Days
Days // Foto: IndieLisboa

IndieLisboa 2020: A reflexão minimalista sobre a conexão humana em ‘Days’

Days, a nova longa-metragem de Tsai Ming-liang, estreou em Portugal no IndieLisboa. O filme encontra-se inserido na secção Silvestre do festival, categoria dedicada a filmes “cuja rebeldia espelhe o espírito do festival“.

Em 2013, Tsai Ming-liang anunciava no Festival de Veneza que Stray Dogs, que aí estreava, seria a sua última longa-metragem. Mas ao longo dos últimos sete anos, o realizador não esteve particularmente longe de câmaras, tendo sido responsável por algumas curtas, documentários e segmentos durante esse período de tempo. Mas é com este Days que o aclamado realizador regressa às longas-metragens.

A premissa de Days é, no papel, simples. Relata imagens intercambiadas de dois homens, interpretados por Lee Kang-Sheng (colaborador habitual do realizador) e Anong Houngheuangsy (na sua estreia), que eventualmente se encontram e depois imediatamente se desprendem. No entanto, a forma como o filme se desenrola não é simples. A grande projeção que se pode retirar desta longa-metragem é o imenso espaço de reflexão que é atribuído ao espectador pelo realizador durante o tempo de ação, cerca de duas horas e 7 minutos de imagens.

A obtenção do espaço de reflexão de Days

E como é que é obtido este espaço de reflexão em Days? Bem, a melhor forma para definir esta longa-metragem seria com a expressão slow cinema. Possui todas as características deste. É extremamente minimalista na sua apresentação e concepção e possui pouca ou quase nenhuma narrativa. O objetivo da obra é a contemplação dos ambientes apresentados e a consequente reflexão que é ativada no espectador.

Para tal acontecer, é necessário que haja uma compreensão por parte do espectador que este tipo de cinema requer paciência e que o verdadeiro fruto colhido não está na ação em si, mas sim em tudo aquilo em que podemos observar e, consequentemente, refletir. O filme não possui legendas, mas também não é necessário: o diálogo é extremamente mínimo. A reflexão é conseguida através do espaço criado entre os longos takes, o excelente uso do som que rodeia os cenários e os movimentos das personagens em si.

Days
Days // Fonte: IMdB

Na sessão que ontem aconteceu no Cinema São Jorge, foram vários os espectadores que abandonaram a sala ainda antes do término desta. A verdadeira reflexão a tirar desse facto é que, talvez, estejamos a caminhar para uma cultura de consumismo em que não se dá o devido valor a coisas “lentas”. Não que seja possível comparar Days a um blockbuster massivo. E nem esta comparação deve de ser feita, porque vivem em pólos tão opostos do espectro da sétima arte que é impossível pô-los no mesmo saco para comparação.

Days também abre espaço para este tipo de reflexão. Existe tempo para tal, apesar de não estar em nada relacionada com o enredo da longa-metragem. Esta surge mais num ponto de reflexão sobre a discussão da arte em si e do valor que esta ainda tem num espaço em que o valor por coisas que sejam necessárias apreciar de forma atenta tem estado, tendencialmente, a diminuir. Pequenas reflexões, estas.

A solidão do ser humano como reflexão principal

A maior reflexão que se pode retirar, no entanto, provém do conceito da solidão e conexão humana. As imagens que vamos vendo de ambas as personagens são constituídas por takes muito longos (alguns com mais de dez minutos) testam (e de que forma) a paciência do espectador para observar tudo o que está a acontecer. Que é pouco, mas muito ao mesmo tempo. Seguimos os dois personagens por elementos do seu dia até que, eventualmente se encontram. E o encontro acaba por ser o clímax e ponto fulcral deste filme, pois é nele que podemos observar tudo e mais alguma sobre o quão importante é a conexão entre os seres humanos, por mais ínfima e momentânea que seja.

Days
Days // Fonte: IMdB

É nos longos takes que nos é dado o espaço para refletir sobre o que vimos, maioritariamente antes e depois do encontro entre as personagens. Permite-nos analisar o efeito que este tem sobre ambos. O antes e depois é a grande observação, porque faz-se notar do impacto profundo que a conexão humana, mesmo que neste caso seja momentânea, consegue ter numa pessoa. A memória não esquece estas coisas, por mais pequenas que sejam.

E se há coisa que, e fazendo uma interpolação para a nossa realidade atual, se aprendeu nos últimos meses, é que nós, os humanos, não conseguimos viver sem interagir com os outros. É inerente que mantenhamos o contacto e se continue a criar conexões reais com outras pessoas. Days pode não ser uma obra prima cinematográfica – nem o tenta ser – mas é um filme tão humano e humilde nos seus pequenos detalhes e enorme que nos leva numa viagem contemplativa pelas bases da natureza humana. E, hoje em dia, isso é mais do que necessário para não esquecer-mos quem realmente somos.

 

Days
7.5
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