Ingrid Bergman

105 anos de Ingrid Bergman. De desconhecida a princesa de Hollywood

O Espalha-Factos celebra o 105º aniversário do nascimento de uma das mais aclamadas atrizes da sétima arte com uma retrospetiva da sua carreira e dos filmes que a marcaram.

Há 105 anos, no dia 29 de agosto, nascia Ingrid Bergman, uma das mais conceituadas atrizes da história do cinema. Em celebração da data, o Espalha-Factos faz uma pequena retrospetiva da carreira de uma das grandes caras da sétima arte.

O início de carreira na Suécia

Filha de mãe alemã e de pai sueco, ambos falecidos durante a sua infância, a jovem Ingrid rapidamente encontrou conforto nas artes. Após terminar o liceu, Ingrid ingressou na Dramaten, a escola de teatro dramático sueca, onde apenas esteve durante um ano. A sua saída, de uma das mais prestigiadas escolas de teatro, foi motivada pelo desejo de Bergman em entrar na indústria cinematográfica sueca, feito conseguido através do seu tio, que a colocou em contacto com a atriz e realizadora Karin Swanström

Karin era diretora artística do estúdio Swedish Films Studio e concedeu uma audição à jovem Ingrid. O seu desempenho convenceu a diretora, que lhe arranjou um pequeno screen test com o realizador Gustaf Molander. Ingrid dá crédito ao realizador por lhe ter ensinado “a representar emoção da forma primorosa” – uma característica que marcou a carreira, referiu a atriz nas suas memórias. O conselho que Gustaf lhe deu, “Nunca tentes parecer só bonita. Sê sempre tu mesma e aprende sempre as tuas falas” passou a ser uma máxima que Bergman aplicou durante a longa carreira.

Com Molander, foram várias as colaborações durante a carreira, como atriz e guionista. Seria numa destas colaborações em que iria descolar, quando este lhe ofereceu um dos papéis principais em Intermezzo. O desempenho da atriz no filme de 1936 piscou o olho a Hollywood, que não perdeu tempo em recebê-la. O produtor David O. Selznick comprou os direitos para um remake americano do filme e trouxe Ingrid para replicar o seu papel da versão original. Lançado em 1939, Intermezzo foi o pontapé de saída para uma carreira em Hollywood que duraria quase cinco décadas e tornar-lhe-ia uma das mais aclamadas atrizes da história da sétima arte.

A ascensão ao topo de Hollywood

Durante os seus primeiros anos em Hollywood, a atriz ficou associada ao conceito de pureza devido à sua aparência, bastante natural em comparação com outras estrelas da altura, e aos papéis algo estereotipados de “boa menina” a quem tinha dado vida em filmes como Rage in Heaven e Adam Had Four Sons. O casamento com o neurocirurgião Petter Lindstrom, aparentemente perfeito aos olhos do público americano, também contribuiu para a criação desta imagem, que tornava Bergman na mulher ideal aos olhos dos americanos. 

Em 1941, durante as filmagens de Dr. Jekyll and Mr. Hyde, em que a atriz interpretou a personagem de Tracy, papel que caía mais uma vez no estereótipo de “boa menina”, Ingrid pediu a Victor Fleming, realizador da longa-metragem, para trocar de personagem com Lana Turner. A subsequente interpretação como Ivy Peterson deu a conhecer a  Hollywood uma atriz com uma capacidade e um alcance muito além dos papéis que tinha desempenhado antes.

Gaslight
A sua prestação como Paula Alquist Anton em Gaslight valeu a Ingrid Bergman o seu primeiro Óscar de Melhor Atriz.

A década de 40 seria o primeiro grande pico da carreira de Ingrid. Depois da prestação em Dr. Jekyll and Mr. Hyde, o primeiro grande êxito surgia para a atriz. No papel de Ilsa Lund, em Casablanca, de Michael Curtiz, a atriz atingia o patamar de estrela de Hollywood. Um sucesso de crítica e bilheteira, o papel de Ilsa é aquele a qual Ingrid acaba por ser mais associado. “Há qualquer coisa de místico no filme. Parecia que tinha preenchido uma necessidade [do público]”, falava a atriz já perto do final da vida sobre o impacto que Casablanca teve na indústria e na sociedade.

No ano seguinte, a atriz chegava pela primeira vez às nomeações para o Óscar de Melhor Atriz, com a sua prestação em For Whom the Bell Tolls, e em 1944, venceria o primeiro de dois, com GaslightAinda durante a década de 40, a atriz recebeu mais duas nomeações para o prémio, com prestações em The Bells of St. Mary’s e Joan of Arc, tendo neste último também interpretado a lendária guerreira francesa na peça de teatro com o mesmo nome. Venceu também dois Golden Globes consecutivos, com Gaslight e The Bells of St. Mary’s. Durante os anos 40, a atriz teve a possibilidade de efetuar três colaborações com o lendário realizador Alfred Hitchock: Spellbound, Notorious e Under Capricorn. Enquanto que os dois primeiros foram bastante bem recebidos, o produto final de Under Capricorn foi considerado por Hitchcock como um dos seus piores trabalhos.

O escândalo com Rosselini e a mudança para a Europa

Em 1949, a atriz escreveu uma carta ao realizador italiano Roberto Rossellini em que revelava a sua admiração por este e um desejo de trabalhar juntos. No ano seguinte, a atriz protagonizou o filme do realizador,  Stromboli, o primeiro de cinco colaborações entre a dupla. Mas a carreira de Ingrid sofreu um percalço.

Ingrid Bergman e Roberto Rossellini
O romance entre Bergman e Rossellini levou a um escândalo nos Estados Unidos. A imagem de pura da atriz tinha sido quebrada e, vista com maus olhos pelo público americano, mudou-se para a Europa.

A relação com Roberto evoluiu e ambos desenvolveram uma paixão um pelo outro. Casada e com uma filha nos Estados Unidos, o caso tornou-se num verdadeiro escândalo em Hollywood. A imagem pura de Ingrid no território norte-americano, criada pelos vários papéis estereotipados e pelo casamento, provocou uma forte reação por parte do público americano. De tal forma extrema foi a reação para com o comportamento da atriz que o senador Edwin C. Jackson condenou-o em pleno Senado americano, alegando que Ingrid era uma “poderosa influência do mal” e que a atriz não devia de “entrar em solo americano” devido às leis de imigração impostas no país. A atriz só iria regressar em 1957, depois do seu casamento com Rossellini, de onde resultou um filho, ter terminado. O senado americano efetuaria um pedido de desculpa à atriz, em 1972.

O retorno triunfante a Hollywood e os últimos anos

Depois de passar cinco anos a protagonizar os filmes neo-realistas de Rosselini, a atriz voltou à ribalta em 1956 com a longa-metragem Anastasia. Foi o regresso a uma produção de Hollywood, apesar de esta ter sido gravada e produzida na Europa. A prestação como Anna Koreff no drama histórico de Anatole Litvak garantiu-lhe o seu segundo Óscar de Melhor Atriz e o terceiro Golden Globe. Ao longo dos próximos anos, a atriz recuperou muito do protagonismo nos Estados Unidos, tendo arrecadado mais um Óscar, desta vez na categoria de Melhor Atriz Secundária, pela prestação na adaptação de 1974 do clássico de Agatha Christie, Murder on the Orient Express

Murder on the Orient Express
Apesar de aparecer apenas em dez minutos da adaptação do clássico de Agatha Christie ao grande ecrã, Bergman recebeu aquele que seria o último Óscar da sua carreira.

A atriz ainda seria nomeada uma última vez para a categoria de Melhor Atriz com o último papel na indústria do cinema, em Autumn Sonata de Ingmar Bergman. Por esta altura, a atriz já havia sido diagnosticada com cancro da mama. No dia do seu 67º aniversário, a atriz sucumbia à doença. A última aparição na mini-série A Woman Called Golda valeu-lhe um segundo Emmy e um quarto Golden Globe.

Uma das mais aclamadas atrizes da história da representação, o Espalha-Factos, além de apresentar esta pequena retrospectiva da carreira e vida de Ingrid Bergman, apresenta abaixo uma lista com alguns dos melhores filmes da carreira da atriz.

Casablanca (1942), de Michael Curtiz

O filme de Michael Curtiz, realizado em 1942, é uma das mais icónicas produções americanas da história do Cinema, e a pontuação perfeita de 100 no MetaScore fala por si. A história serviu de palco à primeiro e único encontro no grande ecrã entre Ingrid e o ator Humphrey Bogart. A química entre a dupla foi tão evidente que, na altura, a mulher de Bogart ficou a pensar que estavam a ter um caso na vida real, para além do filme. 

Considerado como sendo dos melhores papéis de toda a carreira de Bergman, a atriz dá vida a Ilsa, mulher de Victor Laszlo (Paul Henreid), que aparece de repente no café Casablanca, gerido por Rick Blaine (Humphrey Bogart), expatriado americano e ex-amante de Ilsa, por quem ainda carrega uma antiga paixão. O romance de Rick e Isla é uma das histórias mais famosas de sempre, muito graças à qualidade da performance da dupla, tornando o filme de Curtiz numa daquelas produções obrigatórias para quem é apaixonado pela Sétima Arte.

Autumn Sonata (1978), de Ingmar Bergman

Com as gravações a começarem pouco antes de Bergman ter sido diagnosticada com um cancro, que se revelou letal, Autumn Sonata foi a primeira e última reunião entre Ingrid e Ingmar Bergman, o realizador sueco. É de notar que, apesar do mesmo apelido, Ingrid e Ingmar não são familiares. A história dá-nos a conhecer Eva (Liv Ullman) enquanto esta tenta aproximar-se da mãe, Charlotte (Bergman), que a negligenciou a vida inteira. 

O filme é, aliás, incrivelmente semelhante com a história pessoal de Ingrid, dado que esta ficou conhecida igualmente por deixar o marido da altura e os seus filhos, porque estava apaixonada pelo realizador Roberto Rossellini. Autumn Sonata é extraordinário na forma como revela ser um estudo devastador sobre como os relacionamentos ficam se não cuidarmos deles. A poderosa Charlotte, dotada de uma frieza poderosa empregue por Bergman, tornou-se numa das maiores conquistas da atriz enquanto profissional.

Notorious (1945), de Alfred Hitchock

Notorious marcou a primeira vez que Ingrid trabalhou com Alfred Hitchcock, sendo vastamente aclamado por marcar uma fase onde tanto a atriz como o realizador estavam no ponto alto das carreiras. O realizador britânico chamou o ator Cary Grant para fazer par com Bergman e Notorious tornou-se num dos seus trabalhos mais memoráveis, dada a química palpável entre os atores e o icónico trabalho de câmara. 

O filme de espionagem deu a Ingrid um dos papéis mais intrigantes da carreira: uma mulher infiltrada numa célula de expatriados alemães, cuja honestidade e vícios são características que podem trair o seu caminho. O desempenho de Bergman ao dar vida a uma mulher sexualmente livre e contraditória é um contraste satisfatório face a outros filmes da carreira, como The Bells of St. Mary’s e For Whom the Bell Tolls, onde Ingrid desempenha papéis de mulheres puras e virginais. Brilhantemente realizado e contracenado por Grant e Bergman, Notorious torna-se essencial para quem quer conhecer a fundo tanto o trabalho de Ingrid como de Hitchcock.

Anastasia (1956), de Anatole Litvak

O drama histórico de Anatole Litvak deu a Ingrid o segundo Óscar de Melhor Atriz, graças ao papel de Anna, uma mulher com amnésia, fisicamente parecida a Anastasia, a Grande Duquesa Russa, que ficou conhecida por ter, alegadamente, sobrevivido ao massacre da família real durante a revolução russa. Anna rapidamente entra num esquema montado por um general russo renegado, interpretado por Yul Brynner, que usa a semelhança fisica de Anna com Anastasia, para reclamar a herança desta última, avaliada em milhões de euros. 

O filme marcou o regresso de Bergman a Hollywood, depois de ter estado exilada durante alguns anos, e é interessante como o filme dá-nos a história de uma princesa deposta que é novamente colocada no seu devido lugar. Interpretando um papel marcante do ponto de vista histórico, Ingrid é bem-sucedida ao trazer-lhe humanidade e fragilidade.

Intermezzo (1939), de Gregory Ratoff

Quando falamos de Ingrid, não nos podemos esquecer de Intermezzo, o filme que despoletou a sua brilhante estadia em Hollywood. Contracenando com Leslie Howard (Gone With The Wind), Ingrid ilumina o ecrã ao dar vida a Anna Hoffman, a professora de piano da filha de um conhecido e virtuoso violinista, Holger Brandt (Howard). Depois a ouvir tocar, Holger insiste para que Anna se junte a ele na próxima tour de concertos que vai dar.

Enquanto viajam, a dupla desenvolve uma intimidade e paixão que acaba num tórrido relacionamento que, depois de sair a público, leva a que Margit, a mulher de Holger, exija o divórcio. Apesar de não saber inglês na altura, a jovem atriz revelou-se uma rápida aprendiz e, combinando a ética de trabalho com a beleza radiante, a versão americana de Intermezzo deu o mote para uma carreira que fala por si.

Journey to Italy (1954), de Roberto Rossellini

O filme entra no grupo de uma das várias colaborações de Bergman com o realizador italiano (e posteriormente marido da altura) Roberto Rossellini. A atriz formou dupla com George Sanders, ao representarem um casal que viaja para Nápoles, de modo a venderem uma vila que herdaram recentemente. O filme tornou-se numa das maiores influências do movimento Nouvelle Vague e é considerado um dos melhores trabalhos de Rossellini. 

O casal inglês, viajando para Itália, rapidamente dá-se conta que a vida em conjunto já não é a mesma e que a relação perdeu vitalidade depois de oito anos de casamento. A incrível paisagem italiana serve de contraste à relação desconfortável que os dois experienciam, mas onde tentam dar a volta por cima. Journey to Italy, para além de amado pelos críticos, é referido pelo próprio Martin Scorsese como sendo um dos seus filmes favoritos de sempre.

Texto e sugestões de Miguel Rocha e Diogo Silva.

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