Armando Iannucci faz uma adaptação brilhante da obra de Dickens.
Searchlight Pictures / Divulgação

Crítica. ‘A Vida Extraordinária de David Copperfield’: Armando Iannucci e a nova vida de Dickens

A Vida Extraordinária de David Copperfield chega esta quinta-feira (17) aos cinemas portugueses. O novo filme de Armando Iannucci é uma brilhante abordagem ao livre de Charles Dickens.

De há uns tempos para cá, quando decido dar uma caminhada ao longo da urbanização em redor da minha casa, gosto de passar pela minha antiga escola primária, movido pela nostalgia de outros tempos. A primeira vez que fiz o percurso, passado tantos anos, fui invadido pela admiração. É que, quando era criança, tudo aquilo me parecia bem maior, desde os edifícios até ao tamanhos dos campos.

O filme começa nestes moldes, narrado pelo próprio David Copperfield (Dev Patel), numa cena em que a audiência, e o próprio David (lá atrás, no plano) assistem ao seu parto. “A minha mãe parecia tão grande na altura.”, confessa-nos a personagem principal. A partir da primeira cena percebemos que iremos estar perante um retrato fiel, mas caloroso, da história de alguém que não teve uma vida fácil, a roçar a tragédia e, aos olhos de Iannucci (mas também de Dickens), misturada com uma certa hilaridade.

Aliás, fiel e caloroso não basta para descrever o guião adaptado por Armando e Simon Blackwell. O filme é dotado de uma sinceridade desarmante na forma de contar a história de David. A premissa é que a versão adulta de Copperfield escreveu um livro auto-biográfico e que o está a apresentar a uma sala de espectáculos cheia de pessoas, incluindo familiares seus. Daí somos transportados para a já referida cena do parto, comandados pelo voice-off de Patel, que se apresenta como uma espécie de guia da audiência.

A vida atribulada de David Copperfield

A personagem ilumina-nos as grandes passagens da sua vida enquanto jovem, nos primeiros momentos interpretado por Jairaj Varnasi (uma criança dotada de uma sensibilidade magistral): a morte da mãe, poucos anos depois do parto, a crueldade com que é tratado pelo padrasto, Mr. Murdstone (Darren Boyd), e a irmã, Jane (Gwendoline Christie, a Brienne de Guerra dos Tronos), a expulsão da fiel cuidadora Peggoty (Daisy May Cooper), a escravidão laboral de que é alvo, desde cedo, numa fábrica de garrafas até à amizade com o Sr. Micawber (Peter Capaldi).

A personagem de Capaldi é um homem altamente endividado, que tem uma série de gente a entrar-lhe pela casa adentro a levar-lhe os móveis para cobrar as dívidas que tem pendentes. “Algo vai aparecer.” diz, a certo ponto da obra. Não querendo esperar para ver isso acontecer, David decide fugir do seu emprego da fábrica e tentar ser alguém na vida, com um estilo de vida minimamente respeitável. No meio de toda esta viagem, vão acontecendo peripécias a David que este vai apontando em inúmeros papéis, tendo como meta final o livro escrito que dá corpo a estas memórias que estamos agora a ver.

O destino é a casa da sua excêntrica tia, Betsey Trotwood (Tilda Swinton). A personagem de Swinton, por exemplo, tem ataques de fúria quando pessoas invadem os jardins da sua propriedade montados em burros. Betsey negligenciou o sobrinho após o nascimento porque esperava que fosse uma rapariga. Esta espécie de mau feitio esvai-se logo quando David irrompe pela sua casa, órfão, esfomeado e, principalmente, arrasado depois de ter vivido os últimos anos numa situação de extrema carência social. É o lado maternal a falar.

Betsey não vive sozinha. A acompanhá-la está o primo, Mr. Dick (Hugh Laurie), um homem que sofre de delírios, mas totalmente encantador. Dick é assombrado, alegadamente, na sua mente, pelos pensamentos do já falecido rei Carlos I, morto por decapitação. Iannucci não se acanha e tem a coragem de retratar a condição de Mr. Dick por aquilo que ela é: uma verdadeira doença mental. Caso não tivesse a ajuda de Betsey ou David, estaria provavelmente num hospício, um sítio muito em voga naquela altura, por volta da década de 1840.

Portanto, um dos momentos mais emocionais e bem construídos do filme chega quando David ajuda Sr. Dick a “livrar-se” destes seus pensamentos, ao lançarem juntos um papagaio no ar, carregado de bilhetes onde estavam escritas as coisas que Dick ouvia, transmitidas por Carlos I. Ver o alivio na cara de Laurie, ao perceber que o estratagema tinha resultado, é das melhores coisas que o cinema nos deu em 2020.

A vida amorosa de Copperfield também é acidentada, tendo de lidar com a sua primeira grande paixão, Dora Spenlow (Morfydd Clark) e com a leal Agnes (Rosalind Eleazar), a filha do gerente de negócios da tia Betsey, Sr. Wickfield (Benedict Wong). Quem sobressai como segundo vilão da história (depois do padrasto e respectiva irmã) é Uriah Heep, interpretado por Ben Whishaw, o ambicioso serviente de Sr. Wickfield que, protegido por uma manta de aparente humildade e timidez, esconde um plano para arruinar com o patrão e ficar com os negócios da família, para isso dando o nó com Agnes.

Uriah é até bem-sucedido no plano, aproveitando e muito contribuindo para o contínuo estado de embriaguez do pai de Agnes, conseguindo assumir a chefia das pastas que o antigo patrão tinha em mãos. O seu imediato desejo é arruinar a vida de David porque este recusou-se a ajudar Heep a ganhar, sem mérito, a confiança de Sr. Wickfield, depois de descobrir a verdadeira essência do tímido empregado. E a verdade é que Uriah consegue, ao retirar a posse da casa, onde viviam David, a tia e o primo desta, à própria Betsey. Copperfield vê-se assim novamente atirado para uma vida desoladora, vivida em grossos traços de precariedade.

Uma inovadora adaptação do texto de Dickens

O argumento tem tons e cores pouco vistas em filmes que se baseiam nas várias obras de Dickens, dado que não esquece o humor e os jogos de palavras tão característicos do escritor. Por exemplo, as anteriores adaptações de David Copperfield caíam facilmente na teia de tragédia e dor montada pelo próprio Charles no texto original, acabando por se tornarem em dramas puros e duros.

Aqui, Iannucci parece seguir o famoso mote alegadamente proferido por Mark Twain: comédia é tragédia mais tempo. Aproveitando o facto de ter a versão adulta de David a revisitar, com os seus próprios olhos, a jornada da sua vida até ao presente, isto dá-lhe tempo suficiente para observar o lado mais dramático da sua vida com humor e uma leveza desconcertante. E o filme acaba por ser, de facto, hilariante. Mas verdade seja dita, há aqui momentos de drama e comentário social, completamente desprovidos do humor cáustico de Armando, que se tornam numa novidade na carreira do realizador, conhecido pelas sátiras Veep e A Morte de Stalin.

Um elenco no seu melhor

A decisão mais radical de Iannucci tem a ver com o recrutamento de Dev Patel para o papel principal. É curiosa, mas que se explica na necessidade de representar a diversidade que se vê, hoje em dia, em Inglaterra. Acaba por ser um revisitar do passado com olhos do presente, com gente do presente. Há poucos produtos culturais a fazer um trabalho tão detalhado e bem feito em termos de escolha de inúmeros artistas de diferentes raças para papéis que iriam, tradicionalmente, para brancos.

E Patel brilha no papel melhor da sua carreira. O filme acabou e fiquei com a sensação de que o papel de David Copperfield não podia ser de mais ninguém, e isso é o maior elogio que posso fazer. Há uma verdadeiro arco narrativo encarnado por Patel, numa jornada que parte de um rapaz inocente e modesto até alguém que é verdadeiramente o dono da sua história.

Tilda Swinton comanda um elenco soberbo a todos os níveis.
Searchlight Pictures / Divulgação

O resto do elenco é extraordinário, e só assim podia ser para servir de suporte ao ritmo único de Iannucci. Hugh Laurie tem aqui, muito provavelmente, a sua performance mais cativante de sempre, comovendo o espectador a níveis inesperados. Tilda Swinton agarra a personagem de Betsey com unhas e dentes, em mais um papel exótico, numa carreira cheia de momentos deste género, sendo quase inexplicável a forma como a atriz consegue manter tal grau de qualidade ao longo dos anos, sem dar um passo em falso.

Como referido atrás, Peter Capaldi consegue fazer-nos acreditar que ainda continua a existir gente optimista para com os infortúnios que a vida nos oferece, no papel de Mr. Micawber. A interpretação de Rosalind Eleazar é deliciosa, munindo Agnes de encanto e inteligência, tendo-me feito questionar o porquê de Copperfield se ter apaixonado por Clara e não por Agnes. Sendo esta uma obra semi-biográfica da vida de Dickens, penso que isto esteja ligado com a necessidade do escritor (e de David) em encontrarem, quase sem pensarem, uma espécie de lar que fizesse substituir ou apagar as memórias que tinha de uma juventude pobre em amor e carinho.

Clara acaba por ser a personagem mais desinteressante deste grupo gigantesco, mas acaba por ser um dos utensilios de Iannucci de modo a que o realizador imprimisse a sua identidade no filme. Numa cena em particular, enquanto a personagem de Patel está quase a acabar o livro da sua vida, Clara questiona o marido o porquê de este a incluir na história se ela se sente tão desenquadrada do resto da narrativa. Este e outros, como a visualização de flashbacks por via de filmagens em paredes, são momentos que fazem com que A Vida Extraordinária de David Copperfield seja uma obra superior.

Faltou falar de gente. Da interpretação amorosa de Daisy May Cooper como Peggotty, a forma como Gwendoline Christie usa a sua altura para parecer uma autêntica vilã na pele de Jane Murdstone ou o humor de Benedict Wong (e ainda!) entre outros. É um filme de um elenco numeroso e magistral, um trabalho de grupo a fazer lembrar a qualidade apresentada o ano passado em Mulherzinhas, por exemplo. Mais do que escrever, mais vale ver e apreciar, sendo uma verdadeira jóia de experiência nestes tempos tão incertos.

David Copperfield é quase um milagre em forma de filme

O filme é, no fim, um gigante estudo sobre a questão da nossa própria identidade e se somos donos da nossa própria vida. Ao longo da produção, uma das piadas mais constantes é o facto de quase todas as personagens do filme terem uma alcunha diferente para David: Betsey chama-o Trotwood Copperfield, o seu melhor amigo da escola, Steerforth (Aneurin Barnard) apelida-o de Daisy, a futura mulher Dora (Morfydd Clark) prefere chamá-lo Doady, entre outros exemplos.

A personagem principal, enquanto a história decorre, parece perdido neste labirinto de diferentes identidades atribuídas pelas pessoas que conhece ao longo da vida. No fim, há um momento de triunfo. Patel anuncia, perante todos os familiares e amigos, mas também para o espectador, ‘Eu sou o David Copperfield’.  É quase indescritível a satisfação que senti quando ouvi estas palavras vindas de Dev Patel. Houve lágrimas. Da minha parte. A Vida Extraordinária de David Copperfield é uma das grandes surpresas deste ano.

Armando Iannucci faz uma adaptação brilhante da obra de Dickens.
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