Tim Burton nunca chegou a fazer o Batman 3 que tinha em mente.
Walt Disney.

Tim Burton e o ‘Batman 3’ que se perdeu no tempo

O Espalha-Factos conta-te a história de uma produção que nunca saiu da prateleira.

Tim Burton, o conhecido realizador norte-americano por detrás de filmes como Eduardo Mãos de Tesoura, Alice no País das Maravilhas e até Batman, fez 62 anos, esta terça-feira (25). Com uma carreira recheada de sucessos, Burton é conhecido pelos universos fantásticos e góticos que cria nas suas produções, onde capta a imaginação de miúdos e graúdos.

Em vez de se celebrar os filmes efectivamente realizados por Tim, propõe-se aqui contar os detalhes de um projeto do cineasta que nunca viu a luz do dia – Batman 3, que seria a suposta conclusão da trilogia iniciada em 1989, com Batman, filme igualmente realizado por Burton e com Michael Keaton a assumir o papel do justiceiro vigilante.

Porque é que Tim Burton abandonou o projeto, dando o lugar a Joel Schumacher, que ofereceu um toque muito mais infantil às aventuras de Batman, em contraste com o tom mais sério e pesado com que Burton encarou os dois projetos anteriores?

Tim Burton e os seus Batman bem sucedidos

Batman foi adaptado para o grande ecrã, pela primeira vez, em 1943, numa série de 15 capítulos a preto e branco, com o ator Lewis Wilson a encarnar a pele do famoso super-herói e Douglas Croft no papel de Robin. Desde então, o Cavaleiro das Trevas tem gerado várias versões diferentes, que poderão ser divididas em três fases: a saga iniciada por Tim Burton e continuada por Joel Schumacher, a trilogia realizada por Christopher Nolan e, por último, mais recentemente, a versão de Batman no Universo Estendido da DC. Em produção está uma quarta fase, com Robert Pattinson a assumir o papel em The Batman, filme realizado por Matt Reeves.

Michael Keaton interpretou Batman nos dois filmes lançados por Tim Burton.
Warner Bros.

Em 1989, Batman foi um sucesso do ponto de vista financeiro, mas também junto dos críticos, servindo de inspiração para o lançamento de uma das melhores séries de animação de sempre, Batman: The Animated Series, no pequeno ecrã. O sucesso do filme foi tal que abriu caminho a uma sequela, Batman Regressa, exibido em 1992. Tim Burton e Keaton voltaram a assumir as mesmas funções e a produção conheceu semelhante sucesso ao seu antecessor. Até aqui tudo estava bem.

Os problemas apareceram quando foi hora de começar a pensar em fazer um terceiro capítulo, que acabaram por conduzir à saída tanto de Burton como de Keaton do projeto. O filme chegou aos cinemas em 1995, sob o título Batman Para Sempre, mas desta vez quem estava atrás das câmaras era o realizador Joel Schumacher. As mudanças não se ficaram por aqui, sendo que Val Kilmer assumiu o papel de Batman, Chris O’Donnell entrou para o papel de Robin e Tommy Lee Jones fez de Harvey Dent/Duas-Caras.

A Batman Para Sempre seguiu-se Batman & Robin, dois anos depois, que serviu de final para a série iniciada em 1989. Val Kilmer abandonou o projeto, entrando para o seu lugar George Clooney, sendo que o filme foi, de forma unânime, considerado, pela crítica especializada, como um dos piores filmes de super-heróis de sempre.

Como seria um Batman 3 de Tim Burton?

A verdade é que todas estas mudanças de realizador, elenco e de rumo na história, não faziam parte do plano original e Tim Burton tinha uma visão própria para Batman 3 que, na altura, serviria de continuação ao seu próprio Batman Regressa. Se Burton tivesse conseguido concretizar as ideias, teria levado a série para uma direção completamente diferente da tomada por Schumacher nos dois filmes seguintes.

Correm os rumores de que o filme chamar-se-ia Batman Continua, contando novamente com Keaton a assumir a personagem principal e também com o regresso de Michelle Pfeiffer e Billy Dee Williams nos papéis de Catwoman e Harvey Dent, respectivamente. Com o retorno de todo o elenco principal, Batman Continua ia ser uma sequela direta de Batman Regressa, contrariando a falta de coesão que marcou Batman Para Sempre.

Mas há semelhanças entre o que Burton tinha idealizado e o que realmente se chegou a concretizar em Batman Para Sempre, especificamente no que toca à aparição da personagem de Riddler. O vilão apareceu mesmo no filme realizado por Schumacher, mas foi interpretado por Jim Carrey.

Na altura, Burton estava a pensar em Robin Williams para o papel, ator que já tinha sido pensado pelo próprio realizador norte-americano para o universo de Batman. Williams chegou mesmo a ser contactado para assumir o papel de Joker em Batman, mas foi Jack Nicholson quem acabou por ser escolhido. Burton contactou-o de novo na esperança que o ator pudesse encarnar Riddler em Batman 3, mas quando o cineasta saiu do projeto e Schumacher chegou, os planos mudaram e Jim Carrey acabou por ficar com o papel.

Quanto a Michelle Pfeiffer e sua Catwoman, a personagem acabou viva e bem de saúde no final de Batman Regressa, e a atriz iria regressar para uma sequela, não se sabendo porém qual o seu papel na história. Mas logo após a Warner Bros. começar a preparar Batman Para Sempre, já sem Tim Burton nos comandos, foi anunciado um spin-off de Catwoman, com Pfeiffer a regressar ao papel e Burton como realizador. Porém, no fim, Burton abandonou o projeto, que ficou dentro da gaveta durante anos, até estrear Catwoman, em 2004, com Halle Berry no papel homónimo, num filme vergado pelos críticos e fãs.

Apesar de tudo, o maior elemento surpresa naquilo que Tim Burton tinha planeado era a escolha do ator para interpretar Dick Grayson/Robin, que recaía em Marlon Wayans. Aliás, Wayans já tinha sido pensado para trazer Robin ao grande ecrã em Batman Regressa, mas o realizador decidiu guardá-lo para um futuro filme, porque sentia que já existiam demasiadas personagens na história da sequela. Marlon chegou até a ir a uma prova de vestuário e estava apalavrado para uma sequela, podendo fazer a sua estreia em Batman 3, mas Schumacher tinha planos diferentes, escolhendo o ator Chris O’Donnell para o papel.

Porque é que Tim Burton nunca avançou com o projeto?

Normalmente, quando Tim Burton abandona um filme que tinha ele próprio imaginado, as razões devem-se a diferenças criativas ou relações conflituosas com o estúdio em questão. Mas, neste caso específico, tudo se deveu a uma influência vinda de fora: o McDonald’s. A verdade é que o império de fast food criado por Ronald McDonald’s nunca perde uma oportunidade de vender bonecos e copos de diferentes personagens para fazer dinheiro, e o Batman de Tim Burton não era uma excepção.

Antes da estreia de Batman Regressa, a empresa colocou as personagens de Batman, Catwoman e O Pinguim em todos os seus produtos, mas depois do filme sair, tudo mudou drasticamente. Os pais das crianças que compravam estes produtos infantis não gostaram do tom mais sombrio do filme e ficaram convencidos de que a produção de Burton não era adequada a crianças.

Na altura, existiram até pais que boicotaram o McDonald’s por vender produtos com as personagens de Batman Regressa, recusando-se a comprar qualquer tipo de merchandising relacionado com o filme de Burton. Por volta do lançamento do filme, o The Los Angeles Times publicou uma série de cartas escritas por clientes do McDonald’s, onde se mostravam irritados com a política da empresa.

“Adultos amantes de violência podem apreciar este filme. Mas porque é que o McDonald’s continua a promover este filme explorador através das vendas dos chamados ‘Happy Meals’? Será que o McDonald’s não tem consciência?”, pode ler-se numa dessas mesmas cartas. A Warner Bros. esteve atenta às queixas e na hora de planear Batman 3 decidiu deixar Tim Burton de lado. O resto já se sabe.

É também interessante o facto de esta história se ter desenrolado mesmo à vista do grande público, pois não era segredo para ninguém que Burton estava interessado em realizar um terceiro filme de Batman. Até na edição especial de DVD de Batman Regressa, na faixa de comentário de realizador, Tim chegou mesmo a confidenciar que teve uma reunião com a Warner Brothers e que a decisão de ele próprio abandonar o projeto veio da Warner.

Quanto a Michael Keaton, as razões do seu abandono devem-se ao facto de o ator não ter estado interessado em fazer um blockbuster de verão mais virado para crianças. Keaton e Burton tinham uma grande relação artística e a ideia do ator contrastava com a missão incumbida a Schumacher, que era realizar um filme que fosse, ao mesmo tempo, um sucesso comercial, mas também um filme que produzisse merchandising em peso, trazendo lucro à Warner Bros. e a outras empresas, como o McDonald’s. Depois de não ter gostado do argumento que se veio a concretizar em Batman Para Sempre, Keaton deu o lugar a Val Kilmer.

E se Batman 3 visse a luz do dia?

Depois destes anos todos, é muito pouco provável que Burton volte a realizar filmes de super-heróis, especialmente dentro do universo de Batman, portanto o seu Batman 3 vai viver apenas na imaginação dos fãs. É que, ao contrário, por exemplo, do Liga da Justiça: Snyder Cut, Burton nunca chegou a gravar nenhuma cena para o terceiro filme. Logo, é impossível dizer se Batman 3 ia salvar a série ou não, mas, se tivesse visto a luz do dia, poderá dizer-se com segurança que o inenarrável Batman & Robin nunca teria acontecido ou, pelo menos, nos moldes em que saiu.

Por outro lado, se Batman 3 existisse e fosse de qualidade semelhante aos seus antecessores, talvez nunca teríamos chegado a ver a trilogia de Christopher Nolan. Coloca-se esta hipótese porque Nolan pegou em Batman com urgência de modo a revitalizar a personagem e os seus filmes, depois de terem caído numa crise de qualidade com Batman & Robin. Aliás, após o filme ter saído em 1997, a franchise cinematográfica de Batman estava dada como morta.

Depois de Christian Bale revolucionar o papel sob as ordens de Nolan, a personagem de Batman está bem e recomenda-se, tendo entrado no Universo Estendido da DC, interpretada por Ben Affleck, e terá agora nova reencarnação com Robert Pattinson, em The Batman, filme realizado por Matt Reeves, com estreia marcada para 1 de outubro de 2021. Recorde-se que foi lançado o primeiro teaser trailer da produção de Reeves, este sábado (24), no evento digital da DC FanDome 2020.

Mas, se Burton fechou praticamente as portas a um regresso ao universo do justiceiro de Gotham, o ator escolhido por este para encarnar Batman, Michael Keaton, está de volta para interpretar a personagem. O regresso vai acontecer em The Flash, o primeiro filme a solo do super-herói Flash, realizado por Andy Muschietti, numa produção que vai iniciar o multiverso da DC.

A história vai retratar a aventura de Flash a voltar atrás no tempo para evitar o assassinato da mãe, onde é expectável que encontre a personagem de Burton. O regresso de Ben Affleck no papel também está confirmado, apesar de Muschietti ter garantido que os planos para o filme de Flash em nada colocam em causa a versão de Robert Pattinson que vai sair em 2021.

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