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Bazarkh, de Alejandro Salgado | Fonte: IndieLisboa

IndieLisboa 2020: ‘Bazarkh’, ‘Laurel Canyon: A Place in Time’ e a secção Silvestre em força no segundo dia

A 17.ª edição do IndieLisboa arrancou no passado dia 25, com uma sessão de abertura recheada no Cinema São Jorge, com a exibição de La femme de mon frère, da realizadora canadiana Monica Chokri. O festival prolonga-se até 5 de setembro e, até lá, são várias as novidades e retrospectivas que serão exibidas. Bazarkh, Laurel Canyon: A Place in Time e a secção Silvestre são os destaques do segundo dia do festival (26).

A estreia nacional de Bazarkh, a longa-metragem do sevilhano Alejandro G. Salgado, que tem marcado presença nos festivais de cinema internacionais, é uma das novidades deste segundo dia de IndieLisboa. Estacionado entre o documentário e a ficção, este filme retrata as noites de um grupo de jovens marroquinos que esperam em Melilla, uma território espanhol na costa africana, pela possibilidade de fugirem para Málaga em busca de uma vida melhor.

Antes da exibição começar, Alejandro Salgado explica ao público o significado da palavra “bazarkh”:  é “um conceito islâmico que descreve um estado de incerteza, um “limbo”. No Quran, é o intervalo entre a morte e o dia do juízo final. Não é um sítio nem um lugar. É um estado que transcende a morte física, um sentimento de perda constante“.

Bazarkh” é uma espécie de purgatório, onde se espera pacientemente por um julgamento – e paciência é a palavra de honra para Bazarkh. Em nenhum momento do filme vemos um raio de sol. Tudo se passa à noite: os jovens conversam sobre os seus desgostos, pesadelos, sonhos, saudades. Cantam e rezam a Allah, a pedir que o dia da passagem para o paraíso chegue o mais rápido possível. Deste lado, resta-nos esperar que consigam entrar num dos barcos que rondam as caves onde eles passam as suas noites, ao frio, dados à fúria do mar e sem hora marcada para partir.

Os sonhos que têm parecem muito simples: ter uma família, alguém para chamar de seu, filhos felizes que chamam por si. Mas este bazarkh, este não-lugar onde agora se encontram, é demasiado sombrio. “É preciso que sejas um sem-abrigo agora, para que no futuro possas chegar a casa e ter a tua família”, lembra um dos rapazes. A saudade que sentem não é só das mães que deixaram para trás (as canções que cantam magoam, porque lembram-lhes elas), mas também daquilo que ainda está por vir. O bazarkh é só a transição entre o inferno que julgam deixar para trás, Marrocos, e o paraíso que idealizam chegar, Málaga.

O filme não nos revela o que acontece aos três jovens. Não sabemos se finalmente amanhece, ou se continuam na escuridão do purgatório.

Destaques da secção Silvestre e Laurel Canyon: A Place in Time 

O segundo dia desta edição esteve repleto de longas e curtas metragens da secção Silvestre, composta por realizadores com três ou mais obras realizadas. Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, conta a história de duas famílias e de assombrações trazidas pelo espectro da escravatura. A película passa-se na viragem para o século XX, em São Paulo, e foi selecionada para competir pelo Urso de Ouro na 70.ª edição da Berlinale. A dupla já é íntima do festival, tendo trazido, nos últimos anos, filmes como Boas Maneiras (Dutra e Juliana Roja) e Seus Ossos e seus Olhos (Gotardo).

De entre as curtas da secção Silvestre, destacam-se Ink in Milk, do austríaco Gernot Wieland, que narra a sua infância através de métodos pouco ortodoxos, como o desenho, a plasticina e a repetição de imagens, relembrando-nos que “vivemos a partir de memórias, não da realidade” Frisson d’Amour (Maxence Stamatiadis), a história da viúva Suzanne, que mascara a dor que sente pela morte do marido com a sua obsessão com aparelhos tecnológicos, vídeos de gatinhos e filtros de Snapchat.

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Frisson D’Amour | Fonte: IndieLisboa

De ficção passamos a documentário com Laurel CanyonA Place in Time. Inserido na secção IndieMusic, esta longa-metragem de Alison Ellewood apresenta Laurel Canyon, o epicentro de eventos musicais e da contra-cultura americana. Estrelas de rockfolk, incluindo Graham Nash (Crosby, Stills, Nash and Young), Joni Mitchell, Mamas and the Papas, The Doors e Frank Zappa populavam esta idílica vizinhança na California. Allison Ellwood conta esta história através de imagens de arquivo de Henry DiltzNurit Wildeouttakes e demos para fabricar esta ode à contra-cultura dos anos 60/70.

Primeira mostra de curtas nacionais

O segundo dia contou também com a estreia da competição nacional, com a primeira exibição de curtas. Moço (Bernardo Lopes), com a participação de Carlotto Cota, o documentário Parto sem Dor (Maria Mire), Mesa (João Fazenda), sobre o simples acto de socializar à mesa de jantar e Bustarenga, uma produção franco-lusófona de Ana Maria Gomes, foram os filmes apresentados nesta primeira exibição de curtas-metragens nacionais.

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Bustarenga, de Ana Maria Gomes | Fonte: CinePT UBI

 

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