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Daniel Kaluuya em ‘Get Out’ (IMDB)

MOTELX ’20. O Pesadelo Americano: A representação do racismo no cinema de terror

MOTELX pode já ter acabado, mas não podíamos deixar de destacar uma das secções mais importantes da edição deste ano. A secção Pesadelo Americano separou alguns dos filmes que retratam a temática do racismo e contrapõem os medos irracionais do além com os terrores que vivemos em terra. No discurso de abertura do festival, Catarina Vaz Pinto, vereadora para a cultura da Câmara Municipal de Lisboa, relembrou que o grande ecrã deve ter espaço para, além de abordar as temáticas tradicionais do cinema de terror, desconstruir fenómenos como o racismo.

Nesta secção do MOTELX, foram programados sete filmes, de nomes como Wes Craven, o famoso realizador que já arrancou vários gritos às suas audiências e mente por trás da série Scream e de The Nightmare on Elm StreetJordan PeeleBernard RoseBill GunnRoger Corman  foram alguns realizadores também incluídos no programa. Numa altura em que pessoas negras continuam, e cada vez mais, a morrer nas mãos da polícia americana e o racismo continua estampando comentários redes sociais fora, o MOTELX reforça a importância de exibir a discriminação no grande ecrã e de manter a chama do ativismo acesa para que as desigualdades fiquem-se pelas quatro linhas da tela.

Ao longo da história, os filmes de terror têm sido uma fonte inesperada de comentário social, expondo as desigualdades de classe, género e etnia. Ao mesmo tempo que os chamados slashers vieram perpetuar muitos dos estereótipos que perduram na história, vários são os filmes deste género que pretendem uma análise e exposição profunda de fenómenos como o racismo. Candyman, The People Under the Stairs, Tales from the Hood Get Out são alguns filmes que representam a progressão que se deu ao longo dos anos, que passou de pôr a pessoa negra como alguém a temer para colocá-la como protagonista que sofre diretamente com os terrores aplicados sobre si – a ordem cronológica não está invertida inocentemente. É justamente Candyman que põe o homem negro enquanto figura perigosa e a temer. The People Under the Stairs inverte a situação, colocando uma criança com graves dificuldades financeiras a ter de desenrascar-se sozinha numa situação de perigo. Por fim, Get Out mostra-nos um homem negro bem sucedido que é seduzido por uma rapariga branca com uma família supremacista com um projeto de “raça” no mínimo psicótico.

O homem negro como vilão em Candyman, de Bernard Rose

Em Candyman (1992), Helen (Virginia Madsen) e Bernadette (Kasi Lemmons) são duas investigadoras cuja tese incide em mitos urbanos e comunidades em situações mais frágeis que, supostamente, se refugiam nestes mitos para explicar crimes horrendos. A dupla depara-se com a lenda de Candyman (Tony Todd), parecida à de Bloody Mary: ao dizer-se o seu nome cinco vezes ao espelho, ele aparece e assassina a vítima com um gancho que substitui a mão. Candyman é o filho de escravos que acabou por se integrar na sociedade “civilizada” como sapateiro. Ao apaixonar-se por uma rapariga branca e “pura” e engravidá-la, Candyman é linchado por um grupo de homens brancos que lhe cortam o braço e põem um gancho no seu lugar.

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Em Candyman, o grande vilão é um homem negro, viril e perigoso que cobiça a menina branca e pura e vai até às mais extremas consequências para consegui-la. O estereótipo vai ao encontro daquilo que se construiu à volta da figura do homem negro, alto e ameaçador, rodeado de vários clichês relativos ao género e àquilo que se associava às comunidades mais pobres dos “projetos” dos Estados Unidos. O filme tem um remake marcado para 2021, com realização de Nia DaCosta, que escreveu o argumento com Win Rosenfeld e  Jordan Peele, que já se consagrou enquanto um dos grandes mestres desta nova vaga de terror.

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O Pesadelo Americano: o caso Candyman | Fonte: IMDb

A inversão de papéis em The People Under the Stairs

Em The People Under the Stairs, realizado em 1991 pelo mestre do terror Wes Craven, os papéis invertem-se. Fool é um jovem de 13 anos que se vê desesperado quando uma carta de despejo chega à sua porta. Ele, a mãe doente e a irmã que não consegue sustentar os próprios filhos, têm de pagar o equivalente a três rendas para continuar em casa. Leroy, um conhecido da irmã de Fool acaba por conseguir que o adolescente sucumba à criminalidade e ambos rumam a casa dos seus senhorios para roubar as conhecidas moedas de ouro que guardam algures na casa.

Fool acaba por ficar preso numa casa labiríntica – os senhorios, que se tratam por Paizinho (Everett McGill) e Mãezinha (Wendy Robie) são um casal supremacista (irmãos, na verdade) que, no sonho de construir a família perfeita, acabam por raptar vários rapazes para agirem como seus filhos.

Mãezinha e Paizinho veem a oportunidade perfeita para exteriorizar os seus desejos de torturar pessoas negras – “vocês não são nenhuma comunidade. São um bando de parasitas”, dizem a certo ponto. Toda a casa é feita de armadilhas que Fool ultrapassa com dificuldade e, quando finalmente consegue livrar-se, algo maior que ele obriga-o a voltar para salvar Alice, uma menina raptada que o casal de irmãos psicopata chama de filha. No final, Fool consegue dinheiro suficiente para o tratamento da mãe e para a renda dos próximos 10 anos, assim como para toda a comunidade de que faz parte.

Em The People Under the Stairs, os papéis são revertidos: Fool é o jovem que é obrigado a arranjar alternativas para um vida sem oportunidades e Paizinho e Mãezinha são as figuras odiosas e maldosas que exercem o seu poder e privilégios sobre toda uma comunidade que se vê sob as suas garras – o casal é senhorio de grande parte da vizinhança e despeja-os sem qualquer aviso prévio. Fool vem inverter o paradigma, e mostra quem verdadeiramente são.

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The People Under the Stairs, de Wes Craven | Fonte: IMDB

A denúncia do racismo em Tales from the Hood, de Rusty Cundieff

Tales from the Hood (1995) aproveita a sua estrutura segmentada, dividida em quatro mini-histórias distintas, para tocar em várias questões que, infelizmente, assolam a comunidade afro-americana até aos dias de hoje. A premissa é simples: um trio de traficantes de droga, Stack (Joe Torry), Ball (De’aundre Bonds) e Bulldog (Samuel Monroe Jr.) dirigem-se a uma casa funerária chefiada por Dr. Simms (Clarence Williams III), que diz ter comprado droga que escondeu no mortuário. Enquanto os quatro se encaminham para o local onde está a droga, Dr. Simms vai contando histórias a envolver a morte dos corpos que estão ali prestes a ser enterrados.

O filme lida com um largo espectro de temas, percorrendo a brutalidade policial contra a comunidade negra, a violência doméstica, o racismo institucional e, por fim, a violência entre gangs. Importa referir que Spike Lee, o realizador de obras como Da 5 BloodsBlacKkKlansman: O Infiltrado ou Malcolm X, é um dos produtores executivos do filme realizado por Rusty Cundieff. E nota-se o seu dedo logo na primeira história contada por Dr. Simms, a envolver o excesso de carga policial, completamente gratuita e desprovida de sentido, por parte de polícias brancos, contra cidadãos negros.

E se Spike Lee foi o primeiro, na ficção, a denunciar estas condutas, em 1989 com o seu Do The Right Thing, onde colocou uma indústria em choque com as repercussões do que viram no grande ecrã, Tales from the Hood veio novamente alertar para este tipo de condutas, em 1995. Nada disto chega. Chegamos a 2020 e George Floyd é assassinado, por asfixia, às mãos de um polícia branco. Jacob Blake leva sete tiros de outro polícia. A história é cíclica e não aprendemos com os erros.

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É importante este tipo de obras, de realizadores negros, utilizando artistas negros, em que a voz está do lado das minorias. Mesmo com humor, a passar em quase todos os segmentos, a verdade aparece-nos bem escarrapachada, seja de forma exagerada, com a utilização de bonecos assombrados por antigos escravos a matarem um senador racista do sul (fazendo lembrar, de forma arrepiante, Donald Trump, isto ainda em 1995) que fechava os olhos ao passado esclavagista do país, seja por imagens nuas e cruas de polícias brancos a espancar e a matar cidadãos negros. Não se pode subestimar o filme por ser uma comédia: há aqui uma voz vital, firme, tristemente demasiado relevante para os nossos dias, mas necessária de ser escutada

Tales from the Hood
Tales from the Hood, de Rusty Cundieff | Fonte: IMDb

Get Out, de Jordan Peele

Anteriormente conhecido pelo seu trabalho na comédia, com a dupla Key and Peele, com Get Out Jordan Peele mostrou ao público que o terror também é uma das suas grandes vocações. Apesar de não se encaixar nos moldes do terror tradicional, Get Out é certamente um dos filmes mais aterrorizantes dos anos 2010.

A primeira parte do filme mostra-nos Lakeith Stanfield a caminho de um encontro numa vizinhança suburbana branca, é raptado por um carro antigo que toca uma música assustadora. Corta para Chris (Daniel Kaluuya), um jovem negro que se prepara para passar o primeiro fim de semana em casa da namorada branca Rose Armitage (Allison Williams)Eles sabem que eu sou…?”, pergunta ao arrumar as malas. Rose responde que não e que também não interessa: “O meu pai teria votado pelo Obama uma terceira vez se ele tivesse concorrido”.

Inicialmente, tudo parece estar bem, exceto pelo facto de que os dois empregados da casa são negros. Mas quando o pai de Rose reconhece este facto num “mano-a-mano” com Chris e explica-lhe que eles eram cuidadores dos seus pais e que o apego que sente por eles não o permitiu despedir-lhes, tudo parece ficar bem. O irmão de Rose é o primeiro que começa a fazer insinuações racistas, ao comentar a superioridade física da etnia negra, mas os pais não lhe deixam continuar. No entanto, tudo começa a ficar estranho quando a mãe de Rose, Missy (Catherine Keener), que é psicoterapeuta, pratica uma das suas sessões de hipnose sem o consentimento de Chris.

No dia seguinte, os Armitage recebem uma grande festa em memória dos avós da família, que já partiram. Uma enchente de gente branca vai chegando na casa isolada. Apenas um negro para além de Chris está presente e quando este consegue tirar-lhe uma fotografia, o flash despoleta uma reação assustadora: o rapaz que já vimos a ser raptado na primeira cena do filme, debruça-se para cima de Chris e grita apavorado “Foge!“.

As sessões de hipnose acabam por fazer sentido quando Chris se apercebe que os Armitage são uma família supremacista branca que criou uma linha de “lavagem cerebral”, onde pessoas brancas com grandes dificuldades motoras passam por uma cirurgia que lhes possibilita trocar de corpo com jovens negros, mais fortes e sãos que eles. Chris acaba por conseguir fugir mas a metáfora final não se escapa. Quem o encontra é Rod, um amigo segurança que o vai buscar num carro de polícia – o terror no olhar do jovem ensanguentado depois de conseguir fugir da casa da família dita aquilo que, por segundos, tememos. Se fosse efetivamente um polícia, Chris poderia ter sido preso, ou morto, por um crime que não cometeu, do qual foi até vítima.

Get Out foi um dos filmes mais falados de 2017 pela sua temática atual e apavorante. Jordan Peele fabrica um conto que não parece estar assim tão longe da realidade com uma brutalidade e crueza imprescindível quando se trata deste tipo de temas. É um dos filmes mais importantes desta vaga do cinema do terror não só porque “normaliza” como des-romantiza a vida difícil de uma pessoa negra, como se pode argumentar que é feito em The People Under the Stairs. Apesar de contar com protagonistas negros, o filme de 1991 dualiza a experiência discriminatória onde estão inseridos e põe a personagem principal sob um grande dilema moral que muitos podem criticar. Get Out mostrou a importância de enfrentar o racismo e de inverter o atual paradigma de brutalidade policial. Os movimentos nas redes sociais e o facto de o filme se ter tornado numa das bandeiras pela igualdade social entre etnias mostra verdadeiramente o seu sucesso.

Get Out foi exibido no Motelx
Fotografia: Reprodução/DR

Texto de Kenia Sampaio Nunes e Diogo Silva

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