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A Chuva Acalanta a Dor, de Leonardo Mouramateus | IndieLisboa

IndieLisboa 2020: Festival demonstra apoio às alegadas vítimas de Gustavo Beck

No passado dia 28 de agosto, a publicação online de jornalismo investigativo, The Intercept, publicou uma peça sobre 16 mulheres que acusaram Gustavo Beck, curador e programador de diversos festivais de cinema, incluindo, outrora, o IndieLisboa, de abuso sexual. Entretanto, Beck já se manifestou com um depoimento publicado no mesmo órgão de comunicação social, negando “incondicionalmente todas as acusações”. 

Na sessão de Curtas inseridas na Competição Nacional do IndieLisboa, o realizador de A chuva acalanta a dor, Leonardo Mouramateus, leu uma carta referente à situação, onde pediu que “quando o nome de Gustavo Beck aparecer nesta tela, é importante refletirmos sobre as estruturas de poder, sexual e de género” não só na indústria cinematográfica, mas em todas as outras. Esta carta deve-se ao facto de a produtora de Beck, If You Hold a Stone, ter estado envolvida na produção da curta-metragem de Mouramateus. O realizador mostrou, ainda, total solidariedade para com as vítimas e louvou a coragem de exporem experiências traumáticas perante uma sociedade tão julgadora.

O programador do IndieLisboa que apresentou a sessão também deixou algumas palavras de solidariedade para com as vítimas e sublinhou que o Indie, tendo sempre exibido filmes de realizadores das mais variadas etnias, nacionalidades, credos, orientação sexual e género, e sobretudo, filmes que retratam as dificuldades de pessoas em posições de fragilidade, não poderia deixar de se manifestar acerca das acusações ao ex-programador do festival.

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Competição Nacional de Curtas: sinestesia intensa, uma adaptação de Marcel Schwob e uma homenagem a um tomateiro

Iniciada a sessão, ficámos a conhecer cinco curtas-metragens nacionais: Mein Liebe, RegadaA MordidaCarnageA Chuva acalanta a dor. A primeira, de autoria de Clara Jost, é um “filme simples” de homenagem ao seu tomateiro, que viveu tempo suficiente para dar um fruto. Os seis minutos de filme acompanha os primeiros momentos de vida do tomateiro num vaso demasiado pequeno para a sua envergadura. Regada, de Francisco Janes, é sinestesia pura – a imagem escura e granulada e o áudio igualmente pesado invadem a sala de cinema para narrar o pós-incêndio na Serra do Açor, onde a família de Rafael Torral planta, cuida da terra e remove as árvores queimadas.

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Meine Liebe, de Clara Jost | Fonte: IndieLisboa

A Mordida seria distópico se não estivéssemos a viver no meio de uma pandemia. Realizado por Pedro Neves Marques (Semente ExterminadoraA arte que faz mal à vista), este filme foi apresentado pela primeira vez numa instalação de uma galeria de arte. O salto entre os diferentes espaços e formatos é algo que interessa a Neves Marques, que apresenta esta história aterrorizante sobre uma epidemia transmitida por mosquitos geneticamente modificados em laboratório. Ao mesmo tempo que uma guerra entre em erupção, o amor resiste na figura de um casal poliamoroso e não-binário, colidindo com as leis aplicadas à natureza narrada que é imposta. A curta é acompanhada por uma banda sonora aterradora da autoria de HAUT.

Basta um passeio pelo centro de Manhattan, na movimentada e barulhenta Midtown, para ouvirmos o som de edifícios a serem construídos em blocos vazios, no chão, que vão dar nascimento a novos pencil towers”, escrevia Francisco Valente no Público, em março de 2020. Emigrado em Nova Iorque, o realizador, que já foi programador do IndieLisboa, apresenta agora Carnage, um filme que ilustra exatamente o frenesi da cidade americana conhecida pelos arranha-céus e pela multiculturalidade. Neste filme contemporâneo, filmado já na altura da pandemia, as suas imagens são de alguns dos cartões postais mais icónicos de Nova Iorque, como o Times Square, as pencil towers e as construções que parecem ser intermináveis. O som por vezes é barulho, obras e movimento, e noutras é composto por excertos jornalísticos sobre Donald Trump, sobre a política dos Estados Unidos e o muro que o atual presidente prometeu construir.

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Carnage, de Francisco Valente | Fonte: IndieLisboa

O último filme da sessão é o de Mouramateus, depois de uma alteração no alinhamento. A chuva acalanta a dor é uma adaptação livre dos contos de Marcel Schwob sobre o poeta e filósofo romano Lucrécio. No início da curta-metragem, Lucrécio e Mêmio preparam-se para ir estudar para Grécia, à espera de mudanças transformadoras nas suas vidas. Na segunda parte, Lucrécio está de volta à sua terra, casado e perturbado com os acontecimentos da sua fase de estudante. Os seus pensamentos assombram-no, impossibilitando-o de amar. Mouramateus comentou que neste filme, como em todos os que já realizou, as questões autobiográficas, os seus desejos e medos, são indispensáveis e que A chuva acalanta a dor é, sobretudo, um filme sobre o medo de morrer. Declara, ainda, que a estrutura que pretende fazer é um novo jeito de pensar em Portugal e de como é ser latino-americano no país. O realizador brasileiro concebeu esta curta com atores portugueses, apenas em localidades portuguesas, como a Tapada de Mafra, e diz que o desafio de encaixar estas duas realidades é muito importante para o seu processo de criação.

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A chuva acalanta a dor | Fonte: IFFRhttps://iffr.com/en/2020/films/a-chuva-acalanta-a-dor

 

 

 

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