Sanzaru foi um dos pontos altos do segundo dia do MotelX.
IWW Media / Divugação

MOTELX ’20: ‘Sanzaru’ é um complexo drama familiar à boleia do terror

O segundo dia(8) do MOTELX recebeu Sanzaru, filme norte-americano realizado por Xia Magnus e que segue a história de Evelyn (Aind Dumlao), uma jovem enfermeira filipina que vive numa casa isolada, no Texas, enquanto toma conta de Dena (Jayne Taini), que sofre com o surgimento de sinais de demência progressiva. À medida que o seu estado piora, Evelyn começa também a pressentir que algo assustador paira sobre a casa.

A palavra Sanzaru, em japonês, traduz-se na figura dos três macacos míticos que não ouvem o mal, não falam com o mal e não vêem o mal, respectivamente. Ou seja, estamos aqui perante três identidades que ignoram uma espécie de verdade indesejada e este tema repercute-se na base que dá corpo ao argumento do filme. Junto a isto, temos uma produção que está povoada de personagens que tentam esconder as angústias que carregam durante toda a vida.

O filme serve de cruzamento a duas famílias muito distintas, mas unidas no que toca a tragédias, sendo o elo de ligação mais físico a casa que alberga as principais personagens da história. De um lado temos a já referida Evelyn e o familiar Amos (Jon Viktor Corpuz), que vive na casa porque a sua mãe desistiu de o tentar educar, depois de Amos ser suspenso da escola por ter sido, presumivelmente, excessivamente violento numa aula de boxe.

Evelyn é uma rapariga humilde e boa por natureza, pois cuida, de forma exemplar, de Dena, enquanto a matriarca da família do Texas luta contra a demência. Várias são as vezes em que Evelyn acorda a meio da noite e ouve Dena a falar com alguém, para além de ocorrerem inúmeros acontecimentos inexplicáveis a envolver, por exemplo, o intercomunicador da casa. Isto tem consequências efectivas na condição psicológica da cuidadora, que começa a interrogar-se se não está, ela própria, também a imaginar e a ver coisas que não existem.

A outra família é composta por Dena e pelo filho Clem Regan (Justin Arnold), um veterano de guerra que luta contra stress pós-traumático. Clem vive numa caravana junto à casa e conhecemos a sua história aos poucos, dado que este nunca recusa ajudar Evelyn a tentar desvendar o que está a acontecer em casa. Daqui, resulta um romance entre as duas personagens que, acrescentando pouco à história, é sincero na medida em que percebemos que Clem e Evelyn são duas pessoas solitárias e necessitadas de companhia.

Clem é o espelho do tema central do filme, dado que podemos vê-lo, numa cena, a infligir dor em si próprio, para além de usar aparelho auditivo, sendo estas duas pistas do passado terrível que Clem esconde, confirmado pela relevação, perto do fim da trama, de que a sua infância não foi nada fácil.

Aind Dumlao é uma agradável surpresa, sendo que a atriz consegue fazer com que o espectador se preocupe com o destino da personagem. Aind traz inocência e bondade ao filme, mas é também muito bem-sucedida a reproduzir a ansiedade e pavor que Evelyn experimenta quando percebe que ela própria, para além de Dena, está a ouvir vozes a ecoar do interior das paredes da casa, sinal de que está igualmente a perder a sanidade.

Dena e Evelyn

Mas o ponto alto do filme é a performance de Jayne Taini, que consegue, em todos os momentos em que aparece no grande ecrã, deixar-nos sobressaltados. A demência é uma doença assustadora e é arrepiante ver uma pessoa perder lentamente a memória e a sanidade que a ligam ao mundo, sendo um veículo que permite ao filme adensar o mistério sobre se tudo o que ali está a acontecer é verdadeiro, ou fruto da condição de Dena.

Assolada por períodos de lucidez e outros em que abraça a demência, Dena marca o tom da história ao parecer ter uma ligação direta com Sanzaru, a entidade sobrenatural que parece querer castigar as personagens por não terem feito as pazes com o seu passado, ou por estarem a esconder segredos obscuros que deviam sair cá para fora.

De salientar igualmente a dignidade com que é tratada a doença de Dena, nunca de forma gratuita ou excessivamente ficcional, e é isso que acrescenta ainda mais veracidade e temor ao excelente trabalho feito por Jayne.

E a narrativa consegue, com este elemento, abrir uma dualidade de interpretações que é favorável a Sanzaru enquanto filme: ficamos divididos entre acreditar se as assombrações são mesmo provenientes da casa, ou se são os segredos que as personagens carregam consigo que contribuem para a aparição da entidade maligna que paira sobre as duas famílias.

A repressão de memórias e a forma como estas, mais tarde ou mais cedo, se manifestam em diferentes formas, ao longo das nossas vidas, é uma questão interessante e muito bem retratada no argumento escrito pelo próprio Xia Magnus.

Tocando em temas desde a mortalidade, abuso, solidão até à forma como ficamos reféns de uma prisão mental por não conseguirmos fazer as pazes com as dificuldades da vida, Sanzaru acaba por ser um retrato sincero, contando uma história que podia ter saído da vida de qualquer um de nós.

E esta minha última frase, relembrando que estamos a falar de um filme de terror que conta com a aparição de Sanzaru, uma figura sobrenatural toda ela reproduzida em tons de vermelho, é o maior elogio que posso fazer ao filme. Não é um filme mainstream, e digo isto de forma positiva dado que, ao contrário das produções de terror de Hollywood, Sanzuku desenvolve bem cada uma das suas personagens, como se fossem pessoas reais e não simples marionetas onde o ponto de foco é um fantasma ou demónio.

O maior ponto fraco prende-se com o último ato do filme que, contrastando com os dois primeiros atos, não consegue aguentar o clima de tensão e suspense montado ao início, sendo que as revelações não causam o impacto necessário no espectador.

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Há também algumas pontas soltas, elementos que não são contados ou explicados, mas tudo contribui para um filme de terror maioritariamente psicológico, em que quase tudo se passa fora do que está a ser representado no ecrã. Sanzuku peca apenas por não conseguir entregar, nos seus últimos desenvolvimentos, aquilo que prometeu quando a história começou a ser contada.

Sendo este o primeiro filme de Xia Magnus, o realizador afirma-se como um nome seguro, alguém que veio para ficar na indústria. Sanzaru não é um filme que jogue pelas regras tradicionais do género, a começar pela forma como o monstro é demonstrado no ecrã, mas é, sem dúvida, uma promissora primeira tentativa de alguém que está a começar a carreira. Sanzaru é  recomendado para quem aprecia tensão psicológica ao invés de horror manifestamente visual e é uma excelente adição a um género que está novamente a emergir.

Sanzaru foi um dos pontos altos do segundo dia do MotelX.
7.5

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