o fenómeno manipulador das redes sociais

O documentário estreou em Portugal no dia 9 de setembro e está a dar que falar

The Social Dilemma (lançado, em Portugal, com o título de O Dilema das Redes Sociais) é o documentário assinado por Jeff Orlowski que chegou este mês à Netflix. O Espalha-Factos explica-te porque este pode ser intitulado como um dos documentários mais importantes que vais ver este ano.

Numa análise ao mundo da tecnologia, mais particularmente da indústria dos social media, durante 93 minutos são-nos descritos os danos causados por plataformas como o Facebook, Google, Instagram ou Twitter, com base nos testemunhos de vários ex-funcionários destas grandes empresas.

O documentário explica o impacto, cada vez mais notório, que as redes sociais têm na nossa sociedade e somos alertados, em primeira pessoa, para as repercussões destes algoritmos invasivos e as verdadeiras intenções das redes sociais.

Uma bênção ou uma maldição?

The Social Dilemma começa com uma citação de Sófocles: “Nada vasto entra na vida dos mortais sem uma maldição”. Sempre prezámos a Internet pela evolução e facilidade de comunicação que nos veio proporcionar. Ficou mais fácil conhecer pessoas, criar ligações rápidas, partilhar experiências e entrar em contacto com amigos, colegas e familiares, mas até que ponto podemos considerar todas estes benefícios como algo bom, tendo em conta as contrapartidas?

Tim Kendall, ex-presidente do Pinterest, Justin Rosenstien, ex-engenheiro da Google e do Facebook, Sandy Parakilas, ex-gerente de operações do Facebook e Tristan Harris, ex-especialista em ética de design da Google, são apenas algumas das mentes que contribuíram para a mudança nas redes sociais, mas todos admitem o mesmo: “não era suposto tomar estas proporções”.

Os especialistas que ajudaram a melhorar a interação nos redes sociais temem agora os efeitos das suas invenções na saúde mental dos usuários e sugerem que, com as mudanças certas, podemos salvar o que há de bom nas redes sociais.

Todos estes problemas partem de uma simples palavra: o algoritmo. Este conjunto de operações filtra todos os interesses, pesquisas e tarefas executadas pelo usuário para que nos sejam sugeridas temáticas relacionadas com as nossas paixões. O problema? Essa tecnologia está a deixar o mundo cada vez mais polarizado.

À medida que os conteúdos divulgados na Internet se tornaram monetizados, as empresas passaram a pensar em formas de manter as pessoas online por mais tempo, garantindo assim mais visualizações e consequentemente, mais dinheiro.

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Tristan Harris em The Social Dilemma

Quais os fenómenos que nos fazem reféns dos ecrãs?

São vários os sistemas e equipas que analisam as estratégias subtis para nos promoverem uma cultura onde parecemos nunca alcançar a perfeição que nos é vendida. Estejamos doentes, tristes, ansiosos ou alegres, as hashtags que usamos, os likes que damos e os posts que fazemos passam a identificar-nos como consumidor digital.

A parte verdadeiramente perturbadora do documentário é chegar à conclusão de que “se não pagas pelo produto, então, és o produto”. Embora a maioria das pessoas esteja ciente de que se tornam num alvo assim que têm acesso à Internet, poucos se dão conta do quão viciados estamos nas redes sociais.

Graças à Inteligência Artificial (IA), cada vez que entramos na Internet, nenhum clique passa despercebido. Quando achamos que estamos a fazer uma escolha ao visitar um link ou uma publicação, na verdade, a nossa ação já foi antecipada pela IA. Assim, os nossos comportamentos são manipulados, e as nossas ações são previstas com maior facilidade.

A Inteligência Artificial e o algoritmo trabalham de mãos dadas para identificar e direcionar os interesses pessoais de cada usuário, o que se torna perigoso e ambicioso, já que passamos a aceitar o que vemos e lemos como uma verdade absoluta.

As consequências da falsa realidade que nos é imposta

Para uma melhor compreensão deste cenário, Orlowski, juntamente com a produtora Larissa Rhodes e os argumentistas Davis Coombe e Vickie Curtis, recorrem a atores para ilustrar esta realidade autodestrutiva. Uma narrativa dramática entre uma família de classe média ajuda-nos a ter uma ideia do impacto que estas falsas realidades têm em nós, naqueles que nos rodeiam e na nossa saúde mental.

A mãe (Barbara Gehring) está constantemente frustrada com o vício dos filhos no telemóvel e a irmã mais velha, Cassandra (Kara Hayward), preocupa-se genuinamente com as consequências que estas questões possam ter na família e, principalmente, nos irmãos. Vítima deste fenómeno é Isla (Sophia Hammons), o membro mais novo da família que, com 13 anos, vive para o Instagram, os likes e a necessidade de aprovação social. Após postar uma selfie na plataforma, as interações que recebeu não foram muitas e os poucos comentários que teve focaram-se na sua maior insegurança: o tamanho das orelhas.

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Fotografia: Netflix/Divulgação

Ben (Skyler Gisondo), o irmão adolescente, passa os dias mergulhado em vídeos que lhe vendem uma ideologia política extremista em que começa a acreditar piamente. Depois de fazer uma aposta com a mãe, Ben tenta passar uma semana sem telemóvel, na esperança de receber um aparelho novo se cumprir o combinado. Três dias depois daquela que pareceu ser uma desintoxicação digital, Ben cede e voltou ao mundo online.

O drama que esta família vive espelha a realidade de milhões de famílias em todo o mundo. Com crianças, adolescentes, e até adultos totalmente vidrados nas redes sociais e reféns do algoritmo e da Inteligência Artificial, vemos-nos o nosso livre arbítrio limitado e tornamo-nos viciados na exposição digital.

Será que os fins justificam os meios?

O humano procura a constante validação. A preocupação com a popularidade e a posição social estão na nossa essência como seres sociais e é algo desejado pelos indivíduos desde que existe memória, mas será que os fins justificam os meios? Há quem afirme que a evolução do cérebro humano não acompanhou a evolução da tecnologia. No entanto, somente a contribuição humana levou a este fenómeno manipulador e viciante.

Com dados a apontar para o aumento da ansiedade, depressão e suicídios que, estranhamente, coincidem também com o aumento do uso das redes sociais, a deterioração da saúde mental da população passou a ser a maior preocupação dos especialistas.

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Fotografia: Netflix/Divulgação

Este documentário está repleto de exemplos verídicos que sabemos que são reais mas que, no entanto, estamos demasiado presos àqueles que acreditamos serem os benefícios das redes sociais para negarmos a nós mesmos a importância de moderar o uso destas plataformas.

A única lacuna que se pode apontar é a falta de soluções por parte dos profissionais incluídos no documentário, que apenas aconselham os pais a não deixarem os filhos usar as redes sociais, quando sabemos que as soluções para este problema requerem medidas mais rígidas que, acima de tudo, dependem da iniciativa das próprias plataformas.

The Social Dilemma é uma espécie de versão alargada de um episódio de Black Mirror – mas a má notícia é que retrata a realidade e não é ficção. O novo sucesso da Netflix estreou em janeiro no Sundance Film Festival, e, desde então, já foi editado e atualizado com dados referentes à pandemia de Covid-19.

The Social Dilemma está disponível na plataforma de streaming e, neste momento, assegura o primeiro lugar do Top 10 em Portugal há vários dias consecutivos.

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8.5

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