Morangos Com Açúcar
Fotografia: D.R.

‘Morangos com Açúcar’ estreou há 17 anos. Um fenómeno “que arriscou e conquistou”

É o fruto proibido que tu vais querer provar. A letra dava o mote de partida à primeira temporada de Morangos com Açúcar, que estreava a 30 de agosto de 2003, há precisamente 17 anos, na TVI. A série abriu portas no mundo da representação a muitos jovens atores e não tardou a tornar-se um fenómeno.

O produto de ficção juvenil contou com nove temporadas, fechando um ciclo de nove anos no dia 15 de setembro de 2012. Passam agora quase oito anos desde a despedida. Foi considerada a versão portuguesa de Malhação, a aposta juvenil da Globo, que conheceu, até ao momento, 27 temporadas.

A série chegou a alcançar mais de 40 pontos percentuais de share, motivando vários artigos e estudos acerca do sucesso e da influência sobre o público mais jovem. 17 anos depois do arranque do fenómeno, o Espalha-Factos ouviu fãs da série, uma investigadora e uma das argumentistas para tentar perceber a razão do sucesso.

“Foi um produto diferente que arriscou e que conquistou”

O enredo de Morangos com Açúcar girava em torno do quotidiano de estudantes adolescentes, durante o ano letivo e, depois, nas férias de verão. Esse é mesmo um dos fatores de ligação apontados por uma das fãs da série, Diana Mendes: “Obviamente que, como era mais nova, cativavam-me as histórias de amor das personagens, principalmente das personagens principais… O facto de terem uma vida ‘parecida’ à minha no sentido em que eram estudantes“.

As temáticas abordadas pela série – algumas até então novidade para o público-alvo – são apontadas como motivo de interesse por Pedro Quintão. “Numa visão artística, as diversas narrativas também me cativavam, pois temas como triângulos amorosos, relacionamentos entre adolescentes, drogas ou sexualidade eram novidade para mim. Existia sempre uma certa curiosidade em saber o desfecho dessas histórias”.

Diogo Amaral, Benedita Pereira e João Catarré
Diogo Amaral, Benedita Pereira e João Catarré lideravam o elenco da primeira temporada. | Fotografia: D.R.

Lígia Dias, uma das responsáveis pela construção do guião de Morangos com Açúcar, frisa precisamente “a novidade que foi enquanto produto, assim como a irreverência e actualidade dos temas abordados“. “Foi um produto diferente que arriscou e que conquistou“, considera.

O jovem Pedro Quintão salienta também o acompanhamento do produto de ficção pelos pares: “Todos os intervalos comentávamos o que se tinha passado no episódio anterior e criávamos teorias sobre o desenvolvimento das histórias que compunham cada temporada“.

Morangos com Açúcar
O ‘Colégio da Barra’ foi palco da série nas três primeiras temporadas. Fotografia: Reprodução/YouTube

Martim Serradas, também antigo admirador da série, aponta a “iniciação no mundo da televisão por parte de tantos jovens” como um dos fatores que o cativou. A série serviu como uma escola de atores, sendo que muitos dos jovens atores que se iniciaram em Morangos com Açúcar continuam hoje em dia a fazer parte de produtos de ficção nacional.

A série veio preencher uma lacuna que se sentia na televisão portuguesa: a ausência de produtos de ficção juvenil em língua portuguesa. Isso mesmo salienta a investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, Sara Pereira: “O sucesso da série tem necessariamente de ser considerado à luz da oferta mediática para adolescentes há 17 anos, que era muito incipiente“.

A investigadora lista “um conjunto de ingredientes” que atrai este público: “A série seguia muito de perto os ritmos quotidianos das crianças e jovens portugueses, por exemplo, entrava em férias quando eles também entravam, retratava os quotidianos escolares e contextos familiares, criando narrativas que lhes eram próximas. A ação, a narrativa, as personagens jovens, as intrigas, os conflitos, os assuntos abordados foram ingredientes que contribuíram para o sucesso da série“.

Morangos eram “uma espécie de influencers em 2003”

O sucesso de Morangos com Açúcar suscitou preocupação de pais e investigadores quanto à capacidade de influência sobre os mais novos, um público-alvo tipicamente considerado como mais vulnerável aos apelos da comunicação.

A série chegou mesmo a ser alvo de estudo numa revista científica norte-americana. Em causa estava a replicação, por parte dos jovens que assistiam a série, de sintomas de uma doença fictícia que tinha estado presente, semanas antes, no produto de ficção.

Morangos com Açúcar
O vírus que assolou o ‘Colégio da Barra’ foi motivo de estudo. | Fotografia: Reprodução/YouTube

Os comportamentos das personagens, as suas relações, gostos pessoais, roupas e músicas moldaram um pouco a minha personalidade e os meus gostos na época”, afirma Pedro Quintão. O jovem considera que “era praticamente como se os alunos do Colégio da Barra fossem uma espécie de influencers em 2003“. Também para Diana Mendes, a série incutia o desejo de “ter uma vida como a deles… desejar tanto até ao ponto de imitar penteados iguais aos das personagens“, revela.

Apesar de admitir que o público mais novo, sobretudo crianças e adolescentes, pode “ser considerado um público vulnerável pelas suas características desenvolvimentais“, a investigadora Sara Pereira alerta que “não podemos generalizar o seu impacto ou a sua influência porque dependeram de muitos fatores“.

É certo que se verificou, em alguns contextos (alguns deles eram os recreios das escolas), um certo mimetismo da série, sobretudo de comportamentos de algumas personagens, da sua linguagem, do modo como falavam uns com os outros, etc., mas em muitos casos eram isso mesmo, comportamentos de imitação que, no caso dos mais novos, faz parte do seu desenvolvimento“, explica.

Para lá do fenómeno, “alguns momentos menos bem conseguidos

Como qualquer produto de ficção, também Morangos com Açúcar teve pontos menos positivos. Martim Serradas destaca “alguns momentos menos bem conseguidos com a abordagem muito focada para combater a violência e as drogas“.

A investigadora Sara Pereira considera que “nem sempre houve cuidado no modo como esses assuntos [abordados na série] eram tratados, levando muitas vezes a uma certa naturalização ou banalização dos mesmos“. Não estavam apenas em causa “temas que podiam ser considerados mais controversos“; também “a amizade e a relação entre amigos, por exemplo, nem sempre foram bem tratadas na série, houve momentos de grande desvalorização do valor da amizade, do valer tudo para se conseguir o que se quer, sem quaisquer consequências“, refere.

Pedro Teixeira e Cláudia Vieira
As relações amorosas eram uma marca do roteiro da série. | Fotografia: Reprodução/YouTube

Pedro Quintão revela ter deixado de acompanhar a série a partir da quarta temporada. “As novas personagens e tramas acabavam por ser revelar como reciclagens de elementos já vistos e explorados anteriormente“, aponta, a par da perceção da disparidade entre o retratado e a realidade.

A missão de “incorporar futuros profissionais na área

Certo é que Morangos com Açúcar proporcionou a formação televisiva de uma nova geração de atores, muitos deles ainda presentes atualmente na ficção nacional.

Pedro Teixeira, Sara Matos e Lourenço Ortigão são disso exemplo – tiveram a sua estreia em televisão na série juvenil, estando atualmente presentes no pequeno ecrã. A ligação criada entre as personagens na série e os telespetadores levou a que muitos procurassem continuar a acompanhar a carreira dos vários atores.

Lourenço Ortigão e Sara Matos
Lourenço Ortigão e Sara Matos estrearam-se na sétima temporada da série.

Isso mesmo frisa Pedro Quintão: “O elenco de Morangos com Açúcar marcou a minha pré-adolescência“. O jovem confessa que “queria ser como eles e pretendia continuar a acompanhá-los em novas personagens“, revelando que se lembra “de ter assistido a Doce Fugitiva porque adorava a Rita Pereira e a Mariana Monteiro“.

Apesar de admitir que não vê novelas nem programas portugueses, Martim Serradas frisa que procurou “sempre acompanhar o percurso de algumas personagens” que lhe iam despertando interesse. A escola dos Morangos com Açúcar é forte e conhecida por incorporar futuros profissionais na área, aponta.

O sucesso de Morangos com Açúcar não tem sido esquecido pela direção do canal, que chegou mesmo a anunciar o regresso da série, com uma nova temporada em 2019. Depois de terem sido realizadas algumas audições para o elenco, o regresso da aposta juvenil de Queluz de Baixo foi dado como adiado, não mais tendo saído da gaveta.

Os três fãs têm sentimentos diferentes quanto a uma possível continuação da série no futuro. “Teria que me cativar novamente para conseguir acompanhar novamente de início a fim“, revela Diana Mendes. “A série estreou na melhor altura para ter sucesso e acredito que se fosse hoje não teria o mesmo impacto“, considera Martim Serradas. “Possuo excelentes memórias de Morangos com Açúcar, mas jamais voltaria a acompanhar se não possuísse outra densidade dramática“, afirma Pedro Quintão, que salienta que “atualmente temos séries mais realistas, adultas, obscuras, violentas ou até mesmo mais sexualizadas como o público-alvo exige“.

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