Depois do Crime
Fotografia: RTP / Pedro Pina

‘Depois do Crime’. Rita Marrafa de Carvalho quer “as pessoas e os seus testemunhos a contar a história”

Rita Marrafa de Carvalho, repórter há mais de 20 anos na RTP, é a autora de um dos mais aguardados projetos da rentrée do canal público. Depois do Crime, que estreia segunda (21) e terá emissão às segundas e terças, tira a jornalista do primeiro plano e centra o zoom nos acusados, nas testemunhas e nas vítimas de crimes que polarizaram a opinião pública em Portugal.

Nesta primeira aposta portuguesa no filão do true crime, Rita explica ao Espalha-Factos que o objetivo foi “inovar na linguagem“. “Queríamos que fossem as pessoas, os intervenientes, a contar a história. Daí termos corrido um risco muito grande em não ter um texto, um off; para que fossem as próprias pessoas e os seus testemunhos a contar a história, bem como as imagens de arquivo que acabavam por refrescar a ideia e as recordações que nós tínhamos“. Um contraste evidente com outros formatos de jornalismo de investigação emitidos em Portugal, em que a figura do jornalista se assume como pivô e centro da ação.

Esta opção, contudo, trouxe obstáculos. O trabalho de investigação começou em outubro do ano passado – “um desafio arqueológico de ir buscar os processos, tentar encontrar as pessoas das mais diversas maneiras” – mas foi confrontado por “um grande imprevisto“. A pandemia, que chegou quando apenas “três e meio” dos 12 casos pensados para o programa estavam já com a recolha de informação feita, inviabilizou a realização de “entrevistas intimistas“, essenciais para este formato, onde os protagonistas dos casos contam a história. E isso acabou por impedir a concretização do quarto episódio.

Nós fazemos tudo a uma velocidade recorde, porque é Portugal

Nos seis programas que irão para o ar, os casos escolhidos são “o caso do Padre Frederico, em 1992, o Luís Militão que matou seis portugueses em Fortaleza em 2001, e o do Mata-Sete, na Praia do Osso da Baleia, que é o mais antigo, que foi em 1987“, conta Rita Marrafa de Carvalho. A escolha foi feita “não só com base no impacto que tinham tido, mas também na própria exequibilidade – se era possível, ou não, ir buscar e arrancar aqueles protagonistas de novo“.

Admitindo que gostava de vir a concretizar todos os doze casos que programou inicialmente, a jornalista relembra que isso, no entanto, “demora tempo“. “Nós fazemos tudo a uma velocidade recorde, porque é Portugal… mas as pessoas que fazem os documentários que estamos habituados a ver nas plataformas demoram um, dois ou três anos. E nós não funcionamos com essa dinâmica, nem com essa velocidade”, explica.

A opção de dividir as três histórias em seis episódios aconteceu devido à grande quantidade de conteúdo. “Nós tínhamos muito material e coisas muito ricas que era ingrato deitar fora“, sublinha a autora, que valoriza o trabalho de equipa que resultou em Depois do Crime. “Estou muito satisfeita, e estou muito feliz com este trabalho, porque é o nosso trabalho, de toda uma equipa que se dedicou, se esforçou e se envolveu muito nestas três histórias“, refere, relembrando ter trabalhado com pessoas em quem confiam há muitos anos: os repórteres de imagem Carlos Pinota e Paulo Domingues Lourenço e com o editor de imagem Miguel Teixeira.

Rita Marrafa de Carvalho RTP
Fotografia: RTP / Pedro A. Pina

Espectadores “vão mudar de opinião” sobre os casos

Rita Marrafa de Carvalho tem a certeza que “as pessoas, depois de assistirem como é que foram os processos, como é que decorreram as audiências, os procedimentos dos advogados, a própria investigação da Judiciária, vão mudar de ideias e de opinião sobre algumas concepções que tinham“.

A jornalista assegura ainda que todos os episódios “trazem notícia, trazem novidade“, até porque “há coisas que os arguidos revelam, que outras testemunhas referem, e temos elementos que na altura não foram tão focados e que agora voltam a ser referidos“, deixando no ar a hipótese de voltarmos a ouvir as pessoas que, na época, foram condenadas.

Para além das informações novas que os intervenientes acabam por confessar, vamos agora ver detalhes que não eram conhecidos na altura, há um olhar diferente relativamente aos acontecimentos, que à luz dos factos atuais, mostram uma realidade um pouco diferente“, revela.

Outro dos pontos de interesse é o confronto entre a justiça atual e aquela que se praticava na época destes crimes. “Vemos como se procedia à investigação há 20 anos, o quão fácil é fazer julgamento público e como a justiça portuguesa é permeável a ele”, refere. Além disso, no episódio dedicado ao ‘Monstro de Fortaleza‘ é ainda visível “o contraste entre a justiça portuguesa e a justiça brasileira”. “Esta série serve de grande análise e de balanço sobre como funcionava a justiça em Portugal e, inclusivamente, sobre o preconceito social existente há 20 anos“, realça Marrafa de Carvalho.

Depois do Crime condensa várias influências do true crime

Unsolved Mysteries
Imagem: Divulgação/Netflix

O sucesso do filão do true crime em plataformas como a Netflix, trouxe-nos produtos tão diversos como Unsolved Mysteries, Bandidos na TV, Don’t Fuck With Cats ou Trial By Media. A jornalista admite ser também “uma voraz consumidora e espectadora de documentários de true crime“, defendendo mesmo que “a Netflix permitiu que encontrássemos uma nova linguagem jornalística e documental sobre o crime, a que nós não estávamos habituados“.

Sublinhando as diferenças entre o sistema judicial norte-americano e o português, “em que não há segredo de justiça, tudo é gravado, tudo é filmado e tudo está disponível para a opinião pública“, e relembrando que “o que os americanos têm de tudo o que seja confissões, interrogatórios, julgamentos todos gravados, nós não temos“, admite, contudo, que o estilo de vários destes programas a inspirou, bem como à equipa de Depois do Crime.

Tudo aquilo que fomos vendo, eu e inclusivamente os repórteres de imagem e o editor de imagem, acabámos por partilhar uns com os outros no grupo que tínhamos. ‘Vejam este documentário, que é que acham desta linguagem, desta forma de fazermos entrevista? Como é que podemos adaptar à nossa realidade?’ E acabámos por absorver várias influências de diversos contributos que, agora, se condensam no produto final do Depois do Crime“, sustenta.

A verdade não prescreve e vai estar no ar, em episódios de 25 minutos, à segunda e terça-feira, logo a seguir ao Telejornal. Os episódios ficam também disponíveis em streaming na plataforma RTP Play.

Lê também: Crítica. ‘The Social Dilemma’ desvenda o fenómeno manipulador das redes sociais

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Shawn Mendes a tocar guitarra no documentário In Wonder
‘In Wonder’. Documentário sobre Shawn Mendes chega à Netflix