Feira do Livro do Porto
Fotografia: Sofia Matos Silva

Feira do Livro do Porto. Os livros foram à rua numa feira diferente e segura

O evento realizou-se de 28 de agosto a 13 de setembro, nos Jardins do Palácio de Cristal. Em pandemia, a festa dos livros teve de se adaptar.

A Feira do Livro do Porto plantou-se nos Jardins do Palácio de Cristal durante as últimas duas semanas e, apesar das baixas expectativas, surpreendeu leitores e livreiros.

O Espalha-Factos esteve presente e traz-te os testemunhos dos que lá estiveram de 28 de agosto a 13 de setembro, atrás das bancas, naquele que foi um dos primeiros grandes eventos após o desconfinamento a tomar lugar na cidade invicta.

Os Jardins do Palácio de Cristal acolhem, anualmente e antes do final do verão, a Feira do Livro do Porto. O evento é uma oportunidade para os leitores assíduos, que aproveitam estes dias para encontrar edições mais incomuns ou preços mais acessíveis, movendo várias obras para as suas estantes.

Fotografia: Sofia Matos Silva

Mas é também uma oportunidade para os vendedores, em especial para as livrarias mais pequenas, que a autarquia nortenha tem destacado nos últimos anos, diferenciando-se assim da Feira do Livro de Lisboa, que ocorre por volta da mesma altura.

Lê também: Feira do Livro de Lisboa. Um “balão de esperança” durante a “maior crise” do setor

Este ano encontrámos um evento diferente, fruto da situação que o mundo enfrenta desde o final de 2019 – a pandemia da Covid-19, que levou a uma alteração de hábitos profunda em várias populações por todo o planeta. As expectativas para a Feira do Livro eram baixas, alguns até acreditando que o evento não se chegaria a realizar. Talvez isso explique a surpresa dos resultados desta Feira de 2020.

O impacto da Feira do Livro no comércio livreiro

Enveredamos pela secção da Feira onde encontramos as livrarias alfarrabistas, com os livros antigos a espreitar de caixas de madeira e estantes de outros tempos, e onde os leitores encontram, por norma, as melhores oportunidades. São estas as livrarias mais afetadas atualmente, não especificamente pela pandemia, mas pelo esquecimento que os tempos lhes trouxeram.

João Soares alfarrabista porto livros
Fotografias: Matilde Costa Alves

Na cidade do Porto, contam-se pelos dedos as livrarias (alfarrabistas) que permanecem abertas. Em 2019, uma das mais conhecidas, a Livraria Alfarrabista João Soares na Rua das Flores, fechou portas. Em entrevista ao JPN, em 2018, o alfarrabista confessava estar “condenado à morte no que fazia; que é como quem diz, condenado a ser despejado. E assim tem vindo a acontecer em todo o país.

As que melhor sobrevivem são as que optaram, a certo ponto, pelo comércio online. Esse é o caso da alfarrabista.eu. Isabel Soares, representante da livraria na Feira do Livro do Porto, confessou que a Feira é importante “para que as pessoas não nos esqueçam, para que continuemos de porta aberta”. Mas diz também ser um espaço onde aproveitam para publicitar o seu website, de acesso mais facilitado do que a loja física.

A Livraria Varadero estava a alguns metros de distância. Falámos com Fátima Branco, a mãe da fundadora da Livraria que podemos visitar na Rua da Boavista. Também aqui se optou pelo digital, que tem sido uma ajuda “tremenda” nas vendas.

feira do livro do porto
Fotografia: Sofia Matos Silva

Ainda assim, a Feira do Livro é indispensável – se este ano não tivesse ocorrido, diz Fátima que seria bastante prejudicial para o volume de vendas desta casa. “É o que há de melhor, a Feira do Livro. Neste caso, principalmente para os alfarrabistas”, conta. “É muito bom porque dá-vos a conhecer muitas coisas que estão guardadas.

Primeiro está a saúde de todos.

É a resposta de Isabel Soares perante a hipótese de que a Feira do Livro pudesse vir a ser cancelada em 2020. Embora concordando que o impacto da realização da Feira é positivo para o comércio, a maioria dos vendedores confessa que, caso o evento não se tivesse realizado, não teria havido um “enorme prejuízo”, apenas uma minimização de “algo”. São palavras de Paulo Gonçalves, da IBOOK – livraria e distribuidora que, em estrita cooperação com algumas editoras, as representam na Feira -, que nos sugere que este “algo” poderá estar relacionado antes com o impacto da pandemia no setor, antecedente à Feira do Livro.

Lê também: Feira do Livro do Porto. Numa feira de livreiros, as grandes editoras ficam em casa

Quando iniciámos o evento estávamos com fracas expectativas, receosos mesmo, porque um evento destes tem um custo elevado e não sabíamos o que poderíamos vir a encontrar. Felizmente, o evento tem sido, até à data, bom, muito bom, tem superado até as expectativas.”, confessa. “Isto para nós… enche-nos de uma enorme satisfação. Apesar do risco… que tem diminuído as vendas este ano.

feira do livro do porto
Fotografia: Sofia Matos Silva

O que se presumiu que seria uma Feira do Livro praticamente vazia, mostrou-se precisamente o contrário logo na primeira semana. “Aumentou o número de pessoas, do ano passado para este.”, confirma Isabel Soares, do alfarrabista.eu. “Foi um ‘escândalo’ no primeiro fim-de-semana. Este ano começou bem. Se calhar foi a melhor Feira de sempre, até porque as pessoas estavam desesperadas para sair e não têm perspetiva de ter um evento próximo. As pessoas sabem que ou aproveitam agora para sair ou então…

As medidas de segurança – e o apoio da organização

O norte foi a primeira região do país a ser severamente afetada pela Covid-19, nos primeiros meses sendo dona do maior número de casos nos boletins diários que a Direção-Geral da Saúde revelou. O distrito do Porto destacou-se, inevitavelmente, pela quantidade de população que concentra nos seus concelhos.

Segundo Paulo Gonçalves, “as pessoas ficaram muito receosas sobre este flagelo que nos afeta” e, por esse motivo, crê que “andam muito mais conscientes do risco que correm”. Esta consciência notou-se, também, e na opinião do representante, nos visitantes da Feira do Livro do Porto. “Se reparar, todos os visitantes da Feira, acima dos 90%, estão sempre de máscara.

feira do livro do porto
Fotografia: Sofia Matos Silva

Não basta, no entanto, que as pessoas cumpram as regras que as autoridades de saúde têm vindo a recomendar. Como garantia de que esse cumprimento existe, a Feira do Livro do Porto teve várias normas a ser aplicadas. “Além da organização ter criado, este ano pela primeira vez, uma entrada e uma saída únicas, derivado destas circunstâncias, têm também sensibilizado todos os visitantes para o uso de máscara, para a desinfeção, mesmo para o uso de luvas se for o caso, embora o papel não seja transmissor do vírus. Faz-se pelo cumprimento do circuito do recinto”, salienta Paulo Gonçalves.

Destaca-se, ainda, a limitação de 3500 pessoas em simultâneo no recinto – valor que nem sempre foi cumprido. Em entrevista ao Fita Isoladorapodcast semanal do Espalha-Factos, Mariana Silva, criadora de conteúdo sobre literatura no YouTube e Instagram, explicou que no primeiro dia de feira sentiu “que havia controlo, com a sinalética distribuída por todo o recinto, no entanto senti um pouco de desrespeito por parte das pessoas” com o recinto a reunir um grande aglomerado de visitantes que nem sempre respeitavam as normas de segurança, nomeadamente o distanciamento social.

Nesse e nos restantes dias, em que a afluência começou a ser mais controlada, existiram voluntários espalhados pelos amplos corredores, de um único sentido, que separam as bancas das livrarias no espaço designado à Feira a sensibilizar para a adoção destas medidas e para a utilização dos vários dispensadores de álcool em gel espalhados por todo o recinto.

Esse esforço foi, também, dos livreiros presentes. Alguns vendedores admitem ter algum trabalho e cuidados extra para sensibilizar – tal como a organização faz – os seus clientes. Todas as bancas têm limite de visitantes ao mesmo tempo, no entanto nem todos os leitores, ansiosos por conseguir pegar no livro que miraram ainda à distância, o têm cumprido.

Mas é bom ver que as pessoas, mesmo não sendo obrigadas a usar a máscara em espaço aberto”, comenta Isabel Soares, “só estando obrigadas a usar aquando do contacto comercial, por norma, em passeio até, no jardim, continuam com as máscaras colocadas.

feira do livro do porto
Fotografia: Sofia Matos Silva

Os números da edição deste ano com 2021 já em vista

Segundo dados revelados pela organização da Feira do Livro do Porto à agência Lusa, a edição deste ano do evento recebeu cerca de 100 mil visitantes ao longo de 16 dias. Em entrevista à Rádio Estação (emissora criada no âmbito do evento), citada pela agência noticiosa, o presidente da Câmara Municipal do Porto (CMP), Rui Moreira, ressaltou que este número é “extraordinário na circunstância atual”.

O presidente do executivo portuense ressaltou a organização da Feira, que é da responsabilidade total da CMP desde 2014, altura em que deixou de ser organizada pela APEL – Associação Portuguesa de Editores e Livreiros. “Fizemo-lo pesando e sopesando um conjunto de circunstâncias. Em primeiro lugar, sabemos que ela decorre num espaço público, mas apesar disso é um espaço vedado, com condições para garantir o controlo do número de visitantes”, explicou Rui Moreira.

Para 2021, já há planos a começar a ser definidos. O evento, que deve continuar a decorrer nos mesmos moldes dos últimos anos, vai homenagear – como faz todos os anos – um novo autor da língua portuguesa. Desta vez o tributo vai para o escritor portuense Júlio Dinis (1939-1871), autor de A Morgadinha dos Canaviais ou As Pupilas do Senhor Reitor.

A Feira do Livro chegou ao seu final este domingo (13), dois dias antes da aplicação de novas medidas de contingência por todo o país – incluindo no Porto. Com as presenças do(s) costume(s), com mais afluência e, como há anos tem vindo a ser, com o silêncio estranho por parte das grandes editoras, a Feira realizada nos Jardins do Palácio de Cristal deu azo ao entretenimento de vários portugueses, que, embora na maioria esquecidos de hábitos de leitura, vários retomaram-nos durante o período de isolamento social.

Com Tiago Serra Cunha (texto) e Sofia Matos Silva (fotografia).
Mais Artigos
Netflix
PS propõe cobrança de taxa para as plataformas de streaming