Liam Neeson e Michaél Richardson são pai e filho na vida real.
IFC Films

Crítica. ‘Regresso a Itália’: Liam Neeson num drama de domingo à tarde

O filme chega às salas de cinema portuguesas a 10 de setembro.

Quando o espectador vai ao cinema ver um filme e tem a sensação de que já viu fragmentos dele em outras produções melhores, é mau sinal. Foi isto que me aconteceu enquanto estava a assistir a Regresso a Itália, que marca a estreia do ator James D’Arcy no papel de realizador e que conta com o sempre bem-aparecido Liam Neeson e o próprio filho, Micheál Richardson, nos papéis principais.

Partindo do principio, a história dá-nos a conhecer Jack (Micheál Richardson), um homem que gere uma galeria de arte, pertencente à família da mulher, Ruth (Yolanda Keetle), a quem Jack se recusa a dar o divórcio. Quando Ruth conta ao iminente ex-marido que vai vender a galeria, este embarca numa viagem a Itália, com o pai, Robert (Liam Neeson), para restaurarem uma propriedade que ambos têm no país, herdada da falecida mãe, de modo a poder vendê-la e, com a sua metade do dinheiro, comprar a galeria à família de Ruth.

Só que o relacionamento de Jack com Robert não é fácil, nem as obras na casa, deitada ao abandono, correm bem, de inicio. Por detrás existe o fantasma da morte da mãe num acidente de carro, que cria um conjunto de emoções reprimidas, dificultando a relação entre pai e filho. A chave do argumento é fazer com que as duas personagens conversem sobre a tragédia que aconteceu há vinte anos, obrigando ambos a abrirem-se um ao outro e a fazerem o luto da morte de alguém tão querido.

Os pontos fracos de Regresso a Itália

A verdade é que já vimos esta história de perda e luto contada de uma forma mais verdadeira e substancial noutros filmes, como Manchester By The Sea, O Outro Lado do Coração ou, pelo lado da repressão de sentimentos e relações familiares difíceis, Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos. Para além disso, é pena que o filme caia num manto de previsibilidade logo no começo.

Assim que somos apresentados à propriedade que pai e filho possuem em comum na bonita vila da Tuscânia, em Itália, percebemos logo que, em qualquer ponto da história, Jack vai cancelar os planos que tem e abandonar a ideia de vender a casa, passando a morar em Itália.

A forma como D’Arcy filma o contraste, por exemplo, entre a casa que Jack tem em Londres, em tons escuros e cinzentos, e a propriedade da Tuscânia, com cores quentes e vibrantes, especialmente o amarelo, é uma maneira explícita de encaminhar o espectador para o final da história, quando vamos ainda a meio. É fácil de entender que a galeria vai deixar de interessar e cair no esquecimento.

Por outro lado, não há muitos elogios a fazer quanto à forma como Regresso a Itália constrói as personagens femininas que dão fundo à história, quando esta se passa na Tuscânia. Cedo somos apresentados a Rafaella (Valeria Bilello), uma mulher que tem um restaurante na vila, fala inglês e capta, desde logo, a atenção de Jack, por também ser divorciada.

Não há mais densidade no romance, dado que tudo acontece de forma artificial e quase por encomenda. Dá jeito à narrativa que Rafaella por acaso consiga entender Jack, que se encontre ali sozinha a gerir um restaurante italiano, ou que esteja divorciada, estabelecendo uma ponte de contacto com o protagonista mais jovem.

E, para além disto, o filme não é muito simpático na sua caracterização. Uma cena sintomática é a que aparece, já perto do final, depois de Rafaella e Jack se terem beijado. Em conversa, ambos estão a enumerar características que gostam um no outro e Jack, após uns segundos de silêncio, parece só conseguir lembrar-se de dizer “tu és uma mãe… que adora a filha!”.

Apesar da agradável interpretação de Valeria, não conseguimos afastar a sensação de que a sua personagem foi apenas criada para dar um pouco de backstory à narrativa, não sobressaindo para lá do expectável. Rafaella resume-se apenas a ser uma mulher solteira, que é mãe, mas também um veículo para uma espécie de terapia feita a Jack, onde este exprime, pela primeira vez, sinais de rancor e tristeza face à morte da mãe.

Liam Neeson e Lindsay Duncan são o ponto alto de Regresso a Itália.
Fotografia: IFC FILMS

Melhor tratamento recebe Lindsay Duncan e a sua Kate, a vendedora de imóveis que vai avaliar a casa da Tuscânia, proporcionando gargalhadas ao espectador em momentos onde demonstra horror e surpresa com o estado verdadeiro do imóvel. Os diálogos trocados entre Lindsay e a personagem de Liam Neeson são engraçados e os atores estabelecem uma química fácil, fruto de muitos anos de experiência de ambos.

Para além disso, a personagem revela a Robert, numa das conversas mais sérias e convincentes da história, que vive sozinha em Itália depois de ter sido traída pelo marido, que engravidou uma secretária. São duas mulheres com histórias difíceis mas pouco aproveitadas, apesar de Kate oferecer um escape de leveza à narrativa.

Liam Neeson é sempre sinónimo de qualidade

Regresso a Itália marca o regresso de Liam Neeson a dramas mais calmos quando comparados com os últimos filmes de ação do ator, e é ele quem lidera as cenas mais emocionais do filme, partilhadas com o filho. Não é que Micheál não esteja bem, mas Liam consegue transparecer facilmente honestidade na sua interpretação, equilibrando, de forma saudável, a linha entre um pai simpático e charmoso, mas também amargurado com a vida, resultando daí o seu mau feitio inicial, que levou ao afastamento de Jack.

Liam dá a sensação de que se divertiu a fazer o filme, e isso é palpável na performance do ator, que já está mais do que acostumado a estas andanças, agarrando bem o papel e ultrapassando os pontos fracos do argumento, sobressaindo como uma das melhores coisas que Regresso a Itália nos oferece. Neeson é sempre sinónimo de qualidade, mesmo quando os filmes em que contracena lhe pregam partidas, quanto à história construída.

Porém, o argumento peca por artificial, para além da já exposta previsibilidade. É-nos contado que Jack precisa urgentemente de vender a casa da Tuscânia para comprar a galeria que, segundo a personagem, é a única coisa que tem na vida, a única fonte de rendimento. Mas, ao longo do filme, ao acompanharmos as remodelações da casa, o dinheiro não é um verdadeiro problema.

Liam Neeson é o protagonista de Regresso a Itália.
Fotografia: IFC FILMS

Nunca o vemos a queixar-se de falta de fundos, nem a passar por dificuldades financeiras, e parece-me que as profundas obras que tiveram de ser levadas a cabo na casa tenham sido caras. Ou seja, toda a questão em torno da galeria é basicamente um artificio para provocar a catarse final em que pai e filho choram nos braços um do outro, depois de terem, finalmente, falado sobre a morte da mãe. A meta imposta pelo argumento de James D’Arcy está mais que à vista e, sem qualquer sombra de surpresa ou reviravolta, é mesmo ali que chegamos.

Normalmente, filmes onde sabemos, quase de imediato, como vão acabar, acabam por se tornar cansativos para a audiência mas, surpreendentemente, não é isso que acontece com Regresso a Itália. Sabendo aproveitar as maravilhosas paisagens das vilas italianas, autênticos quadros artísticos, D’Arcy consegue compor uma naturalidade refrescante na história.

Estão lá todos os ingredientes de um drama de domingo à tarde: o pai que se sente culpado da morte da mãe, o filho que não tem uma conversa séria com o pai há anos, o novo encanto amoroso pronto a ser conquistado, e o tão esperado momento em que pai e filho, num reencontro sentimental, no meio de lágrimas, fazem o luto da mãe. É pena que Regresso a Itália não ultrapasse este síndrome de drama de domingo à tarde.

Não obstante, é uma boa escapatória, onde nos podemos perder na bela Tuscânia, a fazer lembrar, por momentos, os cenários rurais de Call Me By Your Name. O filme podia ter chegado a outro patamar se tivesse aproveitado melhor a história real que, infelizmente, se cruza com a ficção. É que, na realidade, os dois atores principais sofreram uma tragédia semelhante, em 2009, com a morte da atriz Natasha Richardson, esposa de Liam Neeson e mãe de Micheál Richardson.

Os laços da ficção com a história pessoal de ambos ajuda a que a tensão e descarga emocional vivida pelos dois atores no grande ecrã seja, pelo menos, compreensível. A tranquilidade da vila, a sinceridade de Liam Neeson no papel e os bons momentos proporcionados por Lindsay Duncan, fazem com que Regresso a Itália seja uma boa alternativa para quem esteja à procura de um filme leve e, lá no fundo, honesto.

Lê mais:
Liam Neeson e Michaél Richardson são pai e filho na vida real.
4.5
Mais Artigos
Emma Corrin
Netflix duplica investimentos em séries do Reino Unido