Miguel Ângelo regressa aos palcos

Entrevista. Miguel Ângelo: “Dou-me bem com esta espécie de esquizofrenia pop”

Miguel Ângelo regressa este sábado (dia 5) aos palcos após o confinamento forçado pela Covid-19. O Espalha-Factos teve a oportunidade de conversar com o artista sobre a sua carreira e seus planos para o futuro.

Cinquenta e quatro anos de vida e trinta e cinco anos de carreira, Miguel Ângelo continua a provar que tem uma vida “além” da banda Delfins. O vocalista vai estar no Theatro Circo de Braga, o seu primeiro concerto pós-confinamento, a apresentar o seu mais recente Nova (pop). Editado em novembro do ano passado, o músico convidou Surma, os D’Alva, Filipe Sambado e Chinaskee para participar nas canções que compôs para este trabalho.

Em Braga, o espetáculo vai contar com a presença de Filipe Sambado e do projeto Chinaskee. O Espalha-Factos falou com o aclamado artista numa conversa que também se deambulou pelas suas incursões no mundo da dobragens.

A Covid-19 obrigou a uma mudança drástica e em especial para as pessoas que vivem do mundo artístico. Como é que decorreu o seu processo de habituação face a esta nova realidade?

O primeiro mês foi passado ao telefone e em grupos recém-criados no WhatsApp para tentar perceber o que nós [músicos] podíamos fazer. Eu costumo dizer que houve um decreto de lei que nos proibiu de trabalhar. [Para mim] isso é uma situação um pouco estranha. Claro que quase tudo o que estava planeado para 2020 foi adiado para 2021. Esta crise obrigou as pessoas (ligadas ao mundo dos espetáculos] a juntarem-se [isto é] criarem associações, a legalizar já algumas para poderem ter o chamado “voto na matéria“. Por exemplo: estou-me a lembrar daquela lei que obriga entidades públicas a pagarem 50% dos espetáculos adiados para 2021. Considero-a fulcral para que toda a gente e isto refiro-me aos técnicos, os drivers, os roadies, os músicos pudessem receber, pelo menos, metade do cachê agora e depois o resto no ano seguinte. Digamos então: houve uma parte mais estrutural de trabalho, mas também houve música. Fechei-me no estúdio muitas tardes a fazer coisas novas. Confesso que me afastei dos lives [diretos] no Instagram e outras redes sociais. Fi-lo por várias razões: ainda não temos 5G e isso dificulta a qualidade das ligações; [em segundo] banalizava a performance ao vivo em que era um ambiente muito informal e pouco profissional. O facto de estar numa digressão do EP Nova (pop) em que tinha de produção muito mais sofisticada com uma componente electrónica, não me pareceu interessante ir com uma “guitarrinha” ou com um piano fazer uma atuação dessas…

Esteve também nas gravações do programa Eléctrico da Antena 3…

Sim. Estiveram cerca de 100 pessoas no Capitólio a assistirem às gravações. Agora, com o concerto em Braga este sábado (5) será uma reentrée numa forma muito controlada. Neste momento, a minha maior preocupação é de passar a mensagem que isto é uma coisa segura. As pessoas são capazes de estar mais em segurança irem ao Theatro Circo invés de ir a um jantar num restaurante. É preciso mudar o chip e descomplexar as questões relacionadas com os espetáculos ao vivo, porque, se as pessoas perceberem, que se houver lugares marcados, quer ao ar livre, quer num recinto fechado e existir também o distanciamento necessário, creio que não haja problema nenhum em ir assistir a um concerto. Acho que também está na hora. As pessoas já viram muitas temporadas de muitas séries…

O concerto de próximo sábado em Braga vai ter o Filipe Sambado e o Chinaskee como convidados nesse espetáculo. Qual é a sensação de tocar com músicos de gerações mais novas?

Tem sido muito interessante. Quando estava no estúdio do [Filipe] Sambado durante a pré-produção [do EP], reparei que estávamos a trabalhar com o mesmo entusiasmo e aí a idade quase que não existe. Claro que há outras mentalidades e outros métodos que utilizam, mas há uma empatia musical. Eu também sou muito aberto a coisas novas e, portanto, quando os pus ao leme nos temas [do EP] em que estão envolvidos como produtores. Eles tiveram carta branca para seguirem o que quiserem sonicamente falando. Fui ao encontro do universo musical deles e não o contrário.

O EP Nova (pop) foi lançado em novembro do ano passado. Quero perguntar como tem sido o feedback desse trabalho e quero questionar também o porquê ter lançado um EP e não um álbum completo?

A decisão de ter este formato dos seis temas, que é mais do que um EP, ou seja, pode ser um mini-álbum, se quisermos chamar isso, deve-se ao facto de possivelmente, lançar um possível volume dois, que poderá completar este Nova (pop) com outros nomes da nova música portuguesa. Outra coisa que me facilita muito: ter apenas seis temas, posso tocá-los na íntegra em novos espetáculos. O facto de ter 35 anos de carreira dificulta-me a tarefa de incluir muitos temas novos no repertório [porque] sei que há uma grande fatia do público que me vem ver-me cantar músicas dos Delfins. Eu também não sou daqueles músicos que renega o passado. Vou tocando com arranjos diferentes mas não os elimino da setlist. [Dito isto] este formato permite-me focar nas canções, tratá-las com mais atenção, assim lançá-las com maior rapidez no digital e não estar à espera de lançar um disco com 16 temas em que grande parte público não ouve na totalidade ou então não consigo tocá-lo ao vivo. O que é que isto traz-me de bom? Eu consegui entrar na playlist da Antena 3 graças ao tema Carnival durante várias semanas e não estaria se tivesse o Miguel Ângelo “tradicional” [risos]. Acho até que esta colaboração possivelmente fez-me abrir as portas para outros ouvidos. Ao fim de 35 anos de carreira, tem de haver uma necessidade de renovação de público. Não quer dizer que vá perder o público antigo mas tenho de fazer coisas que digam algo mais a pessoas que têm agora 18, 20 ou 30 anos.

Já que falou no Miguel Ângelo “tradicional”, no ano passado, por ocasião das Festas do Mar em Cascais, os Delfins reuniram-se para dar um concerto com uma orquestra. Há planos para fazer mais um disco?

Foi um concerto com uma orquestra filarmónica com 90 elementos, o que foi uma loucura devo dizer. Depois de termos passados anos a recusar convites para reunir, achámos esse espetáculo valeria a pena porque foi algo diferente. Tocámos oito temas com orquestra e, na primeira parte, a orquestra interpretou temas dos Delfins com convidados como o Tim (dos Xutos e Pontapés), Olavo Bilac, Miguel Gameiro, mtas também o Héber Marques e a Joana Espadinha. Ou seja, foi um concerto com gente de outras gerações de músicos. Aquilo correu tão bem que houve logo uma agência. Aliás, houve mais que uma, mas houve uma agência que nos fez uma proposta muito boa para o reencontro dos Delfins em alguns espetáculos especiais. Não para dar continuidade à carreira e não para um disco novo. Isso está fora de questão. Estava planeada uma digressão de celebração que arrancava no Rock in Rio Lisboa mas passou tudo para 2021, mas vai existir À mesma. Digo-te que, provavelmente, ia ter um dos meus melhores anos, em termos de concertos, dos últimos 10, 15 anos, porque ia ter os Delfins, ia ter os [concertos dos] Resistência com 20 e poucas datas no verão, e também as também do promoção do Nova (pop). Foi por água abaixo…

Considero mais que essas datas ficaram em suspenso…

Sim exacto. Foi por água abaixo, mas depois vai ter ao caudal do rio. Dou-me bem com esta espécie de esquizofrenia pop [risos] De despir a roupa preta da Resistência e pôr os óculos de sol dos Delfins e depois vestir as cores do [Filipe] Sambado e do Chinaskee. Gosto dessa mutação que a música nos obriga…

É um cameleão, portanto.

Muitos dos artistas que gosto, mesmo a nível internacional são assim cameleónicos. Mas aqui em Portugal, repara: o país é pequeno. Se não arranjas coisas diferentes, cais numa monotonia artística, mesmo em termos de criação, o que acho que é uma coisa pouca saudável, pelo menos para alguém que queira estar cá [na indústria].

Voltermos atrás numa ideia que proferiu relativamente ao facto de já tocar para gerações mais novas e de querer reinventar-se musicalmente. Acha que por ter sido a voz do Woody [da franquia Toy Story], dificultou as pessoas mais novas de quererem ouvir novas canções suas? Se me permite fazer um aparte: tenho 28 anos e eu cresci a ouvir a sua voz associado ao Woody.

É verdade, sim.

Não me leve a mal o que vou dizer: para mim, é um pouco estranho ouvir a voz do Woody em canções dos Delfins.

Não levo a mal [risos] É engraçado: estou-me lembrar de há uns anos, estava de férias no Minho e, na altura, quem tinha uma casa lá era o Jorge Romão, baixista dos GNR. Convidou-me para ir jantar à casa dele. O filho dele também é músico, mas ainda estudava no conservatório de Viana do Castelo. Chego a casa do Romão e tenho os três putos deles histéricos, porque o Woody ia lá jantar. Não era o Miguel Ângelo dos Delfins, mas sim o Woody [risos] Queriam que fizesse a voz e tirei fotografias com eles. Não tinha noção [do sucesso que o filme iria ter]. Eu aceitei aquilo [trabalhar como dobrador] como uma coisa divertida de fazer. Tinha filhos a crescer. Também já tenho filhos com 25 e 29 anos. Depois os meus filhos ouviam a minha voz na VHS do filme [risos] Ninguém fazia ideia do sucesso que iria ter. Aliás eu fiz outros filmes…

Sim. Foi o John Smith do filme Pocahontas da Disney.

Exactamente, mas o êxito que perdurou do Toy Story que já vai no quarto filme e tornou-se numa grandes séries de referência da Pixar e, posteriormente, da Disney. Na altura surgiu o convite, porque o Pocahontas tinha corrido bem e tinha feito sem experiência nenhuma. Fiz [esse trabalho] porque era “o gajo conhecido dos Delfins” e queriam chamar a atenção, como fazem até hoje. Vou fazendo sem tentar envelhecendo a voz do Woody e é divertidíssimo. Lembro-me também que quando foi [a estreia do] Toy Story 3, os meus filhos já com 20 e poucos anos estavam muito entusiasmados em irem à ante-estreia, assim como fomos agora para o quarto filme

Só quero fazer mais uma pergunta sobre a dobragem. Na altura, não pensou em usar um registo diferente da voz para o Woody? Foi algo que esteve nos planos ou usar a sua voz “normal” foi sempre o plano original?

A voz do Woody é um pouco mais excitada, em relação à minha voz normal. Se reparares, o John Smith do Pocahontas é a minha voz mais “cool” [risos] Existe uma certa colocação. Não sou um ator. Não consigo fazer 30 vozes. Posso dizer até que a escolha das vozes nem era feita em Portugal, mas sim na Disney em São Francisco [nos Estados Unidos]. Portanto houve um tipo que não conhecia ninguém. Só ouvia e dava o seu parecer de quem era mais indicado para o papel. Posso contar também aqui uma história engraçada: quando fui fazer o Pocahontas e sabia que era o Mel Gibson que fazia a voz do John Smith. No dia em que estava lá para fazer os testes na dobragem encontrava-se também o Fernando Pereira. O famoso “imitador”, cantor e que faz todas as vozes. O Fernando [Pereira] é incrível. E eu pensei: “estou lixado”  [risos] Ele vai fazer a voz do Mel Gibson em português e ganha isto. Curiosamente não foi isso que aconteceu. Depois percebi que eles não queriam vozes iguais à versão original. Queriam vozes que eram capazes de se “colar” às personagens.

Que interessante! Muito obrigado por partilhar essas histórias. Quero recordar um momento muito particular da carreira: quando estreou o primeiro Big Brother em Portugal há 20 anos, os Delfins cantaram o tema Vive, que fez parte da banda sonora desse programa. O Espalha-Factos vai fazer um podcast especial aos 20 anos desse programa e por isso quero perguntar: como foi o processo criativo por detrás dessa canção e que memórias tem desse período?

Na realidade, fizemos uma adaptação do original holandês. Escrevemos apenas a letra. Foi um formato incrível, para o mal e para o bem, que revolucionou a televisão. Repara que a MTV, que originalmente transmitia só videoclipes, seguiu também a tendência dos reality-shows. Tenho uma história engraçada: nós [Delfins] fomos os primeiros a entrar do primeiro Big Brother, porque gravámos lá imagens para o video clipe. Portanto, antes de entrar lá qualquer concorrente e o Fadigas, o nosso baixista, foi buscar uma galinha à capoeira. Atirou a galinha para o ar e disse: “voa agora voa!“. A galinha bate num poste onde tinha uma poste com uma câmera – mas não morreu – e suspeito que essa galinha era a tal galinha que nunca punha ovos. O Zé Maria [concorrente e vencedor do primeiro Big Brother] andava atrás dela. Se calhar ficou traumatizada quando o Rui Fadigas atirou-a para o ar. É capaz de ter sido isso…

Só mais uma pergunta sobre o Big Brother. Como foi atuar numa plataforma suspensa no ar por uma grua?

Foi engraçado. Nenhum de nós tinha vertigens e foi uma surpresa para os candidatos que já estavam lá na casa há tantos dias. Coitados. Estavam em confinamento [risos]. Lembro-me das caras deles enquanto nós descíamos. Tinha o microfone ligado mas o resto foi em playback. Parece que foi há 100 anos.

Foi noutra vida quase…

Pois [risos].

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