Hunted
Charades/ Divulgação

MOTELX ’20. ‘Hunted’ é uma das pérolas do festival

É a primeira longa-metragem a solo de Vincent Paronnaud.

Foi ao terceiro dia (9) do MotelX que o público foi brindado com Huntedo primeiro grande filme do Festival, realizado por Vincent Paronnaud, o co-criador de Persepólis, nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Animação, em 2008. Esta é a primeira longa-metragem do cineasta francês e é uma produção francesa, belga e irlandesa.

À primeira vista, se lermos a sinopse do filme, pode transparecer que estamos perante mais uma história de sobrevivência e vingança entre a chamada “presa” e o “caçador”. Os elementos estão todos lá: Eve (Lucie Debay) conhece um homem (Christian Bronchart) num bar e saem os dois para o carro deste, afim de passarem a noite juntos. Mas cedo se apercebe que se cruzou, na verdade, com um psicopata, que quer gravar Eve a ser violada pelo cúmplice (Ciaran O’Brien). A partir daqui, inicia-se uma jornada sangrenta e mortal com a personagem feminina a tentar fugir dos seus “caçadores”, com uma floresta como pano de fundo.

Lucie Debay é a protagonista do filme e brilha no papel de Eve.
Charades/Divulgação

Aviso: O seguinte texto contém spoilers do filme Hunted.

Lendo o parágrafo anterior, parece que já vimos este filme contado de várias formas e feitios, tendo em conta que se trata, na sua base, de uma história tradicional de perseguição do “gato e do rato”. Mas Hunted é muito mais do que isso, misturando elementos de fantasia, cenas gore e, sendo este o ponto brilhante do argumento co-escrito pelo próprio Vincent e Léa Pernollet, uma (verdadeira) defesa do feminismo e uma critica aguda à masculinidade tóxica.

Pegando na tal fantasia inserida nos 87 minutos da produção, a primeira cena de Hunted serve de construção à mitologia que polvilha as decisões narrativas que Vincent toma. Nela, somos apresentados a uma mãe e filho, sentados num banco na floresta, à beira de uma fogueira, em que esta conta uma lenda, traduzida para o grande ecrã em forma de animação.

A fábula dá-nos a conhecer um evento passado naquela mesma floresta, há muitos anos atrás, de um padre que queria abusar e matar uma mulher, só para esta servir de alimento a ele e ao resto dos homens. Numa mudança imprevista de acontecimentos, a mulher é ajudada pela floresta, que ganha vida e consciência, protegendo-a das mãos do padre. Na lenda, os lobos ganham um papel central, ao morderem o padre e, quando perguntada pelo filho se tais criaturas ainda existem na floresta, a mãe responde-lhe qualquer coisa como: “Lobos não, mas homens sim.”

Esta frase resume bem o tom que Paronnaud quer para Hunted. Da floresta passamos para a cidade, e encontramos-nos na companhia de Eve, que é gerente de uma empresa. A personagem está ao telefone com o chefe da empresa onde é gerente, e está a ser pressionada para fechar um negócio. Até aqui tudo normal, não fosse o caso de o patrão perguntar a Eve se esta consegue mesmo realizar a operação e, não conseguindo, já existia um homem pronto a substitui-la. A protagonista é criticada por não conseguir fazer pressão suficiente sobre o cliente, unicamente por ser mulher.

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Logo de inicio percebemos que Eve não vai ter vida fácil. As críticas à misoginia começam a partir daqui, na medida em que a mulher é vista como o sexo fraco, incapaz de tomar grandes decisões ou, no caso concreto, mais sujeita a ceder à pressão. De forma a descansar um pouco a cabeça, Eve decide ir a um bar tomar um copo, e é logo alvo de assédio por parte de um homem ao balcão. Este pergunta-lhe, primeiro, se não quer tomar uma bebida com ele ou passar a noite fora e, não tendo recebido resposta afirmativa, parte de imediato para o insulto.

Não é que a cena vá importar demasiado para o desenvolvimento central do filme, mas é um dos pontos que Vincent quer salientar e que sobressai. Tudo isto se prende com algo que acontece de muito real e que tem sido cada vez mais denunciado: homens que, achando uma mulher bonita, convidam-na para sair e estas, recusando o convite, passam a ser alvo de insultos, sendo rebaixadas por simplesmente não quererem sair com tal companhia.

A facilidade com que o sexo masculino usa termos como “cabra” para apelidar uma rapariga, quando a situação não lhes é favorável, é algo de espantoso, pela negativa. É sintoma dessa mesma masculinidade tóxica e da misoginia, ainda muito presente na nossa sociedade, em que os homens não conseguem ver a mulher como alguém igual, sendo apenas um objeto descartável, caso não esteja apta aos usos maliciosos que  têm em perspetiva.

De repente, aparece outro homem que, vendo a situação tensa a decorrer, sai em socorro de Eve, colocando um ponto final em algo que podia rapidamente escalar para a violência. Este novo elemento, interpretado por Arieh Worthalter, parece à primeira vista inofensivo, trazendo consigo um charme natural que faz com que Eve aceite ir para o seu carro. Ao fundo do bar, há outro homem a olhar fixamente para Eve e a sua nova companhia, e este diz-lhe que é o seu irmão. Depois de uns beijos trocados no carro, a narrativa muda drasticamente de tom.

Eve descobre que a personagem interpretada por Worthalter é um psicopata, que gosta de gravar mulheres a serem violadas, e que o outro homem afinal não é seu irmão, mas sim um cúmplice num plano que envolve raptá-la tendo em vista fazerem algo de terrível com ela. Estando presa no banco de trás, Eve é incapaz de fugir, ficando nas mãos dos seus raptores que parecem não ter uma relação muito saudável. Hunted, a partir daqui, não perde fulgor, e o espectador fica agarrado ao seu lugar, com interesse em saber como é que acaba esta história.

Eve e os seus raptores a saírem da loja de conveniência.
Charades/ Divulgação

Pelo meio há ainda uma fuga de Eve para uma loja de conveniência, mas é rapidamente apanhada pelo seu raptor que toma medidas extremas, encarcerando a jovem no porta-bagagens do carro. E é aqui que entra o elemento mais fantasioso da narrativa, claramente ligado à lenda que a mulher do inicio do filme contou ao filho. Ainda na cena inicial, em que somos apresentados a Eve, à frente do seu carro está um cão a olhar fixamente para esta, de forma relativamente sinistra.

Cada plano no filme importa, tendo uma especial relevância para as ideias montadas por Paronnaud e a atenção dada ao cão não vem por acaso. Enquanto Eve vai de viagem, presa no porta-bagagens do carro dos seus raptores, uma cabra põe-se à frente do caminho, parecendo ser propositadamente, fazendo com que o veículo tenha um acidente e Eve consiga fugir, com vida. Tal como na lenda, a Natureza tem aqui consciência, assumindo a forma de vários animais que acompanham Eve na fuga, protegendo-a e sinalizando o caminho mais seguro para que a protagonista consiga sobreviver, funcionando, acima de tudo, como sua aliada.

Quando o carro capota, Eve, como referido, consegue fugir para a floresta e o vilão do filme, juntamente com o parceiro Andy (Ciaran O’Brien), juntam-se numa perseguição para poderem terminar o plano que tinham em mente: filmá-la a ser violada e matá-la, dado que ela viu a cara dos dois homens.

O filme traz consigo elementos que se distanciam das outras produções do género, jogando muito a seu favor. No recente (e tão necessitado) movimento #MeToo, vários são os filmes que tentam trazer a mulher para primeiro plano, em histórias em que o elemento feminino se vinga do homem, saindo por cima. Mas, em muitos dos casos, a mulher só toma este caminho porque é violada, existindo uma exploração gratuita de violência contra o género feminino antes de este finalmente se empoderar.

O cineasta francês não caiu na tentação de criar um arco narrativo tradicional em que Eve é, de início, uma mulher frágil, acabando como a heroína do filme, depois de perder tudo e todos. A protagonista é, desde cedo, uma mulher forte, inteligente, com capacidade para racicionar técnicas de fuga e sobrevivência, não se esquivando de usar os seus instintos mais primários enquanto humana. Tudo sem nunca existir algum ponto no filme em que é violada.

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E é assim que tem de ser. A mulher não precisa de nenhuma tragédia na sua vida para se tornar numa guerreira. Já o é por si só e Hunter acerta brilhantemente nesta nota. A mulher tem, por natureza, todas as razões para se virar contra algum homem violento sem ter de esperar para ser violada primeiro. Este é um pensamento simples de se pôr em cima da mesa, mas há muitas produções de Hollywood a fazerem disto tábua rasa.
Por outro lado, o vilão interpretado por Worthalter é uma personificação da figura do ‘lobo’. Aliás, é fácil depreender que estamos aqui perante uma reinterpretação do conto francês Capuchinho Vermelho, dado que Eve passa o tempo todo com um casaco vermelho, uma coincidência demasiado evidente para ser afastada.

Mas, se no conto o lobo é visto como algo mau, em Hunted, o homem é que é personificado como o lobo, um verdadeiro animal que tenta caçar a mulher, agredindo-a sexualmente, seja por atos fisicos ou palavras. Não evito concluir que há certos homens ainda mais primitivos que os lobos. E a escolha da Natureza para ser a ajuda de Eve não é inocente, demonstrando que a masculinidade tóxica não pertence à ordem natural do mundo, devendo ser erradicada. Aliás, a escolha do nome da protagonista também ajuda a mitologia, dado que a figura de Eva na religião cedo foi ostracizada por trazer o pecado ao ‘paraíso’. Se a história de Adão e Eva é tão antiga quanto a existência do mundo, a misoginia também o é.

No que toca à cinematografia, esta tem momentos que fazem com que Hunter se distancie de outros filmes do género. Existe uma cena, em especifico, muito bem construida, em que temos o vilão da história a comer uma barra de chocolate e a deitar o papel casualmente para o rio. A câmara segue o objeto atirado, a flutuar na água, até que vai dar a Eve. Para além de ser uma cena especialmente bem construida, chega a arrepiar o espectador por percebermos que a heroína da história está, sem saber, a aproximar-se dos raptores. A floresta oferece a oportunidade ao realizador francês de exibir um cenário a roçar o mistico, com cores vibrantes, dando naturalidade ao produto final.

O terceiro ato do filme é explosivo, pondo pontos de exclamação na luta contra a misoginia, há brincadeiras com o tempo, onde vemos eventos a acontecerem de diferentes perspectivas e uma ligação surpreendente com as duas personagens da primeira cena de Hunted e revelar mais seria estragar as surpresas. Hunted estabelece-se como um dos grandes filmes deste ano do MotelX’20 e o público gostou tanto que aplaudiu no fim.

Hunted
Hunted
8.5

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