João Paulo Sousa
Fotografia: João Paulo Sousa / Instagram

Entrevista. João Paulo Sousa: “Já viste a sorte que eu tenho?”

João Paulo Sousa é um dos nomes mais proeminentes na atual programação da SIC, faz rádio todos os dias na Cidade FM e prepara-se para a estreia de O Atentado, a nova aposta da RTP1 para as quartas-feiras à noite. Em entrevista ao Espalha-Factos, fala sobre o novo projeto de ficção e do que amadureceu durante a quarentena.

Aos 32 anos, o apresentador, ator e humorista que se fez famoso ao apresentar o Disney Kids, na SIC, tem acumulado projetos ao longo dos últimos 12 anos. Passou pelos elencos de Bem-vindos a Beirais, Sol de Inverno e Golpe de Sorte e apresentou formatos como Smile SIC, Não Há Crise! e O Programa da Cristina. Agora, mostra-se grato pelo percurso e diz estar a agarrar uma oportunidade de cada vez.

EF: Como foi este teu regresso à ficção, com O Atentado?

JPS: Foi incrível, estava a falar sobre isso agora com os meus colegas. Eu tinha acabado de fazer o Golpe de Sorte, e recebi esse convite que é da mesma produtora, da Coral. Foi passar para um outro mundo, mesmo. Para já porque a história é real. Passa-se em 1937, e relata um atentado a Salazar, que existiu mesmo, e que falhou por poucos metros.

Depois é a intensidade com que todo o projeto está construído, muito bem delineado pelo Moita Flores, que foi quem escreveu durante quatro anos, com uma investigação mesmo séria. Estava ele a contar-me, ainda há bocado, que houve um senhor que lhe ligou a dizer “O meu pai é uma das pessoas de quem falam na série”. Pá, isso existiu mesmo, ’tás a ver?

Além disso, há uns tempos, eu estava a falar com a minha avó, a dizer-lhe que ia fazer um agente da PIDE, e ela esteve a contar-me que esteve presa porque o meu avô emigrou, na altura ilegalmente, para França, para procurar melhores condições de trabalho… porque havia toda aquela situação dos bufos, que contavam a vida dos outros e o que faziam. Então foi uma coisa mesmo intensa.

A série é 100% de época. Bicicletas de época, roupas de época, carrinhos de bebé de época, cabelos de época. Tudo de época. Foi brilhante. E foi… não tenho vergonha de dizer isso, porque esse é o meu lado 100% pessoal, mas foi de longe o melhor trabalho que já fiz em ficção até hoje.

Para já teve essa componente da escrita, depois teve um realizador que tem felizmente o tempo, que também vale dinheiro, para dizer “Vamos repetir mais uma vez, e outra, e outra, para isto ficar realmente bem”. E foi brutal. O elenco também foi brutal. Trabalhei com pessoas como o Adriano. O elenco é mesmo um grande elenco. A história é brilhante. Fiquei super emocionado de ver aquelas imagens. Está lindíssimo também. E fiquei super feliz de pertencer a uma série com esta dimensão, este impacto e o destaque que está a ter. Ainda como dizias, vindo normalmente de outra área, do entretenimento, e poder de vez em quando fazer isto, acrescentar. Para além de já fazer rádio, televisão e dobragem e espetáculos, poder ir trabalhando como ator dá-me muito prazer, porque na verdade foi aí que eu comecei, toda a minha formação é de ator.

Como é que arranjaste tempo para fazer a pesquisa toda, e o que é que envolveu essa pesquisa, também?

Falei muito com pessoas reais: a minha avó, pessoas que conheceram agentes da PIDE. Tive a sorte também de ter um guião que me dá muita informação, não só naquilo que eu digo mas também no que os outros o que dizem sobre mim. Essa pesquisa envolveu, claro, perceber quem foi aquela personagem. Aquela pessoa que existiu mesmo. Ir aos arquivos históricos, às bibliotecas todas e perceber um bocadinho isso. E também ver muita coisa histórica. Ver filmes – vou dizer filmes, porque séries não existem assim tantas. Também documentários, pedaços de história, fotografias, coisas na net, e tentar perceber o que era atual na altura.

Por exemplo, nós descobrimos que o “pá” ainda não existia, em 1937. E hoje já é uma coisa que nós achamos antiquada, e não existia. E é uma muleta fácil, que nos sai, e não podíamos usar. Tivemos ainda a sorte de ter o Moita Flores muitas vezes presente no set, a contar-nos histórias da altura. O realizador também a contar histórias, e a dizer-nos como as coisas aconteciam. Foi uma grande, grande ajuda.

Já pudeste ver algum episódio?

Não, não. Ainda não pude ver nada. Já tinha visto um teaser de 30 segundos. A maior promo que vi foi esta que passou agora aqui [no lançamento da nova grelha da RTP], e fiquei muito contente. Já sabia que a luz e tudo ia estar brilhante, a história e os atores também. Fogo, o Tomás [Alves] é um ator do caraças. Estou muito ansioso para ver isto!

Achas que as pessoas vão gostar também?

Vão, vão. De certeza! Vão porque falou-se aqui durante a apresentação de uma coisa muito importante, que é: a série conta essa história, e é uma história brilhante. Mas ao mesmo tempo também informa. Tens aqui pessoas que viveram épocas parecidas que vão se identificar, pessoas que não faziam ideia de como é que se vivia naquela época que vão descobrir. Todos nós agora, se eu te pedir um top 10 das tuas séries favoritas neste momento, metade delas são séries históricas. Hoje em dia temos muito isso. E portanto ver o que seria possível acontecer nessa altura é uma coisa muito curiosa. E ter esse lado aqui hoje, fico muito contente. Estou muito orgulhoso de fazer parte disto.

João Paulo Sousa
Fotografia: João Paulo Sousa / Instagram

Às vezes somos demasiado ambiciosos sobre o que vem a seguir

Tiveste o Golpe de Sorte, agora acabaste esta série, estás aí no Domingão

No Domingão, a fazer o Olhó Baião, na Cidade FM,… Está tudo a andar! Só espetáculos é que não. Tive 34 cancelados entre março e setembro.

Há alguma expectativa agora para as coisas voltarem a andar, no caso dos espetáculos?

Espetáculos não. Este ano eu acho muito difícil que aconteça. Até porque, tanto quanto depender de mim… felizmente eu não dependo só de espetáculos na minha vida, também faço muitas outras coisas. Já agora, tenho um filme no cinema. Chama-se Fábrica dos Sonhos, já que estamos aqui a promover coisas [risos]. Acabei de dobrar um filme.

Do que depender de mim, ou tenho a certeza de que as coisas ou vão acontecer em segurança ou não vão acontecer. Acho que toda a gente vai fazer isso. Tivemos aí recentemente um exemplo de um grande festival que decidiu arriscar e fazer. Eu prefiro não arriscar, honestamente. Prefiro fazer as coisas com cuidado, e a seu tempo as coisas hão de voltar, não sei se ao normal de antes, mas a um normal novo que se vai construir. Mas tem de ser feito com segurança, isto é uma regra básica.

Até porque este espetáculo tem muita interação, ou seja, toque, proximidade. Andávamos a fazer espetáculos de 20, 30, 40 e 50 mil pessoas, o que hoje em dia vai ser impossível. Portanto nem vale a pena estar com grandes expectativas sobre isso. É mesmo esperar para ver o que vai acontecer e desejar o melhor para todos, porque isso envolve toda a gente. Envolve o país e o mundo inteiro que queremos ver livres desta história da Covid. Mas é claro que também toda a gente que trabalha em artes, cultura e que faz espetáculos ao vivo precisa de trabalhar.

Além de tudo isto que está a acontecer, tens já projetos futuros, para os próximos meses, para o ano que vem?

Não, não. Essa é uma decisão da minha quarentena, e que é: vou preocupar-me muito com o que está a acontecer agora. O próximo programa vai ser o melhor. A melhor coisa que eu vou fazer é a seguir. Mas este agora tem que ser feito. E neste momento agora, como disse, tenho um privilégio, que é um privilégio do caraças, de estar a fazer televisão em direto, televisão com pessoas, televisão com espetáculos. Ao sábado e ao domingo, ao fim de semana, eu estou 12 horas em direto na televisão. E ainda tenho rádio todos os dias, de segunda a sexta. Estou com um filme no cinema. Pá, vou mesmo estar orgulhoso disto e estar a tentar levar isso até o fim.

Às vezes vivemos muito ambiciosos… Estou mesmo a ser honesto contigo, porque pensei muito sobre isso. Às vezes somos demasiado ambiciosos sobre o que vem a seguir. Se tu fizeres bem o teu trabalho, provavelmente é a melhor maneira de conseguires uma coisa boa a seguir. E eu estou muito a viver isso.

E na televisão tu também já deves ter percebido que neste momento há muita incerteza. Mais do que nunca. Sempre houve, mas há mais do que nunca uma incerteza porque cada vez mais esta – não gosto muito de me envolver nisso e não me envolvo diretamente, mas eu sei que existe – esta luta de audiências, que é uma coisa que é pública hoje em dia, sempre foi privada, mas hoje é pública… Isso também muda um bocadinho as regras do jogo. Acho que isso também introduz sempre mais imprevisibilidade. Tanto quanto eu puder guardar uma surpresa também, vou fazê-lo.

Sentes-te também um pouco pressionado por estes números?

Não. Felizmente, não. As audiências são um bónus. Por exemplo, o Domingão sabemos que é líder há 12 semanas consecutivas. É um bónus ótimo. Mas dificilmente alguma coisa vai superar aquilo que é a nossa coesão como equipa e a alegria que é fazer aquilo. Isso é o mais importante. Se as audiências forem boas, tanto melhor.

Domingão João Paulo Sousa, Débora Monteiro, João Baião, Diana Chaves
João Paulo Sousa ladeado por Débora Monteiro, João Baião e Diana Chaves no ‘Domingão’ | Fotografia: SIC
Sentes-te grato por essas equipas com quem tens trabalhado?

Epá, claro que sim. Já viste a sorte que eu tenho de estar a trabalhar com atores do caraças? Estar a fazer um programa com o João Baião, e no outro a substituí-lo, e ainda com a Diana Chaves, a Raquel Tavares e a Débora Monteiro? Tenho mesmo muita sorte. Acho que se calhar a quarentena ajudou-me a pensar nisso em retrospetiva. Já há alguns anos que tenho muita sorte e que dão-me muita liberdade para fazer o que eu quero e gosto. E tenho mesmo que me sentir grato por isso. Acho que, na minha idade, não há muita gente a poder ter tantas experiências diferentes.

Quando me perguntam aquele clássico do “gostas mais de rádio ou de televisão, ou de não sei o quê?”, claramente a melhor resposta e a mais verdadeira é dizer que eu gosto é de fazer essas coisas todas ao mesmo tempo, e ir por etapas. Agora vou dedicar-me mais a isto, ou a isto, sem nunca perder o foco naquilo em que estou a fazer todos os dias.

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