Fotografia: Sofia Matos Silva

Feira do Livro do Porto. Numa feira de livreiros, as grandes editoras ficam em casa

No norte, os grandes grupos editoriais estão presentes através de representantes, ao contrário do que acontece em Lisboa. Quais são as razões para esta ausência?

Plantada num dos mais frequentados locais da cidade do Porto, os Jardins do Palácio de Cristal, a Feira do Livro do Porto voltou a trazer os livros à rua de 28 de agosto a 13 de setembro. Numa edição diferente, superou as expectativas e voltou a promover a literatura na cidade.

Em pandemia, a festa dos livros teve de se adaptar e trazer novas dinâmicas. Mas há algo que se manteve intacto nesta que foi a sétima edição da (nova) Feira a norte: aqui, os grandes grupos editoriais não estão realmente presentes no recinto. A lembrança do nome das editoras no topo das bancas (que realmente está sempre lá) pode causar alguma confusão, mas a verdade é que, no Porto, os livros vêm cá ter, na sua maioria, através de pessoas que não estão diretamente ligadas a estes grupos tão bem conhecidos do grande público.

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Para se perceber melhor, é preciso primeiro rumar à capital. A edição deste ano da Feira do Livro de Lisboa recebeu mais de uma centena de participantes. Entre todos, estão presentes as maiores (e também as mais pequenas) editoras nacionais. Editorial Presença, Porto Editora, Bertrand Editora, 20|20 Editora, entre vários outros, são alguns dos grupos que anualmente têm espaços de destaque no Parque Eduardo VII, em stands onde figuram títulos recentes e antigos, incluindo as grandes novidades da rentrée.

Além da dinamização de eventos e sessões de autógrafos, apresentam preços de editor distintos e com descontos específicos, além da participação (facultativa) em iniciativas como a Hora H – onde se encontram livros com descontos mínimos de 50% em títulos publicados há mais de 18 meses (regime da Lei do Preço Fixo do Livro).

No caso da Feira do Livro do Porto, o cenário é bastante distinto: a presença própria das principais editoras portuguesas é praticamente inexistente. Então, como estão os títulos presentes na feira nortenha? Existem várias opções: em bancas várias de negócios livreiros que distribuem títulos de várias editoras; em livrarias da cidade que lá têm o seu stand (como a Poetria ou a Flâneur); em espaços de alfarrabistas por terem adquirido os livros noutras ocasiões.

Feira do Livro do Porto
Fotografia: Sofia Matos Silva

A outra hipótese – uma das que mais intriga visitantes e seguidores do mercado livreiro nacional – são livreiros que, em estrita cooperação com as editoras, as representam na Feira. As maiores editoras nacionais estão, na sua maioria, apenas presentes através de negócios externos que trazem os seus títulos para as bancas, não tendo membros das equipas reais de cada uma das editoras presentes no local. Não se procede, também, à dinamização de outras atividades e promoções semelhantes ao que é feito na capital.

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Por cá, são muito poucas as que têm banca e representação própria – é o caso da Antígona e Orfeu Negro, da Relógio D’Água e da Kalandraka, ao lado de outros editores de menor dimensão, algumas marcas (como a Fnac ou o El Corte Inglés) ou editoras institucionais (caso da Universidade do Porto ou da Fundação de Serralves).

Um dos maiores negócios representante de editoras, anualmente presente na Feira do Livro do Porto, é a IBOOK, livraria e distribuidora que, diz ao Espalha-Factos o responsável Paulo Gonçalves, representa editoras com as quais têm “relações fortes há já longos anos”. Aqui, numa só banca de maior dimensão, representam 15 editoras (e as chancelas inseridas em alguns desses grupos editoriais) distintas, algumas delas entre as principais no panorama nacional: Pergaminho, Alma dos Livros, Bertrand, Quetzal, Cultura Editora, Gradiva, Clube do Autor, Presença, Planeta, Esfera dos Livros, Harper Collins, Zero a Oito, Girassol, Bizâncio e Rota do Livro.

O espaço da IBOOK é composto por vários stands, abertos entre si, que se dividem pelas editoras representadas pelo negócio. | Fotografia: Sofia Matos Silva

A representação de editoras na Feira do Livro do Porto traz vantagens e desvantagens aos consumidores. Embora a maioria dos clientes, apesar dos moldes, considere que a existência da possibilidade de comprar esses livros seja uma vantagem, refere o representante que “em termos de promoções, como o Livro do Dia [livro com grande desconto diário], não há condições comerciais para poder fazer esse tipo de promoções”.

Assim sendo, considera que “as desvantagens são, sobretudo, para o público”, uma vez que não conseguem corresponder a esse tipo de expectativas. “Algumas vezes fazemos, mas da maneira como eles próprios fazem, com descontos mais simpáticos, não conseguimos”, explica o responsável pela IBOOK.

Afinal, porque é que no Porto é diferente?

A questão das editoras não estarem representadas na Feira do Livro do Porto por si próprias, em moldes idênticos à de Lisboa, é “complicada, até sensível”, diz Paulo Gonçalves, sem adiantar pormenores quanto às justificações dadas aos livreiros para esta ausência. A explicação é, de facto, complicada, mas existem várias razões que fazem com que os dois eventos, em escala os mais mediáticos a nível nacional, tenham tantas diferenças entre si.

Na verdade, a Feira do Porto já foi bastante parecida com a de Lisboa, tão acarinhada pelo público e pelos livrólicos nacionais. Até 2012, o evento foi, à semelhança do homónimo na capital, organizado pela APEL – Associação Portuguesa de Editores e Livreiros e, até então, tinha lugar entre maio e junho. Desde 2009, decorria na Avenida dos Aliados, onde tinha regressado depois de passar por vários locais da cidade – incluindo o Pavilhão Rosa Mota ou a Praça de Mouzinho de Albuquerque, conhecida como Rotunda da Boavista.

Feira do Livro do Porto
Assim era a Feira do Livro do Porto em 2012. | Fotografia: D.R.

Em 2013, deu-se uma reviravolta inesperada: um desacordo entre a Câmara Municipal do Porto (CMP) e a APEL levou à suspensão da Feira nesse ano. A falta de acordo entre a autarquia e a APEL parecia anunciar o fim da festa dos livros portuense. A associação dizia na altura, em comunicado à imprensa, que “não é possível a realização da feira nas mesmas condições de dignidade e qualidade dos anos anteriores“.

Chegava ao fim um protocolo de quatro anos que, sem acordo, passava a não celebrar o fornecimento de apoio financeiro que permitisse “aos livreiros e editores participarem no evento” – o executivo de Rui Rio, na altura presidente da Câmara, não quis contribuir com o valor habitualmente estipulado de 75 mil euros. A autoridade municipal dizia que “era inviável o apoio financeiro excecional nos mesmos moldes e valores do que fora pago nas últimas quatro edições da Feira do Livro”, decorrente de um protocolo, assinado em 2009, a acordar o valor de 300 mil euros repartidos ao longo de quatro anos.

Depois de um evento organizado pela Câmara para colmatar a falta da Feira, aquela que seria a 83.ª edição nos moldes conhecidos até então nunca mais aconteceu. Em 2014, já com Rui Moreira a liderar a autarquia, a desavença prolongou-se e, anunciava-se na altura, não estavam “satisfeitas as condições de confiança necessárias para a assinatura de qualquer protocolo com a APEL“. Em causa estavam, de novo, questões monetárias, com a associação a reforçar que voltavam a não existir condições para avançar com a realização do evento; a Câmara, em resposta, contestava estas declarações como “uma grave quebra de confiança“.

Assim era a Feira do Livro do Porto em 2012. | Fotografia: D.R.

Depois de toda a desavença, a APEL ficou mesmo de fora da organização e, em 2014, Rui Moreira anunciou o regresso da Feira do Livro, desta vez a contar do zero. O evento foi, pela primeira vez, organizado totalmente pela Câmara e contou com várias diferenças na sua gestão. O local alterou-se, com os Jardins do Palácio de Cristal a receber pela primeira vez a Feira. O calendário passou para setembro, quando até 2012 as datas eram aproximadas às de Lisboa – maio e junho.

Os valores do evento pareciam ser mais baixos, o que era apontado como justificação para a nova organização. O então vereador da Cultura, Paulo Cunha e Silva, apontava ao Jornal de Notícias custos equivalentes a 55 mil euros, incluindo gastos na programação cultural paralela. No entanto, ao jornal Observador, o adjunto de Rui Moreira na época, Nuno Santos, revelava que o evento custaria um valor aproximado a 75 mil euros… valor equivalente ao fornecido pela Câmara à APEL até 2012 e que esteve na base das desavenças.

As mudanças no posicionamento… e as ausências

A partir de 2014, o evento passou também a assumir um posicionamento diferente face ao mercado dos livros e à sua promoção. Foi dada uma maior abertura à participação de livrarias, alfarrabistas, editores e outras associações do setor, através da cobrança de valores mais baixos aos participantes – a Câmara dizia que os preços cobrados até 2012 pela APEL eram “proibitivos” para os negócios pequenos da cidade. Ao Observador, o então adjunto do executivo esclareceu que cada participante pagava, no momento, 450 euros pelo seu lugar e que essas receitas cobriam os gastos com os pavilhões.

Fotografia: Sofia Matos Silva

Essa abertura permitiu a entrada de novos participantes. Entravam no recinto, pela primeira vez, a Livraria Lello, o jornal Público e editoras como a Chiado Editora (agora Chiado Books) ou mesmo uma casa espanhola, a Bubok. Mais editoras, de dimensão menor, estavam presentes pela primeira vez: Relógio D’Água, Tinta-da-China, Livros Cotovia (que este ano anunciou o fecho de portas e a sua última presença na feira lisboeta), Antígona e Harper Collins tiveram direito à sua própria banca.

Mas, se esta nova versão da Feira começou por ser de entradas, acabou por passar a ser, principalmente, de saídas. Das editoras e outros participantes listados acima, em 2020, apenas duas continuam a ter stand em nome próprio.

Outras editoras entraram com o passar dos anos e também voltaram a sair. O grupo editorial Penguin Random House (que em Portugal engloba as chancelas PenguinAlfaguara, Companhia das Letras, Suma de Letras, Nuvem de Tinta, Nuvem de Letras, Objectiva e Arena) começou por estar presente através de representantes, passou a ter stand próprio e, anos depois, saem de novo (este ano, alguns dos títulos da editora estavam disponíveis na banca da livraria Flâneur). Também a 20|20 Editora (com as chancelas Topseller, Booksmile, Cavalo de Ferro, Elsinore, Fábula, Farol, Influência, Lilliput, Nascente, Vogais) lá esteve em nome próprio, em 2019; em 2020, voltaram a estar presentes apenas através de representantes.

A Feira do Livro do Porto transformou-se numa feira de livreiros e alfarrabistas

Os casos mais marcados surgem, no entanto, com alguns dos maiores grupos do mercado livreiro nacional. Editoras e grupos como a Presença sempre estiveram apenas representadas por negócios diferentes ao longo dos anos – em 2020, está entre as representações da IBOOK.

O Grupo LeYa e o grupo Porto Editora (que inclui a Bertrand), este último o grande coletivo editorial da cidade, nunca marcaram presença em nome próprio desde que a Feira do Livro do Porto deixou de ser organizada pela APEL. Aliás, a situação agravou-se quando, em 2014, nenhum livro editado pelo grupo nortenho (e pela Bertrand Editora) pôde ser vendido em qualquer banca do recinto. Atualmente, a Porto Editora tem uma seleção dos seus títulos presentes no stand da Calendário de Letras, livraria e distribuidora que opera em modo semelhante à IBOOK, representando diversas editoras numa só banca de maior dimensão.

Se o representante de 15 editoras descreve esta situação como “sensível“, provavelmente devido às desavenças entre a APEL (ao lado dos editores) com a Câmara Municipal, o diretor de comunicação da Porto Editora, Paulo Rebelo Gonçalves, olha para a questão de forma mais simples. Em conversa com o Espalha-Factos no recinto da Feira do Livro de Lisboa – onde estão presentes em nome próprio, num stand de grande dimensão -, concorda que “a Feira do Livro do Porto agora transformou-se numa feira de livreiros e alfarrabistas“, em referência à “organização diferente” do evento.

Feira do Livro do Porto
Paulo Rebelo Gonçalves é o diretor de comunicação do grupo Porto Editora. | Fotografia: Porto Editora

Com esta abordagem distinta a ser um “estímulo ao tecido livreiro local“, o responsável considera que a editora continua a estar presente na Feira independentemente do modo. “Nós estamos através daqueles que são, para nós, parceiros absolutamente fundamentais, que são os livreiros. É muito importante, para os livreiros locais, estarem na Feira do Livro do Porto”, refere, acrescentando que têm, com os livreiros, uma “relação umbilical“.

Ao longo do ano, “nós queremos é que os nossos livros estejam presentes nas livrarias e, no caso concreto da Feira do Livro do Porto, nós entregamos […] as nossas edições aos cuidados dos livreiros, e fica muito bem entregue“, explica Paulo Rebelo Gonçalves.

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Os números de antes e de hoje

Com ou sem as grandes editoras presentes no recinto, a Feira do Livro do Porto continua, sem mão da APEL, a trazer os livros à rua na cidade Invicta. O evento é, acima de tudo, uma oportunidade para os leitores assíduos, que aproveitam estes dias para encontrar edições mais incomuns ou preços mais acessíveis em negócios locais, movendo várias obras para as suas estantes. As promoções e oportunidades das editoras, bem como a realização de eventos mais ligados com os lançamentos de cada grupo, ficam de fora da programação, dando lugares a sessões mais generalistas e com temas diversos.

Entre ausências e a pandemia, a edição de 2020 contou com 115 stands, que reuniram mais de 40 editoras – a maioria em representação -, as restantes sendo livrarias, alfarrabistas, instituições e distribuidoras. A de 2016, por exemplo, chegou aos 131 pavilhões (69 editoras); em 2012, a última organizada pela APEL, teve 117 pavilhões e cerca de 80 editores; já em 2014, a primeira sob a nova organização, houve 107 pavilhões para 49 editoras.

Assim foi a primeira edição da “nova” Feira do Livro, em 2014. | Fotografia: Nuno Nogueira Santos / Câmara Municipal do Porto

Segundo dados revelados pela organização da Feira do Livro do Porto à agência Lusa, a edição deste ano do evento recebeu cerca de 100 mil visitantes ao longo de 16 dias – número inferior ao habitual pela situação vivida. Em entrevista citada pela agência noticiosa, o presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, ressaltou que este número é “extraordinário na circunstância atual”. Observando-se os números entre 2006 e 2012, a média de visitantes era de 250 mil; um número maior em pelo menos 50 mil face à média da nova feira.

Feira do Livro do Portotem regresso marcado para 2021, nos mesmos moldes em que acontece desde 2014 – sem mão nem nariz da APEL. Como há anos tem vindo a ser, além do silêncio estranho por parte das grandes editoras, a edição do próximo ano volta a homenagear um escritor da língua portentosa. Desta vez o tributo vai para o escritor portuense Júlio Dinis (1939-1871), autor de A Morgadinha dos Canaviais ou As Pupilas do Senhor Reitor.

Com Matilde Costa Alves (texto), Mariana Nunes (entrevista a Paulo Rebelo Gonçalves) e Sofia Matos Silva (fotografia).
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