Créditos: Christine Hahn

Smile e o paradoxo de Katy Perry: uma titã da pop que já não é ouvida

Katy Perry editou Smile esta sexta-feira (28), tentando encontrar o seu lugar entre a sombra da mega pop-star e a liberdade de um auditório mais pequeno.

Uma das mega pop-stars da pop da última década está a ter uma semana especialmente agitada: o seu álbum definidor fez dez anos (Teenage Dream), deu à luz a sua primeira filha (Daisy Dove Bloom) e edita o seu quinto disco de originais.

Smile é o quinto disco de originais da cantora americana, seguindo-se a Witness (2017). Assume-se como um disco tanto de passagem como de retrospetiva: ao mesmo tempo que repete fórmulas de todos os seus discos anteriores (e daí retrospetivo), é também eficaz no seu principal propósito, o de colocar um ponto final ao legado de Witness e o passar de testemunho no mundo da pop. É um ponto final à personagem da mega-pop-star.

Perry sabe que provavelmente não voltará aos lugares cimeiros da pop onde esteve a dominar — com espantosa facilidade — em toda a primeira parte da década de 2010, com os lançamentos de Teenage Dream e Prism, alcançado a primeira posição na tabela da Billboard semana sim, semana não.

Este Smile chega agora numa fase diferente na carreira da artista. São raras as canções que se dão bem nas tabelas e números, mas ao mesmo tempo, Perry nunca esteve tão certa de que não precisa mais de se provar em números, a artista já faz o seu percurso fora deles.

Créditos: Divulgação.

O disco inaugura uma nova era na carreira da artista, uma era que se revela mais honesta e com músicas que realmente quer editar: a intimidade nas letras de Daisies e Only Love, a experimentação melódica e sonora em Never Really Over, a típica canção inspiradora em Smile e Resilience, os slows em Harleys in Hawaii e os bangers em Cry About It Later e Not the End of the World. Smile é um conjunto de 12 faixas — por vezes pouco coesas entre si — que vai buscar fórmulas dos álbuns antigos e juntos perfilham um possível novo caminho para a artista. 

Nesta mixórdia de sonoridades e tempos, não há propriamente nada de muito novo que Katy Perry já não nos tenha oferecido antes. Nesse aspeto, Witness foi um álbum bem mais inovador na discografia da cantora americana, mas é também neste trabalho do familiar em que a artista sempre navegou: criar autênticos hinos pop que não nos saem da cabeça durante horas. Smile tem aquela particularidade do Teenage Dream e Prism que Witness não conseguiu alcançar, o de poder escolher facilmente qualquer uma das suas faixas para single. Todas elas têm uma sonoridade fácil de ouvir e indiscutivelmente ainda mais fácil de entrar na cabeça.

Smile começa com Never Really Over, uma canção lançada no início do verão de 2019 e que ainda hoje soa como a pop atual se quer: desempoirada, vibrante e audaciosa. É talvez a melhor canção deste disco, entre a utilização de samples inovadores (empréstimo de Dagny e da frescura da pop escandinava), melodias vincadas, métricas estranhas (robótica e estática ao mesmo tempo) e a voz de Perry, que usa e abusa das notas altas. É uma das canções pop mais interessantes feitas nos últimos anos, um excelente lead single e talvez das melhores canções que a artista alguma vez lançou.

Do extâse de Never Really Over passamos para o Cry About It Later, um claro caso de “canção à espera de ser single”. Em tom repetitivo na letra, Perry comanda esta canção como qualquer seu antigo êxito de Teenage Dream e é provavelmente a faixa com maior potencial de se tornar algo maior que o próprio disco. Numa ambiência nostálgica das pistas de dança dos anos 70-80 (um tema que bem podia fazer parte do Future Nostalgia da Dua Lipa), a canção cria um ritmo a que se é difícil ficar indiferente, culminando num solo de guitarra entre coros que talvez se torna na maior surpresa sonora de Perry neste disco.

Segue-se Teary Eyes, repetindo algumas fórmulas de Prism: ritmada, cheia de coros, mas altamente esquecível. Chega Daisies e chegamos também à intimidade de Perry, uma letra que celebra a sua vida e o facto de gerar outra. É uma canção luminosa que é diretamente a continuação de Never Really Over. As duas, entre si, encontram uma coesão e contam uma história que podia ser um disco diferente por si só.

Chegamos a Resilient, tema que parece ser onde Perry tomou mais atenção na sua escrita, mas que acaba por não resultar tão bem, melodicamente, como o resto do disco. Not the End of the World recupera o imaginário de Dark Horse e Black Widow, traz-nos novamente a artista dos singles e desperta-nos a atenção.

A sétima faixa é a que dá nome ao disco, Smile, que é basicamente o Roar deste álbum: uma música tão alegre sobre resiliência que se torna inevitavelmente ingénua. É um tema que recupera talvez o que Perry mais gosta de fazer, canções sobre ultrapassar os problemas e ser o seu “verdadeiro-eu”, mas é também a canção que soa mais datada de todo o disco.

Champagne Problems e Tucked seguem-se ritmadas e chegamos a Harleys in Hawaii, a canção lenta do disco para dançar agarrado a alguém – num futuro pós-covid. É a sensualidade a picar ponto neste trabalho, num tema que parece entrar e sair como uma suave brisa havaiana no disco: sempre que oiço é de uma incrível textura e frescura (até reconfortante), mas quando avanço esqueço-me do quão agradável foi. É um momento étereo, mas que se desvanece na memória.

Rapidamente se chega ao ato final do disco, Only Love e What Makes a Woman são músicas que se conectam entre si por serem também as que demonstram uma maior maturidade de Perry enquanto artista e o trajeto que, provavelmente, a artista irá tomar daqui para a frente: um pop mais melódico, menos espalhafatoso e com mais atenção à letra. Only Love cria as melhores melodias do disco, um registo algo mais próximo do típico trabalho de vozes em discos de Taylor Swift (Lover e 1989), que propriamente de Katy Perry. What Makes a Woman é aquela canção que a artista sempre quis fazer e que pode também indicar um caminho para o tão aguardado disco de acústicos que Perry sempre quis lançar.

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Smile é um disco que, mesmo curto, é bastante completo em termos de sonoridade e referências ao seu antigo repertório. Acima de tudo, é composto apenas por canções que Perry quis genuinamente meter num disco, sem olhar a obrigatoriedades com charts e diria até, coesão. 

Nas redes sociais, a artista diz que “finalmente tem o seu sorriso (smile) de volta” e, de facto, este disco é talvez o seu mais íntimo, pelo menos é aquele que permite colocar um ponto final à titã da pop e lhe abre as portas para projetos mais pessoais: do acústico ao retorno do sarcasmo do One of the Boys, ou até a algo completamente diferente.

Smile nasce e cresce no meio de uma dicotomia interessante, mas potencialmente não abonatória: entre ser tão íntimo da vida pessoal de Katy Perry e nascer daí uma vontade extra da artista em gritá-lo aos quatro cantos do mundo, vive-se também um momento peculiar de viragem na perceção do que é uma estrela pop.

Smile é construído pelo paradoxo entre ser o disco da sua carreira que possivelmente menos pessoas vão ouvir, mas que a artista mais teve vontade de mostrar. 

No entanto, Katy Perry tem agora as portas completamente escancaradas para um futuro em que já não está agrilhoada a uma imagem e personagem à qual não se identifica. Está agora verdadeiramente livre para fazer o que realmente lhe der na gana com os próximos discos e nada é mais entusiasmante que fazer música sem nada para provar.

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