Marco Horácio no Você na TV

Opinião. Blackface: uma viagem ao passado num canal que acredita no futuro

O Você na TV! desta quarta-feira (9) tem sido alvo de críticas depois de duas caras da estação terem tido atitudes racistas. Nas redes sociais, o apresentador Marco Horácio e a comentadora Cinha Jardim foram chamados à atenção pelos seus comportamentos. O humorista apareceu no programa a fazer blackface.

O mundo continua de olhos postos nos Estados Unidos. Em ano de eleições presidenciais, o país vê uma revolta popular a acontecer. Uma revolta de dor onde se gritam nomes de pessoas Negras mortas por quem as deve proteger. Uma revolta onde se relembram os tempos da leis de Jim Crow e do blackface.

Esta quarta-feira (9), as luzes da ribalta voltaram-se para a TVI. Depois de também se marchar contra a brutalidade policial, a supremacia branca e o racismo em Portugal, o outrora canal preferido dos portugueses deixa uma surpresa aos telespectadores. Mas não é a primeira vez que o país se vê envolvido numa situação do género. Em 2014, o tema foi assunto de conversas de café, artigos de jornais e provavelmente capa de alguma publicação quando os Gato Fedorento protagonizaram um anúncio de Natal da MEO em blackface. Mesmo que o tempo passe, os erros persistem nos media portugueses.

O primeiro erro do Você na TV!

Esta quarta-feira (9), o programa da manhã da TVI errou. Não uma, mas duas vezes. Dá a ilusão de que a TVI não aprende com os erros e aos poucos vai batendo o próprio recorde de “o que podemos fazer de mal para entreter os portugueses hoje?”.

A brincar ou não, e acreditando que não tenha havido intenções de serem ofensivos, Marco Horácio e a equipa responsável pelo Você na TV! estiveram mal, porque não pensaram. O humorista conhecido dos portugueses entrou em estúdio a dançar com um tom de pele que apelidou de “bronze à Algarve” e uma peruca afro. O apresentador do programa de final de tarde da TVI já respondeu a algumas das críticas que tem recebido, quer na página oficial do canal, quer no seu Instagram pessoal. “Em 2020 ainda há quem seja fundamentalista e não tenha sentido de humor”, respondeu o comediante a uma mensagem privada, publicada no instagram.

 

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A minha cor e o meu cabelo não são adereços! Eu acredito que o humor pode tudo! O humor não tem limites mas a falta de respeito tem de ter. E isto é uma falta de respeito não é fundamentalismo! Utilizar traços físicos de uma etnia para fazer rir não é humor. É uma atitude racista! (Sim, eu escrevi a palavra) O Marco Horácio é racista? Não! O Marco Horácio teve uma atitude racista. Portugal é um país racista? Não! Mas em PT existem pessoas que têm atitudes racistas. Estamos TODOS a aprender e eu acredito que ainda vamos a tempo! O cantor da música La Bomba (Alan Duffy) é careca. Então PARA QUÊ A PERUCA? Sem contar que no videoclip ele aparece com um chapéu na cabeça. O Alan Duffy é da Argentina… e a melhor representação de um homem argentino que encontraram foi esta? @tvioficial Será que num filme sobre a vida da Amália Rodrigues eu posso ser a atriz principal? Eu não percebo! Eu sinto que tudo na minha cultura tem de estar envolvido em polémica e isso deixa-me triste. Eu não vou lutar nem vou gritar. Não vou protestar nem vou exigir um pedido de desculpas… Mas pergunto: quando é que foi a última vez que viram um africano a ser normalizado. Um africano que não fale da sua dor e da sua luta… Só nos conhecem a fazer confusão, a sermos pobres ou mortos. Africano bom é aquele que entretém e serve de entretenimento. Por favor normalizem a nossa existência… Errar é humano e aprender com os nossos erros e com os erros dos outros também

Uma publicação partilhada por Carmen Ferry (@carmen.ferry) a 9 de Set, 2020 às 11:45 PDT

Num tom “inofensivo e divertido”, tal como refere o humorista, “porque o humor também vive de uma boa caracterização”, o programa das manhãs decidiu voltar atrás no tempo. Algo que já tinha acontecido com um programa líder de audiências na TVI: A Tua Cara Não Me É Estranha. Infelizmente, não nos referimos a uma mostra cultural com produtos do passado. Falamos de blackface, um termo conhecido por muitos mas que parece ser desconhecido por outros.

Uma normalização do preconceito

Em 2020, ano em que nas ruas se canta “No Justice, No Peace” (Não há Justiça, Não há Paz), atitudes racistas não podem ser toleradas. Principalmente em terra lusitana, que muito tempo teve para aprender a deixar tal coisa de lado. Pelo contrário, elas vagueiam pelas ruas e estúdios de televisão mascaradas de humor e justificadas por frases como “é só uma brincadeira”.

Até pode ser uma brincadeira, mas de intenções a resultados há um longo caminho a percorrer. Talvez a TVI não tenha pensado corretamente ou analisado a situação, mas numa televisão que se preza pela inovação, não pode haver desculpas para este tipo de erros. Principalmente quando ocorrem mais do que uma vez e se é veementemente criticada por isso. Retira-se, dessa forma, a carta da ignorância e falta de conhecimento de cima da mesa, porque supõe-se que uma equipa de televisão seja bem instruída e saiba distinguir o que está certo do errado.

Posto isto, não há na verdade uma razão que justifique tal comportamento. Podia Marco Horácio ter dançado, em conjunto com os colegas, vestido com as suas roupas e sem se apropriar de uma cor de pele que não a dele? Sim. Então não há desculpa. Não havia claramente a necessidade de ridicularizar uma comunidade mesmo que essas não tenham sido as intenções. O humor deveria servir como forma de apoiar as lutas contra o que está errado. Ao invés, assistimos a uma constante celebração e normalização do preconceito.

O quarto canal da grelha continua a acreditar que pessoas não negras pintarem a cara e o corpo de forma a caricaturar uma pessoa Negra é uma forma de entretenimento para o seu público branco. Em tempos foi, mas para uma estação que se situa no futuro e acredita que “está nas nossas vidas”, o passado fica lá atrás.

Mas não é só a TVI que peca. A comunidade artística portuguesa teve e continua a ter um papel na perpetuação de estereótipos em relação a pessoas Negras. Porém, tal como na TVI “é entretenimento!”, no teatro “é arte!”. Recorde-se outro caso de 2014, quando, no Politeama, Marina Mota se apresentou com blackface e sotaque negro para fazer rir. Não há atores negros de comédia em Portugal? Claro que há. Então, porque não contratá-los?

No meio de tudo isto há uma questão que precisa de ser respondida, principalmente numa altura em que ódio se propaga pelo mundo. Porque é que o blackface é ofensivo e considerado racista?

O que é Blackface e porque é ofensivo?

Não é fácil falar de blackface nem explicar o que é. Pelo contrário, o assunto é deveras complexo e sensível. Em países como Portugal, com histórico de racismo, iniciar conversas sobre o tema torna-se ainda mais difícil, pois minorias serem usadas como forma de entretenimento é algo recorrente.

Blackface é mau. Essa poderia ser a única justificação para explicar um palavra que carrega em si uma história de dor e horror. Uma história que muitos não tiveram a oportunidade de contar, porque não lhes foi permitido. O tal “mas é só pintar a cara de preto” é o ridicularizar de uma comunidade que ainda hoje luta por igualdade. Saliente-se o “ainda hoje luta por igualdade”. Acredite-se ou não, é essa a verdade.

O fenómeno nasceu para oprimir as pessoas Negras, na altura, muitas delas escravas. O blackface era usado por pessoas brancas em espetáculos para entreter outras pessoas brancas e assim mostrar o quão inferiores eram negros e asiáticos. Assim, “os seres inferiores” eram apresentados como violentos, pobres, sem educação e todo um conjunto de adjetivos menos bons.

Para sermos mais específicos, o blackface surge algures entre 1830 e o período do pós-guerra civil nos EUA. Época em que pessoas Negras não eram autorizadas a subir a palcos e atuar ou comparecer em salas de teatro para assistir a espetáculos. Devido a isto eram poucos os atores negros que recebiam papéis de destaque ou conseguiam ter uma carreira de sucesso. Algo que só muda a partir de meados do século XX e inícios do século XXI.

Capa do Jump Jim Crow, interpretado por Thomas D. Rice
Capa do Jump Jim Crow, interpretado por Thomas D. Rice

É com a criação do blackface que surge a personagem Jim Crow. Interpretada por Thomas Dartmouth Rice, conhecido como o Pai do Minstresly, Jim Crow tornou-se numa das mais populares personagens de blackface.

Ao longo dos tempos, o blackface foi sendo removido da indústria do entretenimento e passou a ser considerado vergonhoso e lamentável. Ele é ofensivo porque cria e normaliza preconceitos para o entretenimento de uns, enquanto outros lutavam pelos seus direitos civis após anos de sofrimento e escravidão. Por essa razão, é considerado um ato racista. É desumano e estupidifica algo que não é estúpido. Blackface é racista porque pessoas Negras assim o entendem. Porque magoa. Não está no papel de não negros ditar o que é ou deixa de ser um comentário ou atitude racista.

O segundo erro do Você na TV!

No mesmo programa, minutos depois da situação referida acima, Cinha Jardim enterra-se. “Oh Cinha não te enterres mais”, referia Manuel Luís Goucha.

Ao analisar um vídeo de Quaresma, recém-chegado ao Vitória de Guimarães, a socialite proclamou: “gosto muito dele, mesmo sendo da raça cigana”. Depois de tal afirmação, Cinha lá se tentou justificar, afirmando que não fez o comentário de forma pejorativa, mas só foi piorando a situação. “Ele é muito raçudo”.

Para apaziguar os ânimos e prevendo que as críticas iriam chegar, Manuel Luís Goucha apressou-se a dizer que “é a prova de que há elementos belíssimos em todas as comunidades”, reforçando de seguida que também há “pessoas na nossa [comunidade branca] que não prestam para nada”.

Tal como o canal em que se encontra, parece que a comentadora de assuntos sociais não aprendeu a lição depois de ser várias vezes criticada pelos comentários que faz acerca das minorias. Recorde-se que Cinha Jardim também tem recebido críticas nas redes sociais por ter participado num comício do partido de André Ventura.

Além disso, Manuel Luís Goucha, o anfitrião de Você na TV! recentemente defendeu Olavo Bilac por atuar num comício do partido de extrema-direita e chegou a receber no programa, no ano passado, o criminoso Mário Machado. Suzana Garcia, comentadora conhecida pelas suas posições xenófobas e racistas, esteve no Você na TV! durante dois anos, deixando agora o programa por motivos não relacionados.

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