Michaela Coel em I May Destroy You

Crítica. ‘I May Destroy You’: Uma ode a quem luta por justiça

Aviso: Este artigo aborda temas como violência sexual, abuso e consentimento, presentes no enredo da série I May Destroy You. Pode ter spoilers.

Michaela Coel é uma força da natureza e I May Destroy You vem provar isso. Sem se contar, a atriz, argumentista e realizadora lutou por merecer o lugar onde está hoje, numa indústria que ainda não estava preparada para ela.

Aos 28 anos levou um BAFTA para casa pela aclamada série que criou, escreveu e protagonizou. Chewing Gum foi um game changer para Michaela e colocou-a no pódio onde poucos chegam em tão pouco tempo. De académica a prodígio do cinema, a mente brilhante de Coel deveria estar numa espécie de vitrine vigiada cuidadosamente de tão valiosa que é.

Em 2020 voltou aos ecrãs com um dos melhores projetos do ano. I May Destroy You, da BBC e HBO, promete arrasar com as premiações. Com um argumento fenomenal e um elenco que consegue passar as emoções para quem está deste lado, a aclamada série não se compara de forma alguma a projetos anteriores. No passado, Coel passou por Black Mirror, Black Earth Rising e No Ritmo da Sedução. Nenhum tão honesto e poderoso como o novo projeto. Com apenas 12 episódios, I May Destroy You mostrou o porquê de Michaela ser uma das melhores e mais importantes argumentistas da sua geração.

 

O poder da voz de Coel

A série que está disponível na HBO Portugal é difícil de descrever. I May Destroy You mostra nada mais nada menos que a realidade, mas de forma crua e verdadeira. É uma série que nos faz questionar interações sexuais passadas e pensar nas futuras. É uma série que explora os diferentes tipos de sexo que muitos categorizam como “excelente, bom, péssimo e não quero repetir”. Saliente-se o “não quero repetir”, que por muitas vezes esconde as experiências mais desconfortáveis e talvez dolorosas. A série de Coel faz com que se pense no “não quero repetir” e se chegue a uma questão: foi ou não foi? Ao longo da série essa resposta provavelmente chegará.

O projeto pode também ser descrito como uma viagem atribulada pelos conceitos de poder, orientação sexual e raça. Uma viagem que desconstrói ideias e coloca questões. Uma viagem dolorosa e crua que mostra o que é navegar pelo trauma enquanto mulher negra. Além disso, à luz dos acontecimentos recentes nos Estados Unidos, Coel vem mostrar que há espaço para mulheres negras no ecrã. Vem redefinir o que é ser uma mulher negra no ecrã. Vem mostrar que é possível haver uma série, num canal premiado, onde o elenco é maioritariamente negro.

O consentimento e a destruição

Mas se nos ficarmos pelo básico, podemos afirmar que I May Destroy You é sobre consentimento. Uma palavra que significa o “ato ou efeito de consentir”; “manifestação que autoriza a algo” ou até “ordem”.  Michaela Coel não se foca na definição da palavra. Pelo contrário, a série foca-se no que acontece quando nos é retirado o direito de decidir se queremos algo ou não e o caminho que se percorre depois de se assimilar tudo isso. Há duas questões que se levantam mal lemos o nome dado à série, que porventura serão também respondidas até ao fim. Quem destrói quem? E o que se destrói?

É tudo isso que torna a série no que realmente é. I May Destroy You tornou-se instantaneamente num dos melhores projetos televisivos de 2020. Lá, Coel, que criou, escreveu, co-realizou e protagonizou a série, interpreta Arabella. Também conhecida por Bella, esta é uma estrela do Twitter que teve a oportunidade de editar um livro, Chronicles of a Fed-Up Millennial. Agora, com a editora e um prazo a bater à porta, está com dificuldades em terminar o sucessor. É desta forma que somos apresentados à personagem principal da série, que em muito e, ao mesmo tempo em nada, se parece com Coel.

Numa corrida contra o tempo, Arabella tenta terminar o rascunho do segundo livro, mas nada está a correr como esperado e por isso decide fazer uma pausa. A pausa é a resposta a um convite aliciante de amigos para sair e se divertir um pouco. Com a intenção de voltar cedo a casa, Bella acaba por passar a noite fora de casa. Bebida, droga, dança e pessoas desconhecidas.

De manhã, já regressada da sua aventura noturna, a escritora está em frente ao seu computador. Confusa e com uma ferida na cabeça não consegue perceber como chegou até casa. Quando ouve o ranger de uma porta há uma imagem que consegue visualizar. Um homem, que a agarra pelas ancas enquanto está debruçada sobre a sanita do bar onde passou a noite. É aí que percebe que talvez tenha bebido e tenha sido drogada.

A série introduz-nos nestas primeiras cenas ao que será a premissa de toda a obra. Navegar o mundo do consentimento. I May Destroy You é excelente a explorar os diferentes tipos de trauma e como é que estes se manifestam e também ao mostrar os diferentes tipos de abuso sexual. Ao longo da série, entende-se que Bella não está sozinha nesta viagem. Questões começam a aparecer também aos seus amigos, Terry e Kwame, que tal como a personagem principal foram vítimas de abusos.

Paapa Essiedu como Kwame, Weruche Opia como Terry e Michaela Coel como Arabella em I May Destroy you
Paapa Essiedu como Kwame, Weruche Opia como Terry e Michaela Coel como Arabella em ‘I May Destroy You’ (HBO Portugal)

Entre o trauma e a amizade na procura de respostas

A percorrer o complexo passeio dos 30 anos, a aspirante a atriz, interpretada por Weruche Opia, e o instrutor de ginástica protagonizado por Paapa Essiedu, estão a lidar com o seu próprio trauma, numa altura em que precisam de estar atentos à sua amiga. Mas mesmo com todos os problemas, a amizade dos três consegue sobreviver. É algo que nos faz sorrir no meio de toda a trama. São, de certa forma, a família uns dos outros. I May Destroy You explora a amizade como algo unificador e necessário para o processo de “cura” de cada uma das personagens, em vez de optar pelas normais zangas. Cada um deles tem o seu espaço e não somos levados a conhecer apenas os obstáculos de Arabella, mas dos três.

No processo de compreender o que se passa, os três repensam as suas interações. Há muito espaço para interpretações, mas a resposta é apenas uma: sim, foi violação. Esta afirmação aplica-se pelo menos ao caso de Kwame, que depois de ter sexo com um homem, é forçado a fazê-lo de novo, mesmo contra a sua vontade. Kwame não fala do assunto a ninguém, depois de se sentir humilhado por não conseguir ser ajudado pelas forças de segurança. A série aproveita esse momento para iniciar conversas sobre como a violação em homens é tida em conta, principalmente quando estes são homossexuais e negros. I May Destroy You mostra assim a dor de entender o que aconteceu e processar algo que estará lá para toda a vida.

Nos restantes episódios, acompanhamos Arabella a tentar juntar as peças do puzzle que ainda não está completo. A busca pela resposta torna-se cansativa e pedir ajuda também. Enquanto isso acontece, o mundo não para e a vida lá fora continua. Mas quanto mais nos vamos aproximando do final, mais o coração bate. O de quem vê e o das personagens. E é nisso que I May Destroy You é bom. Os acontecimentos são encadeados de forma a que o espectador tenha tempo de respirar, mas não pare de sentir aquele aperto no coração.

As várias formas de abuso sexual

O conceito de consentimento, mote dos episódios de 30 minutos, continua a ser explorado. Ainda confusa com toda a situação, Arabella tenta voltar à “normalidade” e continua a ter encontros casuais. Numa conversa com a agente da polícia responsável pelo seu caso, Bella diz: “há tantos tipos de abuso sexual”, algo que incide exatamente sobre o ponto da série. Depois, volta a ser abusada sexualmente. Mas ao início tudo é confuso — será que foi, será que não? Mais uma vez, a resposta é sim. Depois de uma conversa com a mesma agente, a escritora entende que se um homem tirar o preservativo discretamente durante o ato sexual isso é abuso sexual. Arabella, em vez de categorizar todas suas relações da mesma forma, aprende a desconstruí-las e entendê-las.

Tudo se torna mais fácil de entender com a música que age como papel de parede da série e conduz as emoções do público. Através da soundtrack do projeto tornamo-nos mais sensíveis e receptíveis em relação à dor de Arabella e restantes personagens.

Uma ode a quem sofreu sem direito a justiça

O fim da série torna-se grandioso. Depois de 11 episódios, o espectador anseia por justiça e respostas. Respostas que chegam de forma lenta e vaga. Quem destrói quem? É o violador que destrói a vida das vítimas? A vítima quando consegue justiça, consegue recuperar da dor e falar do assunto e, dessa forma, destrói quem lhe causou tanto sofrimento? Ou a destruição acontece a todos por não confrontarmos todas as experiências da categoria “não quero repetir”, por não as vermos como realmente são? O fim de I May Destroy You mostra o que queremos e não queremos ver e faz justiça por aqueles que não a tiveram.

Final de I May Destroy You

Apesar de arrebatadora e difícil de ver, I May Destroy You é uma série educativa, que explora a diferença entre querer, não querer e arrepender-se de algo. A série de Coel inicia conversações e mostra um lado vulnerável, mas forte e pouco romantizado de algo sério e que poucas vezes se vê representado desta forma. A co-produção do canal britânico e americano é uma obra extraordinária, relevante e de tirar a respiração, com pequenos momentos de humor que nos tiram a tristeza de cima, mas não deixam que esqueçamos o que vimos e ouvimos. É uma série que dá espaço a atores e personagens negras bem construídas que não aparecem para ser o melhor amigo ou dizer uma fala. É um projeto que reconhece traumas, o que é a sexualidade e como esta se manifesta e a complexidade das relações.

Michaela Coel, mais uma vez, está de parabéns pelo magnífico projeto que montou. Um trabalho que apesar de ser claramente sobre consentimento continua a ser difícil de descrever. Uma série que se foca no processo de renascer e saber viver depois de uma experiência traumática. I May Destroy You é uma ode a todos os que sofreram e quiseram vingança, mas não a tiveram.

Recursos e linhas de apoio em Portugal

APAV – Linha de Apoio à Vítima: 116 006

ILGA – Linha LGBT: 218 873 922/ 969 239 229

Associação de Mulheres Contra a Violência: 21 3802160

Michaela Coel em I May Destroy You
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