We Are Who We Are
Fotografia: HBO/Divulgação

Crítica. ‘We Are Who We Are’: A apoteose das emoções

O primeiro episódio da minissérie de Luca Guadagnino para a HBO estreia esta segunda-feira, dia 14. O EF viu os primeiros quatro episódios.

A primeira vez que vemos Fraser, o jovem de 14 anos está encostado a um balcão de perdidos e achados com um ar aborrecido e simultaneamente inquieto. A primeira vez que vemos Caitlin, a jovem de 14 anos está em pé numa sala de aula a ler poesia com um ar compenetrado apesar de mais tarde afirmar não entender de todo a arte poética. Por vezes, as apresentações não passam mesmo disso, simples apresentações. Contudo, em We Are Who We Are (ou WRWWR, para encurtar), as apresentações das personagens centrais são carregadas de significado e refletem diretamente a essência da série.

WRWWR é a primeira aventura de Luca Guadagnino pelo pequeno ecrã. O realizador aliou-se à HBO e à Sky para trazer à vida esta narrativa bem real de dois jovens que procuram o seu lugar no mundo. De acordo com a sinopse da HBO, é uma nova história de coming-of-agesobre dois adolescentes americanos que vivem numa base militar americana em Itália com os pais. A série explora temas típicos de dramas adolescentes, incluindo amizade, amor e confusão geral – só que neste pequeno pedaço da América em Itália”.

We Are Who We Are
Fotografia: HBO/Divulgação

O realizador de Call Me By Your Name (2017) e de Suspiria (2018) é agora showrunner, escritor, realizador e produtor executivo desta nova minissérie. Apesar de ser ele o criador, Paolo Giordano e Francesca Manieri juntam-se-lhe na tarefa de passar as ideias e visões para palavras. Dividida em oito capítulos – cada um deles uma parte do título “Right here, right now” -, a série estende-se dos 49 aos 75 minutos.

O Espalha-Factos viu os primeiros quatro episódios e traz-te um cheirinho deste universo único de Fraser e Caitlin.

“Porque é que lês poesia?” / “Cada palavra tem um significado.”

We Are Who We Are inicia devagar e devagar se mantém: tanto as imagens como as próprias personagens têm tempo e espaço para respirar. Guadagnino considera-se “naturalmente um voyeur”, referindo-se à palavra francesa como “o ato de olhar para as coisas”. Isto traduz-se naturalmente nos seus trabalhos no mundo do cinema e, também, agora no mundo da televisão. A câmara é posicionada de forma a que os acontecimentos transbordem realismo e emoção. O espectador sente que está com as personagens em Itália, a assistir na primeira pessoa às suas incertezas e descobertas.

We Are Who We Are
Fotografia: HBO/Divulgação

“Espero que o que eu faço seja como uma linguagem falada.” Este desejo do criador é outra das características centrais de WRWWR. A minissérie é, acima de tudo, poesia visual. Imagens e palavras, cores e sons, cada detalhe cuidadosamente pensado é uma sílaba nesta elaborada peça poética. O trabalho de direção de fotografia é excelente, os planos são bem pensados e executados, de forma a que tudo seja belo mas sem nunca deixar de ser autêntico. A banda sonora é outro elemento com grande peso, mais uma peça essencial ao puzzle.

A diversidade é natural nesta série, tanto pelo contexto espacial em que se insere como pela mensagem que transporta. As personagens são brancas e negras, cristãs e muçulmanas, americanas e europeias, heterossexuais e queer, militares e civis. Serem quem são não as define ou isola; é apenas isso mesmo, são quem são e isso é suficiente – mesmo que ainda estejam a descobrir exatamente quem essa pessoa poderá ser. A narrativa situa-se em Itália, mas poderia situar-se em qualquer outra parte do mundo: a intenção é ser abrangente, inclusiva e tornar possível que qualquer pessoa de qualquer país se identifique. Já a escolha temporal, o ano de 2016, é precisa e decisiva; afinal, o que importa é o “aqui e agora”.

“Acho que eles acham que somos estranhos.” / “Isso incomoda-te?”

Demora um pouco a entrar no universo de We Are Who We Are, isso é certo. A série tem um ritmo próprio, personagens complexas e algo conflituosas. Não se continua a ver por curiosidade de saber o que acontece a seguir. Continua-se porque se apaixona por este ambiente denso mas leve, duro mas sublime, desconhecido mas relacionável.

Fotografia: HBO/Divulgação

Fraser (Jack Dylan Grazer, It) é apelidado de tímido e introvertido, mas é acima de tudo um miúdo intenso e inconformado com o mundo. Mostra-se tanto seguro de si como permanentemente inquieto. Tanto ama as pessoas à sua volta como as odeia no instante seguinte, chegando a ser violento na expressão desses sentimentos.

Sarah (Chloë Sevigny, American Psycho, Zodiac, American Horror Story) e Maggie (Alice Braga, Cidade de Deus, I Am Legend, Queen of the South) mudam-se para Itália para a primeira poder aceitar o novo cargo de comandante da base militar. Fraser ressente-as, dizendo que tinha a “vida perfeita em Nova Iorque”, mesmo que não reconhecesse o que tinha até o perder. As relações entre os três são complicadas e ambíguas, alterando-se o ambiente de minuto para minuto.

No primeiro dia na base, Fraser vagueia pelos espaços, olhando sem parecer ver grande coisa, imerso na música que ouve 24/7 e nos próprios pensamentos. Ao entrar na escola secundária, ouve uma jovem a recitar poesia numa sala de aula e fica hipnotizado, seguindo-a ao longo do dia.

Fotografia: HBO/Divulgação

Caitlin (Jordan Kristine Seamón) é filha de Jenny (Faith Alabi) e Richard (Kid Cudi), irmã de Danny (Spence Moore II) e namorada de Sam (Benjamin L. Taylor II). As suas relações familiares são igualmente ambíguas e tóxicas – o irmão é até violento e abusivo. O grupo de amigos que ambos integram é incerto e vai-se desintegrando ao longo da série.

As escolhas a nível de estrutura são outro dos aspetos mais interessantes. A ideia parece ser a de dar oportunidade a todas as personagens para terem o seu ponto de vista apresentado, num verdadeiro processo de democratização expositiva. O primeiro episódio é apresentado da perspetiva de Fraiser, mas o segundo repete os acontecimentos da perspetiva de Caitlin, tornando a história conjunta mais rica e completa. “Right here, right now III” conjuga as visões dos pais às dos filhos, abrindo terreno para novas linhas de narração. Já o quarto episódio é contado de um ângulo mais heterogéneo, ou até o de uma terceira pessoa – o próprio espectador, quiçá.

“Surpresa. Eu existo fora da tua mente.”

A minissérie de Guadagnino é uma história de procura e de descoberta. Cada personagem está numa demanda interna, buscando nos cantos ainda desconhecidos de si os traços que fazem de si quem é. Cada personagem está paralelamente numa demanda externa, testando quem são as pessoas com quem pode contar e como pode contar. A cada minuto que passamos com elas, vamos encontrando mais uma peça do puzzle; pecinha a pecinha e talvez, ao fim dos oito episódios, tenhamos desvendado o que lhes habita na mente.

A definição da identidade própria afigura-se como uma das temáticas centrais de WRWWR. Tanto a orientação sexual dos dois adolescentes como a identidade de género de Caitlin são desconhecidas ainda para o espectador e, porventura, para os próprios também. Contudo, têm todo o tempo do mundo para explorarem as possibilidades que o “aqui e agora” e o futuro lhes oferecem.

Fraiser e Caitlin são pouco maduros e surpreendentemente evoluídos ao mesmo tempo – uma dicotomia paradoxal que, aliás, se manifesta por diversas vezes em WRWWR. Têm 14 anos e, no entanto, questionam quem são e o que os rodeia de um jeito que muita gente não chega a fazer a vida inteira. Têm opiniões sobre “fast fashion” e “fast feelings”, política e arte. Mas são capazes de fazer birras desnecessárias e magoar outros quando deviam compreender e seguir em frente.

A base inteira parece viver dividida entre os extremos opostos de disciplina militar e de liberdade estonteante. Isto é particularmente notável nos jovens, principalmente no quarto episódio, que corresponde a um clímax metafórico carregado de subtextos ora reflexivos ora poéticos. As próprias decisões visuais são distintas, alternando entre câmaras lentas e sequências quase frenéticas.

No fundo, estas são personagens reais a habitar num mundo real e complexo, movidas por emoções fortes e impulsos que nem elas próprias compreendem. WRWWR é uma série com cheiro a verão e a nostalgia, bem da forma única que apenas Guadagnino sabe fazer. É uma produção deliciosa para os sentidos e frutífera para a mente, construída com uma atenção aos detalhes quase obsessiva.  Não é uma série televisiva que vá mover massas – aliás, enquadra-se melhor nas tipologias visuais independentes. É poesia para ser interpretada sem julgamentos e apreciada livremente.

We Are Who We Are é um retrato de um grupo de pessoas que são quem são, aqui e agora. A partir desta segunda-feira (14 de setembro), quem desejar pode ir à HBO e iniciar o processo de as conhecer – aventura que só termina a 2 de novembro. Certamente ninguém se vai arrepender.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
michael chapman
Faleceu Michael Chapman, diretor de fotografia de ‘Taxi Driver’ e ‘Raging Bull’