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Vodafone Paredes de Coura 2019. | Fotografia: Sofia Matos Silva

Festival Nostalgia. Como viveram os fãs um ano sem festivais?

2020 foi o primeiro ano, em décadas, sem os habituais festivais de música a preencher julho e agosto. O Espalha-Factos falou com os fãs para perceber o que lhes fez mais falta.

A Covid-19 veio impossibilitar a realização de vários eventos culturais. Alguns totalmente impedidos, outros adiados ou cancelados por previsão de perda de lucro. Independentemente da razão invocada, os portugueses perderam os concertos, os teatros, os filmes, durante meses e, enfim, no verão, viram-se sem os festivais de música a que se haviam habituado nas últimas décadas.

Estávamos em maio quando o Conselho de Ministros anunciou que a realização de festivais de verão estaria impossibilitada até ao dia 30 de setembro de 2020. No final do mesmo mês, e à promulgação do diploma que o confirmava pelo Presidente da República, havia novas esperanças: os festivais poderiam realizar-se, desde que cumprissem determinadas regras, como a existência de lugares marcados e o cumprimento das distâncias.

Estas ideias foram enquadradas em projetos de eventos culturais realizados em vários locais do país, para o desconfinamento (são exemplo as Noites no Palácio no Porto ou as Noites de Verão em Vila Nova de Gaia, que contaram com concertos em espaços abertos) e agora em setembro também na Festa do Avante! (embora com uma maior dimensão que os anteriores).

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Tyler, The Creator, NOS Primavera Sound 2018. | Fotografia: Sofia Matos Silva

Mas para a maioria dos festivais musicais essas ideias já vinham tarde: os festivais já haviam sido cancelados ou adiados para o ano seguinte, e o trabalho das promotoras já começara no sentido de preparar melhores edições em 2021, nomeadamente tentando confirmar a maioria dos artistas que tinham nos cartazes de 2020. “Acho que o próximo ano vai ser mágico. Vai ser o mais bonito de sempre.“, são as palavras de João Carvalho, da Ritmos, que organiza anualmente o Vodafone Paredes de Coura em agosto.

Vai ser um festival com ainda mais cumplicidade, cheio de reencontros e de alegria. Estou a contar os dias para a próxima edição porque continuo a entusiasmar-me tal como no início. Gosto muito do que faço, sou um sortudo“, acrescentou, em conversa com Madalena Soares para o Espalha-Factos, a ler aqui.

Na mesma entrevista, o promotor de dois dos maiores festivais no norte (além do mencionado, também, o NOS Primavera Sound, no Porto) acrescentou a importância do público e a forma como o mesmo reagiu aos cancelamentos sucessivos dos vários eventos por todo o país. E foi com esse público que o Espalha-Factos procurou falar.

As experiências que fazem dos festivais do verão tão importantes

Quem quer ouvir música ao vivo, independentemente do que se passa em seu redor, normalmente frequenta um concerto, em espaço aberto ou fechado, com público em pé ou sentado. Os festivais de música não se podem reduzir a concertos, embora acabe por ser a música o que move todo o seu público aos recintos.

Muitas vezes é o ambiente gerado pelos fãs dos artistas que compõem o cartaz, além de experiências paralelas proporcionadas no recinto, que fazem com que estes três a quatro dias (como o são na maioria dos festivais de verão) deixem marcas fortes nas memórias de todos os envolvidos.

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boy pablo, Vodafone Paredes de Coura 2019. | Fotografia: Sofia Matos Silva

Para Miguel Regouga (23 anos, Beja), uma dessas marcas foi ver-se envolvido num moshpit inesperado durante o concerto dos The Prodigy no NOS Alive de 2015. Aliás, destaca que o momento aconteceu logo nos primeiros acordes da primeira música do alinhamento. João Bernardo Silva (22 anos, Lisboa) disse-nos que o seu primeiro moshpit foi aos 13 anos e ficou “aterrorizado“. O mesmo aconteceu na edição de 2011 do (ainda) Optimus Alive. “Queria ver The Cure, mas era demasiado novo para ir sozinho, então fui com o meu primo. Ele estava a achar o concerto aborrecido, então acabei por não ver todo” – como te atreves, primo do João?

The Cure. NOS Alive 2019. | Fotografia: Sofia Matos Silva

João Costa (49 anos, Porto), além de ser um fã dos moshpits, diz já ter vivido histórias bastante caricatas, como “ter interrompido uma entrevista de um músico internacional para um jornal nacional” porque o músico em questão o reconheceu. Fez-se grande festa, a que a jornalista assistiu estupefacta.

Já Pedro Caldeira (23 anos, Lisboa) conta que ficou conhecido como “o fresquinho” durante um mês, depois de ter estado 3 dias colado na front-row do Super Bock Super Rock, em 2016, e ter respondido a uma jornalista da SIC que ali se encontrava por estar mais fresco nessa zona.

Para outros, as experiências mais marcantes são as de introspetiva. José Gomes (24 anos, Coimbra) confessa que viveu os concertos dos The XX e de The Weeknd, do alinhamento do NOS Alive de 2017, sentado no chão. “Foi uma experiência incrível porque estava só a ouvir a música, sem ver nada nem interagir com ninguém. Consegui estar no meu próprio mundo.

Também sentada estava Catarina Lourenço (21 anos, Benedita – Alcobaça), na edição do mesmo festival no ano anterior. Conta que, na noite em que tocavam os Radiohead, e face à multidão no meio da qual esteve durante horas, o que a fez sentir-se claustrofóbica, afastou-se da zona do palco. “Sentei-me no chão e fiquei lá a ouvir o concerto. A certo ponto, um casal sorri-me, senta-se ao meu lado e, a partir daí, criámos uma espécie de grupo em que toda a gente se sentava, e quem estava em pé [a ver o concerto] rodeava-nos para que ninguém nos pisasse.

“Eu tinha 17 anos e lembro-me de me sentir protegida e acompanhada, mesmo no meio de desconhecidos. Foi algo que ficou comigo.”

Raquel Gomes (22 anos, Seixal) diz já ter visto “pedidos de casamento em pleno concerto, abraços sentidos, lágrimas de felicidade, muita adrenalina e constantes sorrisos na cara“. Acrescenta que “é isto que torna os festivais de verão tão bonitos“, porque “durante poucas horas, ninguém pensa nas contas que tem para pagar, no vizinho resmungão ou no emprego chato.

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Rosalía, NOS Primavera Sound 2019. | Fotografia: Sofia Matos Silva

No grupo dos inconformados do conforto está Carolina Pereira (25 anos, Aveiro), que diz lembrar-se de “estar imenso tempo na fila dos brindes para receber um sofá insuflável“, querendo encontrar depois uma sombra para se sentar no mesmo, evitando o imenso calor. “Passado algum tempo, apercebi-me de que ele se tinha furado com alguma coisa que estava no chão.

Já João Costa passou quatro noites num festival a acampar, das quais em apenas duas tinha um colchão funcional onde dormir – esta sendo uma situação com a qual muitos dos festivaleiros certamente já se depararam. No seu leque de histórias no acampamento, inclui também ter visto alguém “a entrar numa tenda em modo backflip”.

As edições que mais marcaram os fãs

Do nosso leque de entrevistados, os festivais que mais saltam à vista são o NOS Alive, que se realiza anualmente, em julho, no Passeio Marítimo de Algés, e o Vodafone Paredes de Coura, na vila que lhe dá nome, todos os anos em agosto.

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Car Seat Headrest, Vodafone Paredes de Coura 2019. | Fotografia: Sofia Matos Silva

Para Miguel Regouga, a edição de 2017 do NOS Alive foi a mais marcante – destacou os “concertos inesquecíveis” de Depeche Mode, Foo Fighters, The XX, Phoenix e Alt-J. A meteorologia foi uma benesse desse ano e sentiu que foi “uma das edições mais robustas em termos de público e organização“. Raquel Gomes foi pela primeira vez ao festival na sua completude (os três dias) na edição deste mesmo ano, que privilegiou na conversa, apesar de confessar ir “religiosamente” a todas as edições.

Para Pedro Caldeira foi a edição do ano seguinte: com “o melhor cartaz que já tive oportunidade de presenciar“, viu duas das suas bandas favoritas. O cartaz de 2018 incluiu nomes como Arctic Monkeys, Snow Patrol, Nine Inch Nails, Queens of The Stone Age, The National, Pearl Jam (muito aguardados), Jack White, Alice In Chains e MGMT.

No Minho, João Bernardo Silva recorda os dias de 14 a 18 de agosto de 2019 que passou no Vodafone Paredes de Coura. “Foi a primeira vez que acampei num festival, e foi onde vi os concertos que mais me marcaram: Car Seat Headrest, Black Midi, Patti Smith e Stella Donnelly“. O jovem admite sentir falta do ambiente do festival e da “conexão que sentiu com aquele meio“.

New Order, Vodafone Paredes de Coura 2019. | Fotografia: Sofia Matos Silva

João Costa também tem o Vodafone Paredes de Coura nos seus festivais favoritos, não destacando edições; segue-lhe o EDP Vilar de Mouros, que normalmente coincide com a semana seguinte à do Couraíso, e também se realiza numa localidade a norte. A edição de 2019 do festival de Vilar de Mouros foi a que mais marcou o nortenho, embora tenha também salientado as experiências vividas na primeira edição do Super Bock Super Rock, em 1995.

“Em relação ao melhor festival, tenho a dizer que o melhor será sempre o próximo. Espero, desejo muito que seja no próximo ano.”

Catarina Lourenço fala-nos da edição do Super Rock Super Bock de 2019, o primeiro festival a que foi sozinha. “Não me senti encurralada como no NOS Alive. Foi a primeira vez que fui a um festival sozinha e senti-me muito segura, apesar do ambiente um pouco caótico.” O festival no Meco tinha Lana Del Rey, Metronomy, Migos, The 1975, Phoenix e Janelle Monáe como as grandes promessas de julho do ano passado.

Em Vila Nova de Gaia, o verão agita-se na costa com o MEO Marés Vivas. Rita Santos (21 anos, Aveiro) diz que este festival, no ano de 2016, foi o que lhe deu as melhores memórias. “Foi nesse ano que vi dos dos meus artistas favoritos pela primeira vez, James Bay e Kodaline. Acrescentou que em 2016 o Marés Vivas ainda não tinha alterado o local de realização, preferindo o antigo: “O festival ainda se realizava no antigo recinto, à beira-rio, e tinha quase sempre sunsets incríveis.” O festival passou a realizar-se, em 2019, na antiga Seca do Bacalhau, também em Canidelo.

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Ornatos Violeta, MEO Marés Vivas 2019. | Fotografia: Sofia Matos Silva

O que esperavam de 2020 e o que esperam de 2021

Milhões de portugueses, a contar pelos números que anualmente se deslocam para os festivais em julho e agosto, aguardavam pelo verão de 2020 desde o início de venda dos bilhetes para as edições deste ano, ainda em 2019. Devido à situação epidemiológica, essa ânsia foi prolongada, e agora acompanha-a não apenas o nervosismo por ver o dia a chegar, mas também o nervosismo por não saber ao certo que dia será e se será, mesmo tendo as datas discriminadas nos bilhetes.

A questão da realização ou não-realização dos festivais traz consequências financeiras, sobretudo para as promotoras e para os artistas, mas também para o público. Aqueles que já tinham adquirido bilhetes deparam-se agora com a batalha entre trocar o bilhete pelo da próxima edição, que é a escolha da maioria – embora reticente sobre a possibilidade de realização do festival – e entre a espera pelo reembolso, que só acontece a partir de setembro de 2021 na maioria dos casos. Falamos de quantias de 50 a 200 euros por pessoa, dependendo do festival e da escolha entre assistir a um dia ou a todos os dias da edição.

Nesse sentido, João Costa diz estar mais aliviado. “A nível financeiro há mais possibilidades, poupei bastante dinheiro“. Frequentar um festival não implica apenas o gasto no bilhete, mas nos transportes, na comida, em merchandising para alguns e no acampamento para outros. Mas os festivais não são apenas dinheiro: “Emocionalmente sentimo-nos mais afetados, quanto mais não seja por não poder presenciar aquela comunhão e celebração“, acrescenta.

Esta ausência pode também sentir-se porque, e como diz Carolina Pereira, “cada vez mais associamos o verão aos festivais. São dias em que descontraímos, ouvimos boa música e desligamos do mundo.

Um dos meus aspetos preferidos dos festivais é que, além de poder ouvir os meus artistas favoritos, conheço música nova, seja dentro do mesmo estilo ou de estilos diferentes. É disso mesmo que sinto falta. Sou uma pessoa que aprecia e ouve música em qualquer momento e hora do dia“, referiu Rita Santos (e podemos garantir que quase todos os festivaleiros são essa pessoa), “e são os festivais que me dão a conhecer grande parte dos artistas que ouço.

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Vodafone Paredes de Coura 2019. | Fotografia: Sofia Matos Silva

Muitos já não se ficam apenas pelos festivais portugueses. Miguel Regouga pretendia, este ano, “ir ao Mad Cool, em Madrid“, além do Vodafone Paredes de Coura e do Rock in Rio Lisboa. “Os festivais são, sem dúvida, uma parte importante do meu verão. Este foi o primeiro, em 10 anos, que não frequentei nenhum, no fundo é como se tivessem arrancado uma parte de mim.

Para o jovem, “a maior saudade que ecoa é, sem dúvida, sentir o espírito de comunidade, do amor pela música, dos graves a saírem das colunas e a chegarem-nos à flor da pele. Até de estar de pé durante 12 horas, desidratado, com fome, mas com a voz rouca e, sobretudo, com a alma lavada, depois de vermos aquele concerto daquela banda que tantos meses/anos esperamos para finalmente ver ao vivo.

Catarina Lourenço junta ao leque de memórias de todos os festivaleiros a sensação de “olhar para o lado, sorrir para uma pessoa e criar ali uma ligação momentânea, apenas porque ambos gostamos do mesmo artista que está a atuar. É uma energia muito, muito boa!“.

Há também quem anseie pelos festivais de verão para a saúde da sua vida social, além da música. “Ir a um festival é muito mais que ir pelos concertos: é passar mais do que um fim-de-semana com os meus amigos mais próximos, algo que normalmente não seria possível, dadas as agendas preenchidas“, confessa Pedro Caldeira.

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Conan Osiris, Indie Music Fest 2018. | Fotografia: Sofia Matos Silva

Os festivais mais aguardados

Coincidindo com a lista de festivais que mais memórias trouxeram a todos aqueles com quem falámos, o NOS Alive e o Vodafone Paredes de Coura eram os festivais mais aguardados de 2020.

O NOS Alive destaca-se por trazer ao seu recinto nomes maiores do cenário musical, especialmente os nomes que surgem como cabeças de cartaz, que levam enchentes de todo o país (e do estrangeiro) até Algés. Este ano, não só Catarina Lourenço pretendia ver Taylor Swift, como outros milhares de portugueses, e à americana juntavam-se The Strokes, Da Weasel, Faith No More, Red Hot Chili Peppers, Alt-J, The Lumineers, Angel Olsen, Two Door Cinema Club, ou Parcels (que estiveram também em Portugal em 2019). Tudo nomes que voltam a estar confirmados na edição de 2021, agendada para os dias 7 a 10 de julho.

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Parcels, Vodafone Paredes de Coura 2019. | Fotografia: Sofia Matos Silva

João Bernardo Silva é um dos que mais aguardava pelo Vodafone Paredes de Coura, ansioso por repetir a experiência natural que a edição de 2019 lhe proporcionou. Tal como ele, outros muitos esperavam ver Pixies, Mac DeMarco, IDLES, Yellow Days, BadBadNotGood, Princess Nokia ou L’Impératrice. Os nomes repetem-se no cartaz de 2021, a ver de 19 a 22 de agosto.

Além da música, e de modo diferente do NOS Alive, o grande destaque do Vodafone Paredes de Coura para muitos dos que o frequentam é (também) o acampamento, onde as pessoas se começam a juntar dias antes do festival – e a tempo de apanhar o já conhecido festival da vila, dias em que alguns artistas tocam no centro de Paredes de Coura, arrastando multidões para um (ainda maior) sustento da economia da localidade.

A Praia Fluvial do Taboão está cheia de tendas logo a partir do início de agosto e durante o mês o rio que lhe dá nome recebe milhares de corajosos em águas muito frias que servem também para arrefecer bebidas nos mais de 30ºC de agosto.

The National, Vodafone Paredes de Coura 2019. | Fotografia: Sofia Matos Silva

Num ano atípico, os festivais ficam em pausa. Para os fãs de música e do conjunto de experiências oferecido pelos vários festivais de verão portugueses, 2021 é o ano prometido e em que se deposita confiança para a vivência possível de uma celebração muito aguardada.

Partilha connosco as tuas experiências nos festivais de anos anteriores. Identifica o Espalha-Factos nas redes sociais e mostra-nos os momentos que estás ansioso por reviver já no próximo ano.

Fotografias: Sofia Matos Silva

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