Ana e Maurizio
Ana e Maurizio | Fonte: IndieLisboa

IndieLisboa 2020: ‘Ana e Maurizio’, ‘Jeanne’ e competição internacional em destaque no terceiro dia

A 17.ª edição do IndieLisboa arrancou no passado dia 25 e prolonga-se até 5 de setembro. Até lá, várias são as novidades e retrospetivas cinematográficas, curtas e longas, que serão exibidas nas várias salas de cinema de Lisboa. A abertura da competição nacional com Ana e Maurizio, as exibições de Eyimofe (This is My Desire) e The Fever (A Febre) na competição internacional e da longa-metragem Jeanne, inserida na secção Silvestre, são os destaques do terceiro dia do festival (28).

Ana e Maurizio atua como uma instrospeção da conexão humana

A abertura da Competição Nacional de longas-metragens deu-se com o documentário Ana e Maurizio, realizado por Catarina Mourão (Pelas Sombras, A Toca do Lobo). O tema do filme gira em torno da vida da pintora Ana Marchand e da relação que tem com a sua família e, acima de tudo, consigo mesma. A pintora esteve presente, ao lado da realizadora e do pintor Manuel Costa Cabral, na antevisão da longa-metragem que ocorreu antes do início da sessão.

É um retrato auto-biográfico e de descoberta interior“, referiu a pintora antes da exibição começar. Ana Marchand dedicou o filme ao seu tio, Maurizio Piscicelli, uma das peças cruciais do filme. Catarina Mourão referia que o filme não é só sobre as descobertas de Ana, mas também das suas. Destaca a viagem à Índia como um dos pontos altos da gravação da longa-metragem e que o projeto se foi “encontrando” à medida que era desenvolvido. O projeto iniciou-se há quatro anos atrás, na altura como uma ideia para uma exposição, mas acabou por se tornar na longa-metragem que foi, esta quinta-feira (27), apresentada na Culturgest.

A afirmação de Ana Marchand de que se trata de um filme sobre a descoberta interior não é feita de forma leve. É uma excelente forma de resumir o conteúdo que povoa os 64 minutos da longa-metragem. Corresponde a uma viagem por vários países e locais emblemáticos conectados ao seu tio Maurizio Piscicelli. Ao mesmo tempo que vamos visitando cada local, vamos também viajando pela história de Ana e pelo auto-descobrimento que esta efetua.

A realização de Catarina Mourão é um dos elementos mais importantes do filme. As imagens captadas pela realizadora, associadas à narração efetuada por Massimo Villa na voz de Maurizio e pela própria Ana, criam momentos de beleza inigualável. E quando encontramos apenas o silêncio, ficando apenas a imagem e o som para contemplar, estamos perante momentos de reflexão, não só sobre o conteúdo da longa-metragem, mas também sobre nós próprios. Pode-se dizer, sem qualquer dúvida, que é poético e belo. Acima de tudo, Ana e Maurizio acaba por se tornar numa lição de emancipação pessoal e, devido ao seu ritmo lento, uma lição da passagem do tempo que a todos nos afeta.

Jeanne é um musical de embalar

Jeanne | Fonte: IndieLisboa

Na secção Silvestre, o destaque vai para a Sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge, com a exibição de Jeanne, a sequela da franchise mais inesperada do cinema. Jeanette, a sua prequela, saiu em 2017, recorre ao heavy metal para narrar os eventos da infância de Joan D’Arc, figura histórica francesa do século XV.

O realizador, Bruno Dumont, regressa com a mesma figura, agora numa fase mais avançada da sua vida, já a liderar os batalhões franceses contra a ameaça inglesa. Jeannette é agora Jeanne, uma jovem guerreira guiada por vozes divinas – acompanhamos os seus últimos meses de vida, da sua ascensão a líder de batalha, às derrotas que a descredibilizam e a tornam, aos olhos da igreja, numa herege. A longa-metragem é uma adaptação das peças de Charles Peguy, escritor, dramaturgo e poeta francês do século XX.

O grande destaque deste filme de duas horas e meia é Lise Leplat Prudhomme, a atriz que faz de Jeanne (a mesma que protagonizou Jeanette). A garra e a fé são visíveis nos seus olhos – Lise é uma Jeanne perfeita, uma jovem atriz ainda com muito para dar. A belíssima fotografia da película é de louvar. As paisagens, os planos e a cronometragem perfeita entre cada um deles é impressionante e é uma das mais valias do filme.

Para além disto, Jeanne não é mais que uma canção de embalar. Estende-se demasiado e as conversas entre as personagens, apesar de satíricas e reveladoras do estado do clero francês no século XV, são demasiado longas e difíceis de acompanhar. Desta vez, Dumont é mais comedido nos momentos musicais. São dois, compostos por Christophe, um roqueiro francês dos anos 70 conhecido pelo seu tom de voz agudo. Uma das canções é longa demais, entre planos do céu azul e dos olhos de Jeanne e a outra, tem um lip-synching por parte de um dos representantes da igreja, cena que chega a roçar o cómico. Jeanne é ambicioso, mas acaba por ser um filme tedioso com rasgos de excitação que rapidamente se dissolvem.

Lê também: IndieLisboa 2020: ‘Bazarkh’, ‘Laurel Canyon: A Place in Time’ e a secção Silvestre em força no segundo dia

Destaques da Competição Internacional e Eletronica:Mentes

O dia ficou marcado pela exibição de três longa-metragens inseridas na Competição Internacional da 17.ª edição do IndieLisboa.

Eyimofe
Eyimofe | Fonte: IndieLisboa

Eyimofe (This is My Desire) é uma longa-metragem de Chuko Esiri Arie Esiri que retrata Nollywood, a Hollywood nigeriana. É um local de criação artística do qual pouco do seu conteúdo consegue escapar além-fronteiras. A estreia dos irmãos Esiri retrata duas histórias, a de Mofe (Jude Akuwudike) e a de Rosa (Temi Ami-Williams), que têm como objetivo  escapar da cidade nigeriana de Lagos, rumo à Europa.

A longa-metragem da realizadora brasileira Maya Da-RinThe Fever (A Febre), esteve em exibição no Cinema Ideal. Retrata a história de Justino (Regis Myrupu), um homem de meia idade de origem indígena que adoece com uma febre misteriosa depois da sua filha informá-lo que pretende estudar enfermagem em Brasília. Corresponde a uma reflexão sobre a luta constante entre a nossa essência humana e a pressão que hoje em dia ocorre face à adaptação a um modo de vida cada vez mais urbano e modernizado, que está em constante mudança. Baamum Nafi (Nafi’s Father), que marca a estreia do realizador senegalês Mamadou Dia, e que também se encontra inserido na Competição Internacional, esteve em exibição no Capitólio.

Da competição internacional passamos para a secção do IndieMusic, com o documentário Eletronica:mentes. Ao invés de se focar nos géneros populares da música brasileira, como o bossa nova ou o samba, o documentário de Dácio Pinheiro, Denis Giacobelis e Paulo Beto retrata a escola da música eletrónica brasileira, viajando pelos testemunhos de várias gerações e espectros da eletrónica brasileira, passando pelos pioneiros, como Jocy de Oliveira ou Jorge Antunes, até nomes mais contemporâneos como Savio Lopes ou Alexx kidd.

 

Texto de Miguel Rocha e Kenia Sampaio Nunes.

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