O filme argentino abriu o segundo dia do MotelX
Tangram Productions / Divulgação

MOTELX ’20: ‘History of the Occult’ e a ligação da política com o satanismo

O filme argentino abriu o segundo dia do festival.

History of the Occult foi a longa-metragem escolhida para abrir as hostes do segundo dia (8) da 14.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, MOTELX, que arrancou nesta segunda-feira (7), no Cinema São Jorge. O filme argentino, realizado por Cristian Jesús Ponce, retrata a história de um grupo de jornalistas que tenta provar a existência de uma ligação do governo a um grupo de bruxas.

Tudo gira em torno da última emissão de 60 Minutes to Midnight, o famoso programa jornalístico, no universo montado pelo enredo, onde o principal convidado é Adrian Marcato, que promete confirmar os rumores de que o governo nacional se mantém no poder com a ajuda de bruxas. Enquanto Marcato está a ser entrevistado, a equipa de jornalistas do 60 Minutes está, nos bastidores, numa corrida contra o tempo para encontrar um objeto desejado pelo convidado.

O filme abre com um polícia a encontrar um corpo morto numa estrada e o responsável pelo acontecimento que subitamente desaparece, mesmo à frente dos olhos do polícia. Este último descobre um caderno com rituais satânicos ao lado de nomes importantes do governo. Estabelecem-se assim, de início, as peças que se movimentarão ao longo do filme.

O maior triunfo do argumento escrito pelo próprio Cristian é o de conseguir construir um escalar de tensão ao longo dos 80 minutos do filme. Os eventos de History of the Occult passam-se inteiramente na noite do último programa, sendo que acompanhamos todos os acontecimentos ao detalhe e, não sendo um suspense tradicional dos filmes de terror, na medida em que não há sustos literais escarrapachados no ecrã, o espectador consegue, ainda assim, experimentar uma sensação de urgência em saber como a história se desfecha.

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A premissa é simples: sendo esta a última emissão de 60 Minutes to Midnight e, tendo o programa a duração que está no título, é este mesmo prazo que a equipa de jornalistas tem para encontrar o objeto que fará com que Adrian confirme que o governo nacional está envolvido em assuntos sobrenaturais. Se falharem no objetivo, perderão a última oportunidade de revelarem cá aos telespectadores a corrupção que assola a política do país.

É interessante ver como o realizador mistura elementos de terror com outros mais alinhavados com a nossa realidade, tocando em assuntos como a liberdade de imprensa e a corrupção. Desde logo, algo que torna The History Of The Occult num produto refrescante no universo de filmes de terror, é o facto de associar o governo a práticas sobrenaturais. Há algo de inquietante em imaginar a estrutura governamental, que mais nos devia proteger no dia-a-dia, envolvida em esquemas e rituais de bruxaria.

O filme consegue causar tensão ao espectador de forma eficiente.
Tangram Productions / Divulgação

Apesar de ser classificado como um filme de terror, podemos retirar daquilo que Jesús Ponce nos apresenta, uma crítica à promiscuidade das instâncias de poder, e o facto de as pessoas que, estando dispostas a descobrir toda a verdade, são facilmente desacreditadas. Por outro lado, a liberdade de imprensa e a essência do jornalismo são também analisadas, ajudando a densificar o subtexto da trama.

María, a personagem interpretada pela atriz Nadia Lozano, um dos membros da produção que está em casa a tentar localizar o objeto pedido por Marcato, pergunta-se, a certo ponto, se aquilo que estão a fazer é verdadeiro jornalismo. É uma questão pertinente, dado que quase todos os jornalistas já se questionaram, a certo ponto da sua carreira profissional, se o seu trabalho tem algum significado real.

É fácil que a linha entre investigação rigorosa e puro sensacionalismo comece a ficar cada vez mais fina e é positivo o facto de um filme de terror pôr estes assuntos em cima da mesa. A produção é-nos apresentada no grande ecrã a preto e branco e no formato 4:3, e se a primeira decisão técnica pouco acrescenta à história, a segunda faz com que os acontecimentos que se passam durante aquela noite ganhem o tom e visual de uma verdadeira peça jornalística.

Os problemas adensam-se quando se percebe que as personagens são pouco desenvolvidas, estando demasiado ao serviço da história. Isto é fruto do facto de os eventos da narrativa se concentrarem apenas numa noite, não dando espaço e abertura suficiente para que conheçamos os protagonistas que estão a tentar provar uma das maiores teorias da conspiração de sempre.

E, apesar do formato 4:3 conferir uma ponte com a temática do jornalismo, bem presente em History of the Occult, a verdade é que nos faz igualmente distanciar das personagens. Logo, não conseguimos ganhar uma conexão emocional que nos permita torcer honestamente pela jornada que Natalia (Lucia Arreche) tem de enfrentar em contra relógio, durante a noite, pelas ruas, para encontrar a chave que vai desvendar o mistério. Nem tão pouco torcemos realmente pela sobrevivência do grupo de jornalistas, quando estes estão em risco ou a ser perseguidos.

As revelações finais caem em catadupa, algumas revelam-se ser pouco perceptíveis na sua essência e razão de ser, como o objeto desejado por Marcato ou mesmo a cena em que é revelado que um dos membros da equipa do programa também estava infiltrado e ligado à bruxaria. Acontece tudo de forma tão rápida que não deixa marcas no espectador, apesar de ter um ritmo interessante.

Se a história é, por vezes, um autêntico labirinto, o filme ganha pontos por trazer consigo assuntos importantes, escondidos por um manto de terror e tensão, onde temos, nós e os jornalistas, 60 minutos para confirmar que o governo está mesmo ligado a grupos satânicos. Sendo esta a estreia do realizador no que toca a longas-metragens, Jesús Ponce deixa boas indicações para o futuro, passando a ser um nome a ter em conta.

Vale como uma forte crítica social, usando a bruxaria como uma metáfora para a corrupção e desvio de poder, contra os governos que pouco se importam com os seus cidadãos. History of the Occult não é memorável, mas cumpre a tarefa a que se propõe.

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