O realizador português esteve presente para uma conversa intimista.
MotelX/ Divulgação

MOTELX ’20: Pedro Costa e a sua Vitalina, os zombies e Tourneur em ‘Filmar as Trevas’

A conversa com o realizador português teve como tema principal as suas influências.

A 14.ª edição do MOTELX convidou Pedro Costa, o conceituado realizador português, para o espaço de discussão Filmar as Trevas. O currículo do cineasta, marcado por obras como Vitalina Varela, No Quarto de Vanda ou Juventude em Marcha, dispensa apresentações.

A conversa debruçou-se na exploração da ligação estética e temática dos filmes de Costa com o cinema de terror clássico e uma particular conexão com os filmes de Jacques Tourneur.

João Monteiro, director do MotelX, iniciou a conversa referindo que escolheu Pedro Costa para este espaço porque “acaba por fechar um ciclo que começou em 2005, com o ciclo de zombies que nós propusemos à Cinemateca, e passando por todos os filmes óbvios de zombies, desde o White Zombie e o último do Romero, na altura, também quisemos mostrar alguns filmes não tão óbvios assim, e para a representação portuguesa escolhemos o filme Ossos“.

A primeira pergunta feita a Pedro Costa parece que se adivinha. “O teu cinema tem género?”, questionou João. “Não faço ideia, eu não ligo muito a géneros, não ligo, não penso nisso.” A questão fica rematada com o realizador a confessar que nunca fez distinção entre terror e o musical, “sempre vi o bom e o menos bom, o que me agrada”.

Esta curiosidade em saber como é que Pedro Costa encara os seus próprios filmes não fica saciada. “Imagina que te perguntam, não sabem quem tu és, que tipo de filme é que tu fazes?”, a pergunta paira no ar até Costa dar a resposta. “Não sei, os filmes que eu faço, faço com pessoas em sítios que vocês sabem quais são e aí nunca me perguntam isso.”

Pedro Costa, um realizador “marcado”

Num tom mais sério, Costa admite estar “muito marcado, sou uma pessoa marcada, ninguém tem de me perguntar isso, toda a gente sabe aquilo que faço, estou marcado para o resto da vida. É uma maldição, é mesmo. Eu faço filmes com pessoas que estão marcadas, num certo sentido.” 

Vitalina Varela é o mais recente filme de Pedro Costa
‘Vitalina Varela’ é o mais recente filme de Pedro Costa (OPTEC/ Divulgação)

E não resiste a contar uma zanga recente que teve devido ao que dizem dos seus filmes: “No outro dia zanguei-me com uma pessoa, com esta história dos zombies, os zombies mesmo. A Vitalina e o Ventura, as pessoas com quem eu filmo, acabam por ser zombies [segundo alguma crítica especializada]. Numa conversa sem pés nem cabeça, é estúpida, e muitas vezes, ou a maior parte das vezes, vem dos chamados críticos eruditos. Vem do Público, do Expresso, vem daí.”

O realizador continua, explicando que “cada pessoa que adormece, ou acorda, ou anda um bocado transtornada ou deprimida [num filme seu] é um zombie, a mim ofende-me, e ainda mais agora porque toda a gente que vive assim para além de Benfica é zombie.” O público ri-se com a tirada.

Mas o cineasta não se fica por ali, sentenciando que “é mesmo assim, no Público e no Expresso, eles não sabem, não têm mais aparelho, vocabulário”, chegando ao ponto de dizer que o que escrevem “é um abuso, não há outra palavra”.

Mal por mal, Pedro Costa prefere a palavra “condenado” para descrever as suas personagens/pessoas reais. “A Vitalina, o Ventura, são pessoas pessoas condenadas, como os outros que vêm dos bairros. Assim que a Vitalina entra num avião da TAP para vir para cá, seja por que razão for, está condenada, amaldiçoada por todos nós. Passar disso para o zombie…não é um zombie.”

Pedro Costa detalha as burocracias que envolveram a inclusão de Vitalina no seu mais recente filme, Vitalina Varela, lançado em 2019. “A Vitalina tem 58 anos, não tinha papéis há um ano, foi dificílimo chegar aos papéis da Vitalina, foi um ano inteiro durante as filmagens a irmos para o Marquês de Pombal. Tudo o que vocês lêem e vêem nas televisões é real.” disse, referindo-se aos problemas de imigração e emigração.

Filmes sobre pessoas reais

João Monteiro explicou qual a ligação, para ele, dos filmes de Costa com os zombies, demonstrando que se afasta do que entendemos agora por tais criaturas. “A questão do zombie, há uma ligação com o cinema zombie, não sendo ao Romero, é ao Tourneur, com o filme dele, o White Zombie, em que os escravos negros do Haiti eram enfeitiçados, tiravam-lhes a alma e eram obrigados a trabalhar como se fossem máquinas.”

E, para o diretor do MotelX, a ligação das personagens de Pedro Costa com zombies tem a ver com isso, dado que lhes “foi retirado um bocado da vida que eles provavelmente teriam tido.” Pedro Costa concorda. Tínhamos, finalmente, chegado a bom porto.

O realizador diz não querer fazer dos seus “filmes coisas demasiado sérias ou comprometidas, nem sequer militantes, mas toda a gente percebe que são filmes que estão de um lado e não de outro, espero eu.” Apesar de, a seu ver, os seus filmes não terem uma voz “por aí além”, o cineasta acredita que o filme está do lado “dessas pessoas, dão voz a essas pessoas, são coisas básicas.” Costa explica que os seus filmes não sendo “politicamente muito escarrapachados”, acabam por ser retratos algo íntimos de certas pessoas.

Cavalo Dinheiro
Cavalo Dinheiro. (Reprodução/DR)

A sua obra é composta por ” filmes que falam de pessoas em situações muito extremas mas também de muita intimidade, estão dentro deles, encontram coisas muito más, ou muito boas às vezes, são desse género. Às vezes isso, e sei por experiência, lá, nesses locais, na Cova da Moura, na Damaia, nas Fontainhas, na periferia, têm um efeito, mostrar a essas pessoas que nós somos capazes de fazer e até concorrer com o Brad Pitt.” O realizador sentencia a questão, deixando claro que “eles não são zombies nenhuns, são grandes trabalhadores, são pessoas muito vivas.”

A sombra de Jacques Tourneur 

A conversa chega a Jacques Tourneur, o realizador francês considerado um dos grandes nomes da história do terror. João Monteiro explica ao público que Cat People, um dos filmes realizados por Tourneur, “estabeleceu a linguagem do terror”. Feita a introdução, suscita-se a curiosidade de saber de que maneira é que um dos pais do cinema de terror moderno está ligado a Pedro Costa.

"Cat People" foi o primeiro filme que Pedro Costa viu de Tourneuer.
‘Cat People’ foi o primeiro filme que Pedro Costa viu de Tourneuer. (MUBI/ Divulgação)

“A primeira vez que vi um filme dele onde apanhei um choque, uma revelação, foi nuns ciclos famosos do João Bernard da Costa [reconhecido crítico português], na Gulbenkian, no princípio dos anos 80.” A conversa está fluída e Pedro continua a contar a história, recordando que o filme em questão foi o Stars in My Crown, de 1950. “Há uma coisa que percorre todo o filme, o facto de ser o filme mais bonito de todos os filmes feitos entre brancos e negros.”

Pedro demonstra bem a admiração que nutre pelos realizadores daquela altura, entre os anos 40 e 50. “Tinham menos meios, ficavam com os restos dos outros, faziam uns restos dos cenários dos outros. O John Ford ia fazer um filme, e uns dias depois apanhavam uma rua e faziam o que podiam, é o que é.”

Feita a ligação com Tourneur, Pedro compara os métodos de trabalho dos realizadores da atualidade com os daquela época, dizendo que “eles trabalhavam muito, eram pessoas de muita intenção e de muito trabalho, que não desistiam e ao contrário de muitos de nós de hoje, não perdiam a razão de ser da coisa. Há uma coisa a fazer e isso tem que ser até ao fim. Temos que chegar com essa razão até ao fim.”

Casa de Lava, um remake de I Walked With a Zombie?

A conversa chega a um ponto que, sendo verdadeiro, quase parece mentira. João Monteiro toca no assunto e pergunta: “A Casa de Lava começa por ser, inicialmente, um remake do I Walk With a Zombie do Tourneur. O que é que te levou a fazer um remake de um filme dos anos 40?” 

Pedro ri-se com a pergunta. “Era um filme que eu gostava muito, mas na altura foi uma coisa que eu peguei de repente. Foi uma proposta de fazer um filme, seja o que for, do Paulo Branco, o produtor, que me disse: ‘Então, vamos trabalhar, fazer qualquer coisa.’ E a mim apetecia-me fazer isso.”

"Casa de Lava" é uma das obras incontornáveis da carreira de Pedro Costa.
‘Casa de Lava’ é uma das obras incontornáveis da carreira de Pedro Costa. (RTP/ Divulgação)

Pedro Costa explica o que o levou a ir até Cabo Verde para filmar a Casa de Lava. “Na altura vivíamos no Cavaquismo, uma coisa patética, era uma altíssima má onda. Aliás, vê-se o homem e percebe-se logo.” Para bom entendedor, meia palavra basta. “Havia uns economistas, umas coisas, progresso, progresso, Europa, mais, mais, mais.” O público ri-se. “E a mim apeteceu-me ir para longe, sair de Portugal.”

Entretanto, surge Cabo Verde na ideia de Costa, país onde o realizador “nunca tinha estado, e lembrei-me da Ilha do Fogo, das vistas, da fotografia. O Paulo Branco lá conseguiu pagar uma viagem de uma semana ou duas para visitar. E a visita a Cabo Verde, à Ilha do Fogo, juntando a estes delírios de série B, levou-me a pensar numa espécie de remake.”

É mesmo só uma espécie. “O que acontece no meu filme não segue em nada o filme do Tourneur, apesar de ter também uma enfermeira, no meu caso a enfermeira leva o zombie para lá.” 

Pedro revelou também a forma como a Casa de Lava veio fazer com que quebrasse algumas coisas de que já não era adepto na forma de fazer cinema. “Ao longo do trabalho no filme é que as coisas foram mudando para mim, apesar de me ter aproximado do Tourneur, afastei-me de uma maneira de fazer cinema que não me sentia bem.” O cineasta chega até a descrever a sua criação como sendo um “filme muito perdido”.

Para Pedro, a Casa de Lava “é uma coisa muito dispersa, à procura, acho que cada vez que vejo alguma coisa do filme, percebo logo que eu andava era à procura de pessoas de Cabo Verde, do que eles quereriam fazer no filme, dizer. Foi algo que eu na altura não consegui fazer e fiz mais tarde. Vim-me embora e fiz mais tarde, mas aprendi muita coisa, e posso dizer que aprendi isso com o Tourneur.”

‘Filmar as Trevas’ — A metodologia de Pedro Costa

A conversa vai rica e interessante, mas é tempo de se discutir o tema que dá título à conversa. O que é isto de “filmar as trevas”? Começou-se pela análise de O Sangue, a primeira longa-metragem de Pedro Costa. “Apesar de ter muito afeto por ele, o primeiro filme é o primeiro filme, mas foi um filme de produção muito convencional, havia horários, planos de trabalho.”, explica o cineasta.

"O Sangue" foi a primeira longa-metragem da carreira de Pedro Costa.
‘O Sangue’ foi a primeira longa-metragem da carreira de Pedro Costa. (ICA/ Divulgação)

Do ponto de vista técnico, é um filme “muito filmado à noite em exteriores, é uma coisa muito difícil de se fazer porque precisa de muita luz, projetores.” Pedro tem razão. Atualmente, os equipamentos de cinema estão muito mais avançados, adaptam-se ao digital. Na altura, os projetores eram “pesadíssimos”, e Costa conta-nos que eram precisas três pessoas para os transportar, a equipa de imagem tinha nove pessoas, para além de camiões e camionetes, tudo isto à noite.

Apesar de alguns percalços na produção de O Sangue, Costa admite que teve “muita sorte com os atores, não foi uma coisa sem problemas, dado que nem sabia sequer o que fazia. É normal, é um problema de qualquer realizador, havia pânico e angústia mas, ao mesmo tempo, um entusiasmo sem escala.” 

Quanto tempo demoram a ser feitos os filmes de Pedro Costa?

“Quando vejo os teus filmes, os últimos, surge-me a questão do tempo. Quanto tempo demoram?”, a pergunta é feita por João, a propósito de Cavalo Dinheiro. Pedro faz questão de explicar o seu processo criativo. “Não digo que haja uma ideia antes, há sempre uma ideia, seja para a Vitalina, o Ventura, há sempre um diálogo sobre o que vamos fazer e como é que a gente acha que vai fazer. E, na prática, é uma coisa que se põe em marcha, tudo ao mesmo tempo, a imagem, o som, os atores, o texto.”

Está encontrada, segundo Pedro Costa, a razão para que os seus filmes demorem bastante tempo a serem feitos. “Mas, ao mesmo tempo, tentamos não desistir de algumas coisas. E, normalmente, estamos lá todos, somos três ou quatro, e a imagem o som, eu e mais um ou dois atores, às vezes três.”

A luz é um dos pontos técnicos mais elogiados dos filmes de Pedro Costa, comparados pela crítica a autênticos quadros de Caravaggio, dada a beleza dos planos. “Fala-se muito da luz que fazemos nos filmes, sobretudo porque as pessoas perderam esse prazer e estão mal habituadas. Queremos dar-lhes o melhor presente possível, como era dantes.” 

O  realizador não é adepto das novas práticas em Hollywood. “Hoje já não é assim, tirando coisas muito caras, e nem sempre. Vejo um ou dois em Hollywood e o resto é uma bitola muito baixa. As comédias são todas iguais, as gargalhadas, a luz, som, isso tudo, as pessoas estão mal habituadas, e quando veem assim coisas parecem-lhes coisas complicadas e extravagantes.” 

Pedro refere que o que ele faz é difícil, mas que qualquer trabalho é difícil. “É preciso pensar, discutir às vezes, ou ficar calado. Às vezes é preciso uma crise e não filmar nesse dia. Eu acho que consegui encontrar para mim e para as pessoas que comigo trabalham o tempo e meios para não desistirmos e, se quisermos ter uma crise, temos.”

A tarde já se encaminha para o fim, tal como a conversa com Pedro. O realizador despede-se de quem o vê deixando uma reflexão daquilo que é, para ele, o cinema. “Eu apetece-me dizer que o cinema tem um lado profundamente, na sua origem, irracional. É feito de tudo, não só de horror, de medo, mas de todas as matrizes das emoções humanas, o lado irracional.”

E deixa uma sugestão aos produtores, as pessoas “do lado do dinheiro”. Para Costa, a produção devia incluir e não menosprezar essa “parte fundamental do irracional”, e a irresponsabilidade que vem agarrada ao cinema.“Um bom produtor, pelo menos de cinema, devia ser um tipo que dizia sim à irresponsabilidade… não sempre, mas dizer ‘sim’ às vezes.” E assim ficou encerrada a questão. Entre fascinantes conversas, anoiteceu e era hora de voltar a casa.

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