White Riot
White Riot // Foto: IndieLisboa

IndieLisboa 2020: Os 6 melhores filmes da secção IndieMusic

Foram 15 os filmes que estiveram presentes na secção de IndieMusic da 17.ª edição do festival IndieLisboa, que terminou este sábado (5). A competição, que visa mostrar a “ligação entre o cinema e a música“, foi ganha, ex-aequo, pelas longa-metragens de White Riot e Keyboard Fantasies: The Beverly Glenn-Copeland Story. O Espalha-Factos esteve presente e elegeu os seis melhores filmes da secção IndieMusic.

A vida dura muito pouco (Dinis Leal Machado)

A vida dura muito pouco é, antes de mais, um exercício de nostalgia. A história sobre um cantor de música portuguesa que gravou uma série de cassetes em Matosinhos, deu vários concertos em casas noturnas da cidade do Porto e, depois de um acidente trágico, parece ter evaporado do cancioneiro. Até que, nos anos 2000, as suas cassetes começaram a ser recuperadas por um conjunto de amigos que as transformaram em CD’s e depois passaram o seu espólio para o digital. 

A maioria das pessoas na sala de cinema não conheciam José Pinhal, mas tenho a certeza que toda a gente que lá esteve passou pelo Youtube para ouvir pelo menos a clássica “jose pinhal tu es a que quero tu nao prendas o cabelo” ou a “jose pinhal PORÉM NÃO POSSO” (grafia retirada da plataforma). José Pinhal é místico, algo elevado pela sua estética neon noturna. A imagem que fica de Pinhal é como a de um anjo rodeado por bolas disco, envolto no seu fato branco e o bigode bem-aparado.

O trabalho de Dinis Leal Machado é imaculado, desde as entrevistas feitas aos jovens lisboetas apaixonados por este ícone da música portuguesa, até à apresentação de amigos e ex-colegas de José Pinhal da Editora Nova Força. Hoje, os realizadores e produtores da curta-metragem pretendem reeditar a obra de José Pinhal para poder ter a oportunidade de ser apreciada por todas as pessoas.

Caos e Afinidade (Pedro Gonçalves)

Caos e Afinidade é um documentário que retrata um pouco da história da música improvisada em Portugal, passando de momentos mais contemporâneos até ao passado, aos pioneiros, e conectando os dois com uma reflexão sobre o poder e a influência deste tipo de música ao longo dos tempos.

Ao mesmo tempo, e com um foco maior na cidade de Lisboa, fala-se sobre o estado da música e, acima de tudo, da arte e cultura em Portugal. Acaba por ser um dos pontos altos do IndieMusic, pois, apesar de ter sido gravado ainda antes da pandemia da Covid-19 ter impacto no nosso país, soa muito atual e é um belo resumo de como os verdadeiros artistas e os locais aonde estes atuam têm sido desvalorizados ao longo dos últimos meses, com muitos dos locais mencionados na longa-metragem a terem fechado nos últimos meses, sem qualquer salvação à vista. 

É uma homenagem muito importante a um ramo artístico e aos seus artistas que, apesar de ter ganho uma maior visibilidade nos últimos anos, continua a não ter o tratamento igualitário que merece por parte de alguns promotores e entidades conectadas ao mundo da música portuguesa.

Gimme Shelter (Albert Maysles, David Maysles, Charlotte Zwerin)

Gimme Shelter acompanha as últimas semanas da digressão americana da mítica banda The Rolling Stones, em 1969, dando foco à tragédia que pairou sobre a tournée quando uma fã morreu às mãos dos Hell’s Angels, um grupo de motards que fazia a segurança do último concerto no Altamont Speedway Concert.

Este documentário não se esgota no género e vai beber do movimento Cinema Directo, cujo pioneiro foi o soviético Dziga Vertov. É um subgénero do documentário, onde os realizadores pretendem mostrar a realidade exatamente como ela é. Entre imagens de concertos, conversas no backstage e das bandas que abriam para The Rolling Stones, desde Tina e Ike Turner, The Jefferson Airplane e The Flying Burritos, a tensão começa quando chegamos ao último concerto. O crescendo vai estabelecendo a aura com sucessivas canções como Jumpin’ Jack Flash, Simpathy for the Devil. Mas é em Under My Thumb que tudo vai ao ar quando uma fã, Meredith Hunter, tenta subir ao palco armada com um revólver. Os Hell’s Angels, seguranças que usavam bastões de snooker como arma de segurança, acabaram por apunhalar Hunter seis vezes.

O filme é uma belíssima obra, com uma cinematografia invejável e com todos os clichés que associamos aos anos 60. É, ainda, um lembrete de que, não importa o quão bonita a união que a música nos oferece pois nem sempre tudo corre bem.

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Keyboard Fantasies: The Beverly Glenn-Copeland Story (Posy Dixon)

Keyboard Fantasies é o nome do disco lançado por Beverly Glenn-Copeland em 1986. Na altura, o trabalho recebeu pouca atenção, tendo sido reproduzidas poucas cópias e, consequentemente, vendidas. Durante a década passada, o disco foi redescoberto e começou a ganhar um culto de seguidores online.

Assim, surgiu um renascimento da carreira musical do artista que se revelou ser um pioneiro da música eletrónica. Em Keyboard Fantasies: The Beverly Glenn-Copeland Story, é retratado todo este processo do seu regresso à música e aos concertos. À medida que este nos é revelado, também vamos conhecendo a história de vida de Glenn. Toda esta secção do documentário é muito bem montada. Ficamos a conhecer o porquê de Glenn fazer música e toda a vida pessoal deste artista transgénero. 

A longa-metragem possui uma componente inspiracional muito forte que provém tanto da componente LGBTQ+ presente como da mensagem que todos temos um lugar neste mundo que nos permite inspirar e ser inspirado por outros. É belo, educacional e apresenta-nos um artista cuja música merece ser explorada por todos.

Other, Like Me (Marcus Werner Hed, Dan Fox)

Throbbing Gristle
Other, Like Me // Foto: IndieLisboa

Other, Like Me é um documentário que retrata o surgimento do grupo pioneiro da música industrial Throbbing Gristle. A banda era constituída por Genesis P-Orridge, Cosey Fanni Tutti, Peter Christopherson e Chris Carter

Esta longa-metragem apresenta-nos a história de como os seus membros se conheceram, como estes interagiam e se influenciavam entre si e de como a partir do coletivo de arte COUM Transmissions, caracterizado pelo seu alto valor de confronto perante os valores mais conservatórios da sociedade britânica e da própria arte, nasceram os Throbbing Gristle.

É um must-watch para qualquer fã de música extrema. Permite entender a transição entre os dois projetos e, com o relato de membros do COUM e dos Throbbing Gristle, perceber como funcionava o seu processo criativo e qual o impacto que estes projetos tiveram no desenvolvimento do conceito de arte e das barreiras que foram quebradas.

White Riot (Rubika Shah)

O título provém da música de uma das maiores bandas de punk-rock do Reino Unido, The Clash, “White Riot“, que denunciava o racismo e a educação nacionalista na Inglaterra, sobretudo com a ascensão da Frente Nacional, facção da extrema-direita fascista que ganhava cada vez mais seguidores e traçava um caminho promissor para a eleição geral de 1979, liderada pelo neo-nazi Martin Webster.

A história que White Riot se propõe a contar é de uma série de pessoas que se juntaram e insurgiram contra o movimento fascista e racista através do bom e velho rock and roll, que também já começava a ser invadido pela retórica xenófoba – Eric Clapton dizia que a imigração tinha de acabar e David Bowie afirmava que o país estava preparado para um governo fascista e mostrava admiração por Adolf Hitler

O Rock Against Racism foi um movimento cultural que juntou várias bandas, desde The Clash, Steel Pulse, Tom Robinson, The Who, Carol Grimes, Misty in Roots e Matumbi. O objetivo era pregar a igualdade entre etnias, géneros, orientações sexuais e “converter” a classe operária que se refugiava, cada vez mais, em ideologias fascistas.

O verdadeiro propósito de Rubika Shah neste filme é não só mostrar o movimento, mas também contar a história das pessoas por detrás dele, como Red Saunders, Jo Wreford e Roger Huddle, através de entrevistas, imagens de arquivo das zines do RAR, montagens coloridas e uma banda sonora carregada de guitarrada anti-fascista. 

A mensagem do filme é clara e alerta-nos para a ação que temos de tomar atualmente, com o regresso destas ideologias extremistas que ameaçam um retorno fortificado e que já fizeram casa em muitos países.

Texto de Miguel Rocha e Kenia Sampaio Nunes.

 

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