feira do livro lisboa 2020
Fotografia: Mariana Nunes

Feira do Livro de Lisboa. Um “balão de esperança” durante a “maior crise” do setor

O EF falou com Paulo Rebelo Gonçalves, diretor de comunicação do Grupo Porto Editora, sobre o evento e a crise que o setor atravessa.

A 90.ª edição da Feira do Livro de Lisboa terminou no domingo, 13 de setembro. Num ano atípico, o evento lisboeta ocorreu mais tarde do que o habitual e com novas regras. O Espalha-Factos falou com Paulo Rebelo Gonçalves, diretor de comunicação do Grupo Porto Editora, sobre as dificuldades que o setor atravessa, o significado da Feira do Livro de Lisboa, e o balanço que faz das quase três semanas do maior evento cultural da capital.

A pandemia da Covid-19 levou ao adiamento da Feira do Livro de Lisboa, que este ano decorreu entre 27 de agosto e 13 de setembro, ao invés da sua data habitual – entre o final de maio e os feriados de junho. O evento voltou ao Parque Eduardo VII num período diferente, coincidente com o final das férias de verão, o retorno à cidade e a preparação para um novo ano letivo, e com novas regras: número máximo de pessoas dentro do recinto da feira, uso obrigatório de máscara e disponibilização de dispensadores de álcool-gel pela feira.

Priorizar a segurança para celebrar o livro

Organizar a Feira do Livro de Lisboa veio, por isso, com dificuldades acrescidas este ano. “Este tem sido um ano pródigo em dificuldades (…). Nós já nos demos por muito satisfeitos por a Feira do Livro se realizar”, diz Paulo Gonçalves.

Quando questionado sobre as maiores diferenças relativamente às outras edições da Feira do Livro, apontou que “essa grande diferença existe, por exemplo, no número de eventos e de sessões de autógrafos que [houve] em relação a todas as edições anteriores” e também “a ausência de um espaço de lazer, de família, e de um espaço infantil, que nós fazemos sempre questão de ter na Feira do Livro para incentivar o gosto pelo livro e pela leitura nos mais novos… essas diferenças são notórias.”

Paulo Gonçalves, diretor de comunicação do Grupo Porto Editora | Fotografia: Porto Editora

A nova data também não facilitou. “É uma data completamente diferente, o contexto é diferente, é tudo diferente.” No entanto, Paulo Gonçalves garantiu que, no Grupo Porto Editora, “já nos demos por muito satisfeitos por a Feira do Livro se realizar. É óbvio que surge num contexto particularmente inusitado, que é incomparável com qualquer outro cenário das últimas décadas – diria até desde sempre -, porque foi adiada por força do confinamento, e foi apontada esta data possível, coincidindo com o período de férias, e ao mesmo tempo, um período de transição, ou seja, de regresso das pessoas ao trabalho, da preocupação pela abertura do ano letivo também, pelo fim das férias… Isto para lá de todos os condicionalismos que existem por causa da pandemia.”

Mas a prioridade, diz, foi a segurança e a saúde de todos os envolvidos. “Este ano, a nossa primeira preocupação, antes mesmo de pensarmos na organização da agenda de eventos e de sessões de autógrafos e saber que autores é que poderiam estar cá, foi definir um plano de prevenção de contágio Covid-19. Isto com o objetivo de dar segurança e tranquilidade, desde logo, às pessoas que estão cá a trabalhar, aos autores que vêm cá às sessões de autógrafos e às pessoas que nos vêm visitar”, explica.

O responsável pela comunicação do grupo editorial reforça que “quisemos reunir as condições fundamentais para que quem viesse aqui ao Espaço Porto Editora/Bertrand Editora se sentisse seguro, sentisse que as regras foram pedidas e que são claras e que, portanto, têm todas as condições para entrar no pavilhão, procurar o livro que desejam, sempre com a maior segurança. Essa foi a nossa primeira preocupação. E depois pensámos naquilo que poderíamos fazer em termos de agenda de eventos. Trazer aqui um número interessante de autores, procurando sempre diversidade em termos de perfis para chegar a diferentes públicos, e eu creio que nós conseguimos fazer isso.”

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Espaço Porto Editora/Bertrand Editora na Feira do Livro de Lisboa, 2020 | Fotografia: Mariana Nunes

Um esforço que vale a pena

Apesar de todas as exigências e alterações a que a situação atual exigiu, parece ter valido a pena, pois a Feira do Livro de Lisboa “é sempre uma oportunidade única que nós, enquanto editores, temos de contactar diretamente com os leitores, trazendo para cá os autores que fazem parte do nosso catálogo. E nós encaramos esta Feira do Livro, qualquer edição, mas em particular esta, como um privilégio e uma oportunidade única de aproximar os leitores dos livros e dos escritores para haver um reforço, quase, dos laços emocionais que nós temos com os livros, com as histórias e com quem as escreve”, refere Paulo Gonçalves ao Espalha-Factos. “A Porto Editora sempre teve uma particular atenção em relação à Feira do Livro de Lisboa. (…) [É um evento para o qual] nós olhamos sempre com particular entusiasmo.”

A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), organizadora do evento, parece confirmar esta visão. Em comunicado enviado ao jornal Público, a APEL fez um balanço “positivo porque se verificou que os visitantes vieram ao encontro dos livros e o sentimento generalizado é de que a realização do evento veio dar um sinal de esperança, motivando o sector e dando um particular ânimo aos editores e livreiros, que viram nesta edição alguma revivificação do mercado”, acrescentando que “não sendo possível apurar números finais, mas somente tendências, sabemos que, de uma forma generalizada, o volume de vendas se terá traduzido em valores aproximados aos das últimas duas edições.

Em termos de afluência, “a APEL estima ter sido cerca de metade das anteriores edições”, diz o Público, “o que, dentro do que era expectável, é muito positivo e espelha a vontade e a falta que as pessoas já sentiam destas iniciativas”, garante a APEL. Concluem dizendo que, “por tudo isso, dentro do contexto que vivemos e do que eram as expectativas, acreditamos que a Feira do Livro de Lisboa foi um sucesso”.

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Espaço Porto Editora/Bertrand Editora na Feira do Livro de Lisboa, 2020 | Fotografia: Mariana Nunes

Paulo Gonçalves parece ecoar esta ideia. Para o Grupo Porto Editora, “o balanço é positivo porque permitiu-nos voltar ao contacto com os leitores. Permitiu aos escritores voltar ao contacto com os seus leitores. Permitiu recuperar um ambiente de normalidade e perceber que há interesse pelo livro e pela leitura que queremos que seja maior, substancialmente maior, mas damo-nos por bastante satisfeitos.”

As diferenças, no entanto, fizeram-se sentir devido à situação que se vive atualmente. É óbvio que esteve longe daquilo que foi nos outros anos. Não muito longe, mas foi diferente porque houve controlo de entradas, e por todas as circunstâncias que nós sabemos, mas ao longo deste tempo, nós víamos sempre muitas pessoas aqui no Espaço Porto Editora/Bertrand Editora, e as pessoas a virem cá e a ficarem, calmamente, relaxadamente, a visitarem pavilhão a pavilhão, muitas vezes a pararem um pouco e a folhearem o livro, a lerem o livro. Foi interessante, também, ver as interações dos leitores com os nossos livreiros, e muito interessante ver também o sorriso que se percebia por trás das máscaras dos leitores quando se aproximavam do escritor com quem queriam falar e de quem queriam um autógrafo, só isso já permite fazer um balanço bastante positivo. Nós estávamos mesmo a precisar de uma Feira do Livro.”

Mas o sucesso desta edição peculiar da Feira do Livro de Lisboa, em data e condições extraordinárias, parece justificar-se, também, porque “representou quase que um acontecimento de retoma de uma normalidade possível… Eu detesto o novo jargão da «nova normalidade». Nós temos de evitar a todo o custo isso, e temos de encarar que isto, mesmo que demore algum tempo – e vai demorar algum tempo -, não pode ser uma nova normalidade, isto será o nosso quotidiano transitório. E eu acho que as pessoas olharam para a Feira do Livro de Lisboa como que um retomar dessa normalidade de que têm saudades, que anseiam por ter de volta”.

O responsável sublinha, no entanto, que “ao longo destes dias todos, todas as pessoas que vieram visitar a Feira do Livro estiveram de máscara, todas as pessoas procuraram respeitar o distanciamento físico e todas as regras, todas as pessoas usaram os doseadores que estavam colocados um pouco por toda a feira, e isso também representa ou reflete essa vontade das pessoas em estar e em retomar o contacto com os livros.”

Um bem essencial para um setor em crise

Em 2020, a própria realização do evento foi já um momento de celebração para as editoras e livreiros. Números recentes divulgados pela APEL indicam que a quebra na venda de livros no primeiro semestre de 2020 ronda os 30%, mesmo após a reabertura das livrarias. Para o Grupo Porto Editora, por isso, a Feira do Livro de Lisboa simboliza “uma tentativa de recuperar ânimo e de ter um balão de esperança para enfrentar os próximos meses. Ainda por cima, todos os cenários que se apresentam são instáveis. Nós não sabemos particularmente, com rigor, o que é que nós vamos ter daqui a três semanas ou um mês ou dois meses. Nós vivemos, realmente, numa realidade que é imprevisível”. 

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Espaço Porto Editora/Bertrand Editora na Feira do Livro de Lisboa, 2020 | Fotografia: Mariana Nunes

Por isso, para “os editores, o objetivo é recolocar na atenção, na perceção das pessoas, o livro. Ou seja, fazer com que o livro esteja presente no dia-a-dia das pessoas e que, se porventura, houver uma nova fase – que esperemos que não aconteça – de confinamento, as pessoas não se esqueçam que os livros são os melhores passaportes e a melhor forma de viajar sem sair de casa.”

O evento surge, aliás, num momento de crise do setor. As quebras registadas no primeiro semestre surgem após um período de confinamento em que, nas últimas semanas de março – nomeadamente, na de de 23 a 29 de março – registaram-se quebras de mais de 80% nas vendas de livros em livrarias. O mesmo não foi registado em países como a Inglaterra, onde as vendas de livros na semana que antecedeu o confinamento aumentaram. “Isso não acontece por acaso”, diz Paulo Gonçalves. Portugal foi, provavelmente, dos países com maior quebra de vendas. (…) Isto tem uma leitura estrutural. Nos países onde há hábitos de leitura sólidos, onde há uma política do livro devidamente pensada, com visão estratégica, orientada para a promoção do livro e da leitura junto dos mais novos… e isto é geracional, é um trabalho em contínuo.”

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A falta de hábitos de leitura e a quebra de vendas desde o início de pandemia soou os alarmes em todas as editoras. Para o Grupo Porto Editora esta é a maior crise que o setor está a atravessar, e de que há memória. Quebras absolutamente trágicas, quase.” 

Por isso, a Feira do Livro assume um papel essencial para as editoras, uma vez que “aconteceu na altura em que tinha mesmo de acontecer para poderem enfrentar os próximos meses. Houve fecho de livrarias, houve suspensão de lançamentos de novidades – todas as editoras estão agora a tentar recuperar esse tempo. No caso concreto do grupo Porto Editora, e do Grupo Bertrand Círculo, é esse esforço que estamos a fazer, a trazer boas razões para as pessoas voltarem a sua atenção para o livro, com lançamentos para todos os gostos e para todas as idades, num esforço e numa tentativa de, realmente, agarrar os leitores e conseguirmos ultrapassar as dificuldades que se avizinham. E não vai ser uma tarefa fácil, nomeadamente naquilo que concerne às livrarias.” Após meses encerradas, Paulo Rebelo Gonçalves afirma que o cenário “é verdadeiramente dramático.”

Se há um apelo que pode ser feito aos leitores, nomeadamente aos leitores do Espalha-Factos, é que vão às livrarias, comprem livros, mas façam mesmo questão de ir ao livreiro mais próximo, ao livreiro de rua, do sítio onde moram, onde trabalham, porque nunca como agora os livreiros precisaram dos leitores.”

Desde março que as editoras pedem por medidas específicas de apoio ao setor. Para o Grupo Porto Editora, “perante as estatísticas, que foram sobejamente divulgadas, perante os dados absolutamente desastrosos do setor, seria de esperar que os responsáveis políticos pela área cultural tivessem essa preocupação e essa sensibilidade. Infelizmente não é o caso, e isso já é crónico no nosso país. Mais uma vez, será o setor do livro, os agentes, os editores e os livreiros a fazer esse esforço.” Porém, para livreiros e editores, “a indústria do livro, enquanto indústria cultural, será, provavelmente, da mais dinâmica e da mais profissional de todas as indústrias culturais. É, seguramente, aquela que mais contribui para o PIB, e é seguramente, também, a que menos apoio tem por parte das entidades públicas.”

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Imagem: Site Oficial Feira do Livro de Lisboa

A crise que afeta as editoras afeta também as livrarias, parceiros indissociáveis na indústria do livro. A “ausência de uma politica de apoio ao tecido retalhista tradicional”, que Paulo Gonçalves salienta, torna ainda mais importante que se apoie as “pequenas livrarias, que são agentes culturais importantíssimos que estão espalhados pelo país, que ainda por cima são também criadores de emprego, que são microestruturas mas que são muito importantes na função económica e cultural que exercem.”

É também esse, diz, o papel de feiras como a Feira do Livro do Porto, onde o Grupo Porto Editora está representado “através daqueles que são, para nós, parceiros absolutamente fundamentais, que são os livreiros”, com quem têm “uma relação umbilical”. Para o Grupo, é clara que a função dessas “feiras do livro são mesmo muito importantes para dinamizar o tecido livreiro local. As pequenas livrarias que existem espalhadas um pouco por todo o país, desde Tavira a Carapeços, em Barcelos, são livrarias que são importantes e que são pontos de divulgação do livro junto das populações locais e é muito importante olhar para esses espaços de promoção do livro, para esses espaços de venda, por que se eles não estiverem perto dessas populações, será muito difícil para os escritores e para os editores chegar aos olhos de quem lê.”

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Imagem: Site Oficial da Feira do Livro de Lisboa

Para o Grupo Porto Editora, que se faz representar no Porto pelos seus livros, não houve dificuldades, portanto, quanto à celebração, este ano, das duas feiras em simultâneo, até porque “seria muito mau para os nossos amigos livreiros se nós nos fizéssemos representar na Feira do Livro do Porto da mesma forma que estamos aqui em Lisboa. (…) Nós queremos é que eles vendam e que a feira lhes corra bem.”

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E para o ano?

Depois de um ano como 2020, é difícil de prever como será a Feira do Livro de Lisboa em 2021. “É óbvio que nós queremos que, em 2021, seja possível fazer uma feira do livro como nós nos habituamos a fazer. Mas, neste momento, o que eu posso dizer é que o que nós queremos é que haja uma feira do livro. Em que circunstâncias? Vamos ver. Desde que haja, já ficamos contentes.”

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