"Ne Change Rien", de Pedro Costa, foi um dos filmes do realizador exibidos no MotelX deste ano.
OPTEC/ Divulgação

‘Cavalo Dinheiro’ e ‘Ne Change Rien’ de Pedro Costa embelezam o MOTELX’20

Os filmes foram exibidos em dois dos oito dias do MOTELX.

Pedro Costa é um dos realizadores portugueses mais conceituados de sempre, sendo o responsável por obras como Vitalina Varela, Juventude em Marcha ou No Quarto de Vanda, tendo sido vencedor do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, no ano passado. O MOTELX decidiu, este ano, exibir dois filmes do cineasta, tendo sido escolhidos Cavalo Dinheiro e o documentário Ne Change Rien.

Cavalo Dinheiro (2014)

Cavalo Dinheiro é um dos filmes mais reconhecidos do cinema português, realizado pelo incontornável Pedro Costa. Parte documentário, parte ficção, a longa-metragem acompanha Ventura, um imigrante cabo-verdeano sediado em Portugal desde antes da Revolução, que embarca numa odisseia das suas próprias memórias, onde se encontra com fantasmas do seu passado.
Cavalo DInheiro
Os atores do filme são, na verdade, eles próprios – a história do Ventura da “vida real” é tal e qual como nos conta no filme: veio novo para Portugal, trabalhou na construção civil e viu o ramo em ruínas, com obras paradas e patrões corruptos. As cicatrizes no corpo e na cabeça não são maquilhagem ou efeitos especiais, reformou-se por invalidez quando a sua vida estava mesmo a começar, aos 20 anos, e a sua grande paixão, Zulmira, é a mesma no filme e na vida. Os “fantasmas” que vamos conhecendo do seu passado, como a emblemática Vitalina Varela, cuja história mereceu um filme por si só, são recorrentes. Os sobrinhos, os colegas e amigos surgem como aparições, em cenas que ocupam devidamente o seu tempo e espaço.
Pedro Costa estabeleceu-se enquanto um mestre apto para filmar a escuridão, e Cavalo Dinheiro é o exemplo perfeito disto. O alto contraste das cenas, o jogo de sombras e a posição da câmara conjugam-se harmoniosamente, atribuindo um misticismo e um toque fantástico a esta semi-biografia. As cenas com Vitalina Varela são dotadas de uma tensão canónica, elevada pela imagem e a sombra que cuidadosamente pousa sobre as faces da dupla.
A última cena do filme passa-se num elevador da instituição onde Ventura se encontra internado. Dentro do elevador, encontra-se com um soldadinho de brinquedo em ponto grande que zomba e puxa pela memória do velho desorientado, que a certo ponto exclama “está aqui um MFA a apontar-me uma arma“. Conhecemos os seus medos, as suas memórias, as suas rotinas e desvendam-se culpas do passado de uma maneira aterradora.
Cavalo Dinheiro pode parecer ficção pelo estilo narrativo insólito que Pedro Costa atribui às suas obras (Juventude em Marcha Vitalina Varela que, juntamente com este filme, formam uma trilogia, vêm reforçá-lo). A escuridão inerente a cada um dos planos desta obra colossal da cinematografia portuguesa vem denunciar o país igualmente obscuro, que vira a cara a quem tanto o ajudou quando mais precisam.

Ne Change Rien (2009)

“Tortura, tortura, amor estás a torturar-me, porque é que levas por aí e fazes-me perseguir-te?” canta Jeanne Balibar, ao fundo do primeiro plano do documentário a preto e branco de Pedro Costa. Ao longo do filme, a câmara aproxima o espectador da cantora, quase de forma invasiva, mas mantendo uma intimidade pouco vista em outras produções. Dá vontade de dizer que está apenas ao alcance de Pedro Costa.

A letra citada parece ser um diálogo aberto entre a cantora e o realizador, que a segue de perto, seja envolta em luz e escuridão, ou em planos baixos, como se nada mais de interessante existisse no mundo. E, ao longo do filme, parece não existir mesmo.

Teoricamente, Ne Change Rien é um documentário sobre a cantora e atriz francesa Jeanne Balibar, onde Costa nos leva numa jornada que vai desde uma visita aos ensaios até às gravações, dos seus concertos até a sótãos. Mas nada daqui é convencional. Não há entrevistas a pessoas do circulo de Balibar a dizerem o quão boa pessoa ela é, ou da própria a fazer reflexões sobre a sua carreira para a câmara. Não é que as práticas habituais do género documentário estejam erradas. Pedro Costa é que se move noutro campeonato.

O realizador comanda o género, inédito na sua carreira enquanto realizador, e torna-o seu, como se pertencesse ao universo de todos os seus outros trabalhos. Há planos estáticos de quase três minutos, a obsessão pelo contraste entre a sombra e a luz, uma edificação de uma personagem que é, mais uma vez, uma pessoa real. Jeanne Balibar podia ser o Ventura, a Vanda ou a Vitalina. A edificação da sua pessoa está lá, como esteve em Cavalo Dinheiro ou Vitalina Varela.

É um filme sobre a arte do trabalho, de tentar, falhar, recomeçar e repetir. Até que a voz doa. Balibar repete as mesmas notas, vezes sem conta, até à exasperação. Costa mantém-se bem presente atrás da câmara, apesar de esta se recusar a seguir a ação. Só vemos o que Pedro nos quer mostrar. O filme acaba e o espectador continua sem, à primeira vista, saber de onde veio Jeanne, quem ela é, ou o que faz, para além de cantar.

O realizador recusa-se a fazer este trabalho de casa, porque a narrativa, a existir, é sobre o canto e a arte performativa. É um retrato de uma cantora, enquanto artista, não se focando especialmente em Jeanne, apesar de esta ser o ponto central da nossa atenção. Enquanto a via a cantar e a tentar as notas, envolta nas sombras criadas por Pedro Costa, o espectador fica com a sensação de estar numa espécie de Purgatório, numa antecâmara para qualquer coisa. Novamente, num sítio onde o tempo não passa ou, como sugere o título, onde nada muda. Estamos só no nosso lugar, a ver Jeanne a navegar por canções e afinações, numa pérola de filme, bem ao estilo de Pedro Costa.

Texto de Diogo Silva e Kenia Sampaio Nunes.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
‘Harley Quinn’: série de animação tem terceira temporada confirmada