MOTELX ’20
Shudder/ Divulgação

MOTELX ’20: a pandemia tomou conta do quarto dia

'Host' e 'Epidemic' foram destaques do quarto dia do Festival.

Os tempos que vivemos são definitivamente surreais, dada a pandemia da Covid-19 que se instalou no já longínquo  mês de março e que veio para ficar. Desde então, tem surgido a tendência para irmos buscar ao entretenimento, mais especificamente nos filmes, histórias que se assemelhem à atual crise sanitária global e a esta situação de confinamento obrigatório. O MOTELX ’20 tentou isso mesmo, no seu quarto dia (10), oferecendo aos espectadores dois filmes que se aproximam do cenário pandémico atual.

Epidemic (1987) – 6.5

O primeiro a ser exibido foi Epidemic, realizado pelo consagrado, mas sempre polémico Lars Von Trier, lançado originalmente em 1987. O filme dá-nos a conhecer um realizador e um argumentista que, depois de estarem ano e meio a escrever um argumento para uma nova produção, perdem todo o trabalho que tinham até à data, dispondo agora de apenas cinco dias para arranjarem um novo enredo, a ser entregue ao produtor. Decidem, então, escrever um filme de terror onde uma epidemia se espalha pelo mundo inteiro, não havendo qualquer tipo de cura.

É uma história meta, dado que estamos a assistir a um filme acerca da feitura de um outro filme, mas esta não é a única situação em que Von Trier brinca com o espectador, trocando-lhe as voltas. Para além disto, a verdade é que, ao mesmo tempo que a equipa de argumentistas cria uma pandemia ficcional, uma bem mais real começa a instalar-se no mundo, sem eles saberem. A verdadeira irá desenvolver-se definitivamente no último dia que a dupla tem para entregar o enredo ao produtor.

O cineasta não se fica por aqui: o próprio Von Trier faz parte do elenco, interpretando o papel do argumentista do filme que está a ser escrito, assumindo a personagem em nome próprio. A história que o realizador e o argumentista estão a criar prende-se com a já citada pandemia ficcional que assola o mundo, envolvendo um médico, Dr. Mesmer que, ignorando as precauções montadas, decide andar pelas cidades arrasadas pela doença, acreditando que vai encontrar uma vacina.

A partir daqui o filme divide-se em dois caminhos: por um lado temos as conversas em torno da criação do enredo, em que Lars aproveita para fazer uma paródia de si próprio, sobre as pressões de escrever um argumento e o lado criativo da sua profissão. Nota-se que é um filme em que o realizador ainda está a experimentar temas que vão habitar as suas futuras criações, como a queda da Europa enquanto civilização, questões de fé, e a hipnose, presente também em obras como Europa e O Elemento do Crime. Filmada em 16mm, esta secção funciona quase como registo jornalístico do processo criativo dos artistas que têm apenas 5 dias para ter qualquer tipo de obra pronta.

A outra secção do filme aparece a espaços, entre cortada com a realidade, e é uma representação visual do argumento escrito pela dupla criativa. Filmadas em 35mm, vemos a personagem de Dr. Mesmer a vaguear pelas cidades, à procura da cura, e todas as cenas são impressionantes do ponto de vista técnico, ainda para mais tendo em conta o baixo orçamento do filme, que não impediu Lars Von Trier de criar pura poesia neste outro lado de Epidemic.

O resultado final não é coeso, existindo muitas conversas no campo da realidade que pouco parecem acrescentar à história principal, apesar de serem interessantes por si só, salientando-se a aparição do ator Udor Kier para contar uma história da sua infância, remontada aos tempos da II Guerra Mundial. Os últimos minutos do filme são Lars Von Trier em estado puro, a envolver uma das suas futuras obsessões temáticas, a hipnose em torno de uma mulher, num climax literalmente barulhento e aterrador, que tira o tapete ao espectador. Revelar mais seria estragar a surpresa do que o cineasta tem preparado para a audiência, mas acaba por sobressair numa obra que, não sendo das melhores da sua carreira, continua a ser interessante ao ponto de ser (re)visitada.

Host (2020) – 5.5

Quando a quarentena foi imposta, muitos de nós passámos a ter aulas em casa ou fomos obrigados a seguir o regime do tele-trabalho, passando a ter de utilizar (ainda) mais ferramentas de comunicação à distância como o Zoom, o Skype ou o Discord. Falando agora um pouco de Hosto filme realizado por Rob Savage foi inteiramente filmado durante a pandemia, de forma remota. A história é bastante simples: seis amigos juntam-se numa chamada por Zoom para fazerem uma invocação de espíritos, reunião esta que é liderada por Seylan (Seylan Baxter), a espiritualista irlandesa de serviço.

O que distingue Host de outras obras do género, inteiramente passadas em salas de conversas em redes sociais, como Unfriended e sequela, é o facto de terem sido os próprios artistas a ter de montar as próprias câmaras, luzes e outros pormenores técnicos. A ponte feita com a realidade dos nossos dias também ajuda a que o espectador se interesse com o que se passa no grande ecrã, há personagens a usar máscaras, a lamentarem o facto de estarem fartas de estar em casa, falhas de conexão de internet ou queixas da dificuldade em manter-se os membros mais velhos da família por casa, durante a quarentena.

Outra mudança curiosa e que coloca Host num patamar superior é o facto de ter apenas 57 minutos de duração, não perdendo tempo em passar à ação. Apesar das personagens não estarem desenvolvidas, ao menos parecem ser pessoas reais ou, pelo menos, possuem problemas parecidos aos nossos. Mas cedo, e previsivelmente, as coisas começam a correr mal quando uma entidade demoníaca vai correndo as casas de cada membro da chamada, e já sabemos como é que as coisas vão acabar.

Savage não doseia bem o suspense da trama, usando e abusando de jump scares, câmaras apontadas para corredores escuros,  temos uma das raparigas da chamada a subir a um sótão sem lanterna, cadeiras que voam, chamadas que vão abaixo, tudo isto de forma repetitiva até chegarmos a um fim sangrento e pouco esperançoso. Há momentos de riso, uns mais voluntários que outros, mas acrescentam alguma leveza e realismo a uma obra vergada pela previsibilidade do argumento. O filme é tenso, mas nota-se que há toda uma gimmick montada para tentar manter o espectador preso ao ecrã.

Mesmo assim, é melhor que Unfriended porque reconhece, de frente, as nossas circunstâncias atuais, sendo um dos primeiros produtos de Hollywood a fazer isto mesmo, e é mais curto, roubando menos tempo a quem o vê. Sendo um filme inteiramente passado à frente de um ecrã, Host entretém e faz mais do que o esperado, premiando-se aqui o trabalho dos atores em plena pandemia. Não é sofisticado, mas mostra que podem existir bons produtos a serem feitos de forma remota.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Simone de Oliveira
Simone de Oliveira regressa às novelas da SIC 20 anos depois