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Jesse Eisenberg e Imogen Poots em "Vivarium" | Fonte: IndieLisboa

IndieLisboa 2020: A metáfora da vida nos subúrbios em ‘Vivarium’

Vivarium, a nova longa-metragem de Lorcan Finnegan, estreou esta quarta-feira (2) no IndieLisboa. O filme insere-se na secção Boca do Inferno, onde são “programados filmes desconcertantes, temas fracturantes, obras que serão melhor compreendidas (e digeridas) sob o signo da meia-noite“.

Em Vivarium, Imogen Poots (The Art of Self DefenceGreen Room) é Gemma Jesse Eisenberg (The Social Network Now You See Me) é Tom. Ela é professora da primária, ele é jardineiro e juntos formam um jovem casal pronto para dar o próximo passo na relação: comprar uma casa. Tomam a decisão mais lógica e vão até uma imobiliária, mas o que lá encontram está bastante fora das suas expectativas. Maquetes de casas verdes alinhadas e caras felizes em cartazes que juram viver na melhor vizinhança do mundo espalhadas pela pequena sala. “É suficientemente perto, mas também suficientemente longe“, refere Martin, o agente imobiliário, com um sorriso forçado – Martin é esquisito, com habilidades de socialização muito duvidosas.

A partir daqui, o artigo contém spoilers

Gemma, Tom e Martin rumam até Yonder, um complexo imobiliário nos subúrbios onde as ruas labirínticas e inacabáveis são enfeitadas com casas verdes idênticas e quintais imaculadamente aparados. O agente imobiliário mostra os espaços da casa, incluindo o quarto do bebé, pintado de azul. Tom Gemma não têm um bebé, nem pensam nisso para já, mas Martin sublinha que é sempre melhor ter tudo preparado. A sós para inspecionar o jardim perfeito, o casal repara que o homem estranho desapareceu.

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A partir daí, a vida do casal torna-se uma espiral descendente e alucinante que corre à velocidade da luz. O ritmo do filme começa a descolar quando Gemma Tom pegam no carro para deixar Yonder e toda a sua esquisitice para trás apenas para descobrir que estão presos no labirinto de ruas infindáveis. Não importa o número de cruzamentos e curvas, não importa o condutor. Todos os caminhos vão dar à porta número 9, onde, após verificarem que já não têm gasolina, o casal acaba por ficar a dormir. Continuam a sua busca pela saída, sem sucesso, e acabam por queimar a casa, para que alguém os possa encontrar. De manhã, a casa volta ao seu estado normal, o verde claustrofóbico das paredes reluzindo à luz do sol falso. Nesse dia, recebem uma encomenda à porta de casa: um bebé, menino, para completar a família.  “Criem-no e serão libertos”, lê-se na tampa.

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Vivarium | Fonte: IMdB

O casal sucumbe à casa, passa o dia a magicar a fuga, mas os dias transformam-se em noites, que se transformam em semanas. Caixas de comida sem sabor aparecem à porta de casa, a meteorologia é sempre igual e nem uma brisa corre. As nuvens são como desenhadas, cada uma uma bolinha de algodão idêntica que paira sobre cada casa. O menino cresce mais rápido que os cães e ao 66.º dia é já um rapaz crescido, perfeito. Arrepiante. Fala com voz de adulto e passa o seu tempo livre a repetir aquilo que “os pais” conversam durante a noite, imitando as vozes de ambos e o choro da “mãe”. “Eu não sou a porra da tua mãe” é a fala recorrente de Gemma que, apesar do ódio que sente, tenta educar o rapaz, aproximar-se dele.

Não há sol. O sol era falso, o céu era falso, as nuvens eram falsas, a comida era falsa. Essencialmente, tudo está desprovido de natureza. Não há nada de natural ali. E tudo isto foi planeado desde o início, criar um ambiente que reflete a preocupação daquilo que pode vir a acontecer se a humanidade continuar a se distanciar do mundo natural.

 Lorcan Finnegan em entrevista ao Collider.

Tom começa a cavar no quintal, à procura de uma fuga subterrânea e torna-se obcecado com este projeto. Gemma continua a alimentar e educar o menino (que grita com todas as forças do seu ser quando tem fome e vê padrões estranhos na televisão – grita com igual fulgor quando ela é desligada).  Não sabemos nada sobre a origem desta criança mutante, nem para onde vai quando sai de casa durante o dia. É um alien, um ser de outro universo, deslocado. Ninguém o quer, mas terão de levar com ele a todo custo.

No fim, o filme mostra-nos uma série de outros casais, igualmente infelizes, presos em casas idênticas, com filhos tão creepy como o deles. Tom acaba por ficar doente (não sabemos como nem porquê, se do ambiente depressivo, se de cavar uma substância desconhecida como se não houvesse amanhã) e morre. A metáfora está ali: o jovem cavou a própria cova, e é nela enterrado. Gemma é atirada para o mesmo buraco, pouco depois, ainda com vida. “Eu não sou a porra da tua mãe”, diz uma última vez. O miúdo, agora adulto, tira o cabelo da frente dos olhos, como fazia a mãe, e diz exatamente aquilo que ela dizia quando irritada: “Que seja“.

Na cena que fecha o filme, vemos um Martin moribundo. O miúdo criado em Yonder substitui-o, pronto para causar terror ao próximo casal inocente, em busca de um novo lar para chamar de seu.

Vivarium: a crítica (demasiado) explícita à suburbia americana

A representação dos subúrbios no cinema americano não é novidade. Gone Girl, HappinessAmerican Beauty, The Truman Show são alguns dos filmes que criticam a consciência isolada da vida suburbana, de famílias que aparentemente são felizes na fachada, mas que, por trás da cercas de estacas brancas, vivem uma vida absolutamente deprimente. A crítica ao comodismo, à vida fácil e sem obstáculos, desafios ou percalços aparentes está fincada de maneiras muito características em cada um destes filmes. Com Vivarium não é diferente – esta longa-metragem critica o comodismo ao fazer com que as duas personagens principais se habituassem com a vizinhança assombrada, com um filho mutante e absolutamente demoníaco.

Tentámos criar um monstro relevante para a história, mas que ao mesmo tempo representasse o capitalismo consumista e tudo isso.

O filme critica a falta de originalidade, a claustrofobia das casas idênticas, pré-fabricadas, a preguiça de pensar. Mas muitas destas críticas esgotam-se em si próprias, tal como a exaustão sofrida por Tom Gemma se esgota em obsessões inócuas. O filme é como um episódio de The Twilight Zone, onde o jovem casal troca a cidade pelos subúrbios e perdem-se a si próprios no processo de se “normalizarem”. O que salva a narrativa, muitas vezes furada, é a performance de Imogen Poots, que oferece uma atuação brilhante e crua, e a química entre esta e Eisenberg – a sua química é inevitável, e talvez seja por isso que já seja a terceira vez que contracenam. Vivarium é aprazível, com comédia onde a comédia cabe, e terror quando é preciso, mas não é memorável.

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