David Fincher
Fotografia: Merrick Morton, 2011 / D.R.

David Fincher e o fascínio pelo difícil e eterno ‘Clube de Combate’

O realizador completa 58 anos. O filme, passado 20, está eternizado na memória dos fãs

O realizador David Fincher faz 58 anos esta sexta-feira (28). O cineasta tem, até aos dias de hoje, uma carreira praticamente imaculada, cheia de filmes adorados por críticos e fãs, onde se destacam títulos como A Rede Social, Zodiac ou Em Parte Incerta, até ao seu primeiro projecto no pequeno ecrã, Mindhunter, disponível na Netflix.

Para celebrar o aniversário de Fincher, o Espalha-Factos recorda um marco: a bem sucedida segunda longa-metragem do realizador, o icónico e intemporal Clube de Combate. O filme, lançado em 1999, conta com Brad Pitt e Edward Norton nos papéis principais e, apesar de não ter sido um sucesso ao nível de bilheteiras aquando do seu lançamento, ganhou, ao longo dos anos, o estatuto de filme de culto.

Clube de Combate foi o segundo filme bem recebido de Fincher mas, antes de este ter realizado o filme que agora figura em quase todas as listas de filmes indispensáveis para quem é amante da sétima arte, a verdade é que o realizador norte-americano começou na mó de baixo com Alien 3, o seu primeiro projeto para o grande ecrã.

David Fincher e os retrocessos com Clube de Combate

Avançando no tempo, esquecendo o primeiro (e único) embaraço visível na carreira de David, é altura de entrarmos no território de Clube de Combate. Baseado no livro homónimo de Chuch Palahniuk, lançado em 1996, a produção, quando saiu, foi recebida num misto de excitação e medo por parte da audiência, dado que mudou a forma de encararmos a forma como o cinema político poderia ser feito, especialmente em território mainstream.

fight-club

Hoje em dia, o filme continua a ser popular, sendo ajudado por clubes de fãs fervorosos, que ainda continuam a demonstrar admiração, desconforto, mas sobretudo fascinação em torno de Clube de Combate, considerado um dos pilares do cinema moderno. O que não falta também são as teorias da conspiração, tentando explicar os mistérios deixados pelo argumento de Jim Uhls, adaptando o texto de Palahniuk.

Considerada uma das produções mais citadas da última década, por nos ter oferecido diálogos ímpares, revestidos de anti-consumismo e anti-capitalismo, todo este misticismo e fanatismo demorou a aparecer na altura em que o filme foi lançado. Segundo o livro How 1999 Blew Up the Screen, do escritor Brian Raftery, nem foi sequer o próprio Fincher a primeira pessoa a pegar no projeto.

Depois do estúdio FOX 2000 ter ganho os direitos para a adaptação do homónimo de Palahniuk em leilão, o primeiro realizador a olhar para o roteiro foi David O. Russel. David confessou não ter entendido a mensagem do livro e abandonou a produção, sendo que Fincher ficou imediatamente atraído pela história.

Após esta atração inicial, nem tudo foi um mar de rosas. Fincher relata a Raftery: “Quando penso em 1999, não penso nos meus pés pousados na cadeira à minha frente, com um balde de pipocas nas minhas mãos. O que penso desse ano é uma série de encontros onde dava estalos em mim próprio, de tal forma que saía com a testa marcada”, pode ler-se no livro.

Mas David recorda o momento específico quando descobriu a história original e se deixou enamorar por ela. “Eu estava nos meus trinta e muitos, e vi o livro como um grito de guerra. Chuck estava a falar sobre um tipo muito especifico de raiva, gerado por uma espécie de mal estar: ‘Estamos inertes há tanto tempo, precisamos de fazer um sprint para a nossa próxima própria evolução.’ E foi fácil ser arrastado por toda aquela história intrincada.”

A conexão com a história foi estabelecida e Fincher decidiu pegar no projeto, assumindo o cargo de realizador, mesmo depois de ter entrado em colisão com a FOX durante a produção de Alien 3, reportou o IndieWire. Segundo rumores, a versão de Alien 3 que saiu cá para fora não tinha sido a pensada por Fincher, sendo que o produto final sofreu várias transformações, depois de longas discussões entre o realizador e o estúdio.

Para o projeto ter luz verde por parte do próprio realizador, este apresentou duas únicas opções à FOX: ou fazia um filme de baixo orçamento, de cerca de 2 milhões de euros, para ser gravado em cassete, ou o estúdio apostava num grande orçamento, dando liberdade a Fincher para escolher grandes estrelas para formar o elenco de Clube de Combate. A FOX ficou intrigada com tudo isto e deu tempo a David para preparar o argumento.

Acertar o tom de Clube de Combate – uma tarefa complicada

Chegada a hora de escolher o elenco, David sabia do potencial de Brad Pitt, depois de ter trabalhado com o ator em Se7en, o drama sobre um serial killer, e convenceu o ator a entrar em Clube de Combate na pele de Tyler Durden. Edward Norton assumiu o papel principal, e o ambiente começou a ficar tenso a partir deste ponto.

Tanto Norton como Fincher viam a história como uma comédia, mas não estavam de acordo sobre o quão engraçado é que o filme teria de ser e lutaram bastante acerca do tom que o produto final deveria de ter de assumir. Todas estas discussões resultaram em longos intervalos entre cenas, onde os outros atores tinham de estar à espera, sem ter nada que fazer.

Dia Mundial do Cinema

“Eu acho que o Edward tinha esta ideia de, ‘Vamos fazer com que as pessoas percebam que isto é uma comédia.’ Eu e ele falámos sobre isto até se tornar irritante. Há aquele humor obsequioso que te diz, ‘Pisca, pisca, não te preocupes, tudo isto é apenas diversão.’ E a minha ideia era não piscar o olho às pessoas. O que queremos é as pessoas vejam o filme e se perguntem ‘eles estão a defender isto?’”, refere o realizador no livro, esclarecendo que queria que a audiência se perguntasse se o filme estava mesmo a defender as práticas mais radicais que a história ficcional propõe.

Os problemas de David Fincher com o marketing da FOX

Mas os problemas não se ficaram por aqui. De regresso estavam as discussões com a FOX, desta vez quanto à forma como devia ser gerido o marketing do filme, área onde o realizador não teve qualquer tipo de palavra a dizer. “As pessoas cujo trabalho era vender o filme diziam ‘Eu não vou abaixo com isto’”, contou igualmente Fincher. O cineasta contou ainda que um funcionário do estúdio lhe disse que o filme não era direccionado para ninguém e que “os homens não querem ver o Brad Pitt sem camisola. Faz com que se sintam desconfortáveis. E as mulheres não o querem ver a sangrar. Portanto não sei para quem é que fizeste este filme.”

Fincher tomou, ao inicio, a iniciativa quanto à direção pretendida por este para o marketing do filme. Para isso, chegou a realizar uma série de vídeos falsos, onde entravam Pitt e Norton. Os dois atores encarnaram as personagens nos vídeos, pedindo aos espectadores do cinema que desligassem os telemóveis, mas também proferindo frases sombrias e indo ao encontro com o tom de Clube de Combate, como “ninguém tem o direito de te tocar nas tuas partes íntimas

A ideia de Fincher era assumir uma abordagem mais agressiva, “na casa dos espectadores” no que tocava ao marketing, mas a FOX preferiu jogar pelo seguro, promovendo o filme como sendo “um grande filme de estúdio, com estrelas de cinema” e focando o marketing na parte da história relativa às lutas que aconteciam. Para além disso, decidiu igualmente promover Clube de Combate em eventos de wrestling.

O clima de tensão não ajudou em nada e Clube de Combate acabou por ser um desastre ao nível da bilheteira, tendo estreado apenas com 9,25 milhões de euros de lucro, acabando com uma bilheteira final nos Estados Unidos de cerca de 31 milhões de euros. Desastre é mesmo a palavra apropriada, dado que a FOX gastou perto de 55 milhões de euros com o filme. Sabendo da possibilidade de o filme não ser bem recebido, Fincher decidiu ir de férias para Bali no fim-de-semana de estreia da produção, de modo a não tomar atenção às (inevitáveis) más noticias.

O descalabro no que toca à bilheteira do filme

O realizador, chamado a contar as próprias memórias desses tempos por Raftery, não fugiu à questão em torno do insucesso inicial de Clube de Combate. “Dois anos da tua vida e recebes um fax que diz ‘Vão todos para casa. O lucro vai ser um desastre.’ Tu conversas muito com a alma naquele momento: ‘Oh, que merda, o que é que eu vou fazer agora?’ Como é que recuperas disto?”, questiona-se Fincher.

“As pessoas nos restaurantes davam-te palmadinhas nos ombros como se tivesses perdido alguém que te era querido,” acrescenta. “O sentimento na CAA [Agência de Artistas Criativos] era de, ‘Foi bom que tenhas experienciado isto e que entendas que podemos fazer com que não tomes este tipo de decisões que alterem a tua vida, e que podem acabar carreiras, por ti mesmo.’ Eu levantei-me e pedi com licença. Mais tarde, em conversa, disse, ‘Como é que te atreves? Eu sinto-me bem com este filme.’

Qualquer tipo de mágoa que Fincher tenha carregado na produção e pós-realização de Clube de Combate deve ter rapidamente desaparecido nas duas décadas seguintes depois do filme ter sido exibido no grande ecrã, dado que vendeu cerca de 6 milhões de DVDs e se tornou num fenómeno cultural para uma nova geração de jovens amantes de cinema.

O filme possui agora uma espécie de estatuto de relevância eterna, onde se quebrou, para sempre, a primeira regra de Clube de Combate, que era mesmo não falar sobre o Clube de Combate. Agora, toda a gente fala sobre o filme, mesmo que, às vezes, não tenha idade para tal. Ainda para o livro, Fincher conta uma história curiosa: “Quando a minha filha tinha nove anos, fui a um evento escolar e ela disse-me ‘Quero que conheças o meu amigo Max. Clube de Combate é o filme favorito dele.’ Eu levei-a para um canto e disse-lhe, ‘Tu não estás autorizada a brincar mais com o Max. Não podes ficar sozinha com o Max.’” 

Mank, o próximo filme de David Fincher

Mank é o nome da nova longa-metragem de David Fincher, cuja história decorre nos bastidores do filme Cidadão Kane, de Orson Welles. A longa-metragem pode vir a ser lançada já em outubro, marcando uma nova parceria do realizador americano com a Netflix.

Fincher tem estado afastado do grande ecrã desde que lançou, em 2014, Gone Girl, e tem-se focado mais em produções televisivas como o drama policial Mindhunter e a série antológica animada Love, Death & Robots, ambos produzidos pela Netflix.

Seis anos após a sua última aparição no cinema, Fincher volta a trazer-nos um filme, que, segundo o seu argumentista Eric Roth, é uma “obra incrível”. No podcast Pardon My Take, Roth presenteia-nos com uma pista sobre o filme ao acrescentar que “ele fez um filme a preto e branco dos anos 30 que se parece com um filme dos anos 30 e também se sente como se fosse um”, informa o Indiewire.

Para além da localização, também sabemos que quem vai interpretar o papel de Mankiewicz será Gary Oldman. Já o de Orson Welles ficará a cargo de Tom Burke. O elenco ainda conta com a participação de Lily CollinsAmanda Seyfried e Tom Pelphrey.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Big Brother
‘Big Brother’. Diário e Extra estreiam a perder nas audiências