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Fotografia: Netflix/Divulgação

Crítica. ‘Lucifer’ continua a saber impressionar sem cair na banalidade

A primeira parte da quinta temporada estreou esta sexta-feira (21) na Netflix

Lucifer está de volta à Netflix. Os tão aguardados oito episódios desta quinta temporada, e que fazem parte da primeira metade disponibilizada pela plataforma de streaming, estrearam esta sexta-feira (21) e deixaram os fãs desesperados por mais.

Para além da presença do irmão gémeo de Lucifer, o passado sombrio de algumas das personagens será revelado, enquanto que o lado mais vulnerável de outras vai transparecer. Quanto a Deckerstar, será desta que o casal maravilha vai ter o final feliz que todos esperam?

AVISO: Os parágrafos que se seguem contêm spoilers

O Inferno, a Terra e o novo inimigo

A quarta temporada terminou com Lucifer (Tom Ellis) de volta ao trono do Inferno, depois de Chloe (Lauren German) lhe declarar o seu amor. Para proteger o sobrinho Charlie e controlar os demónios, Lucifer viu-se obrigado a voltar ao lugar que mais teme e é no seguimento dessa narrativa que se inicia a quinta temporada.

A partir do momento em que o trailer oficial desta nova temporada foi divulgado, o público ficou a saber que Michael, o irmão gémeo de Lucifer, ia entrar em cena e, muito provavelmente, desequilibrar a dinâmica da história e desestabilizar relações. Foi quase isso que aconteceu.

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Fotografia: Netflix/Reprodução

Ainda que o arcanjo Michael tenha atrapalhado o desenvolvimento da relação entre Chloe e Lucifer, os guionistas exploraram pouco daquilo que poderia ter sido esta relação entre a detetive e o evil twin. Para além de Chloe ter descoberto esta mentira logo no segundo episódio, a existência deste novo inimigo parece ter sido posta de parte demasiado cedo.

Se o poder de Lucifer é descobrir os desejos das pessoas, o de Michael é de saber os seus maiores medos. É muito interessante testemunhar o talento e versatilidade de Tom Ellis a interpretar um real vilão, em comparação ao seu Diabo quase inofensivo.

Nem só de Lucifer vive a série

Algo que mudou para melhor nesta temporada foi o aumento da duração dos episódios. A passar de uma média de 48 minutos para 56, esta decisão corria o risco de falhar e servir somente para “encher chouriços”. Em vez disso, foi uma escolha acertada e necessária.

Habituamos-nos a que Lucifer fosse sempre o centro das atenções mas, desta vez, os produtores e guionistas decidiram explorar personagens secundárias que são tão relevantes para a história quanto o próprio protagonista.

Todos concordamos que Maze (Lesley-Ann Brandt) é uma força da natureza que nunca quebra sob pressão e Linda (Rachael Harris) é a psicóloga bem resolvida que dá os melhores conselhos, certo? Errado. Elas são muito mais que isso.

Ainda que retratadas como um símbolo de força (e nunca deixam de o ser), a história destas duas mulheres vai muito para além do que tínhamos visto até à quarta temporada.

Maze começa por sentir os efeitos do abandono de Eve, que despertaram nela uma grande insegurança. Com medo de acabar sozinha, o demónio procura todo o tipo de distrações que a façam sentir qualquer emoção, mas sem sucesso.

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Fotografia: Netflix/Reprodução

Quando Linda a aconselha a enfrentar as marcas deixadas pelo abandono da mãe, Maze acaba por pedir ajuda a Trixie  para descobrir a história da mãe, Lilith. E porquê Trixie? O charme da criança não é indiferente a Lucifer, que, por sua vez, é o único que sabe a verdade sobre a mãe de Maze.

Num dos episódios mais cativantes da temporada, Trixie consegue que o Diabo lhe conte tudo sobre Lilith e são essas informações que levam Maze a localizar a mãe. Assim que a surpreende com uma visita para, de alguma forma, fechar esse capítulo da sua vida, percebe que Lilith não se arrepende de a ter abandonado. É nesse momento que a sua crise de identidade piora e assistimos a uma decadência emocional da personagem.

Quanto a Linda, foi revelado um acontecimento do seu passado que explica a natureza emocionalmente envolvente da personagem. Ficamos a saber que a psicóloga engravidou quando ainda era menor de idade e, na impossibilidade de criar um bebé, abandonou a filha na maternidade.

Apesar de se arrepender profundamente, quando usa esse exemplo para explicar a Maze que Lilith terá tido os seus motivos, a notícia cai como um balde de água fria. Embora forte, a revelação é esquecida quase tão rapidamente quanto é introduzida.

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Linda e Amenadiel com o filho Charlie | Fotografia: Netflix/Reprodução

Mais humanidade e igualdade de género

O episódio quatro revelou-se uma experiência bem sucedida, a preto e branco, que homenageia os filmes sobre a máfia. Nestes 55 minutos, recuamos ao ano de 1946 e descobrimos um pouco mais sobre a mãe de Maze, mas coube a Trixie marcar a narrativa de uma forma admirável. O episódio, narrado por Lucifer, foi um momento que permitiu jogar com diversidade de género ao colocar mulheres a interpretar personagens que seriam protagonizadas por homens na época.

Nas palavras de Trixie, “as mulheres também podem ser detetives”, daí a inclusão feminina usada por Lucifer. Lucifer passou a atender ao pedido da criança e incluiu ainda casais do mesmo sexo, enquanto se tentava manter fiel à realidade da época.

No que toca ao mais lado humano das personagens, este foi um ponto muito explorado nesta primeira parte. Lucifer voltou do Inferno com uma atitude diferente, aberto a críticas e disposto a ser aconselhado em vez de agir por impulso.

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Lilith e Lucifer em 1946 | Fotografia: Netflix/Reprodução

Também Ella (Aimee Garcia) levantou a capa de energia que veste todos os dias e mostrou algumas fragilidades no que toca a relações e Dan (Kevin Alejandro) obrigou-se a adotar uma postura mais positiva para tentar lidar com a morte de Charlotte.

Deckerstar e a magia roubada

Desde a primeira temporada da série que torcemos para que Lucifer e Chloe acabem juntos. A ansiedade dos espectadores é testada a cada episódio que passa, sendo que há sempre algum impedimento para que o casal finalmente se junte.

Quando Amenadiel (D. B. Woodside) decide visitar o irmão no Inferno e o avisa que Michael está a fazer-se passar por ele na Terra para enganar Chloe, Lucifer deixa-o a tomar conta do trono e volta à Terra apenas por uns dias (pensa ele). Quando chega, já Chloe desmascarou Michael e o afastou com a repugnância que mereceu.

Assim que se reencontra com a amada, percebemos que a química entre os dois não se perdeu e pouco tempo passa até o casal iniciar uma tímida relação. Perante a felicidade que sente, os casos de homicídio que vão aparecendo são a desculpa perfeita para Lucifer ficar mais tempo perto da detetive.

Tudo parecia bom demais para ser verdade, no entanto, os guionistas surpreenderam, Deckerstar teve a sua primeira noite de amor e os fãs viram finalmente o seu desejo concretizado.

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Chloe e Lucifer | Fotografia: Netflix/Divulgação

Como a felicidade destes dois não pode durar para sempre, na manhã seguinte, Chloe imita Lucifer e faz-lhe a famosa pergunta “what is it that you desire?”. A resposta que se seguiu apanhou todos de surpresa – o Diabo disse a verdade, o que significa que Chloe passou a ter a magia de Lucifer. Ou como eles lhe chamam: “our mojo”.

De repente, um turbilhão de emoções atingiu Lucifer, que ficou extremamente indignado porque perdeu aquilo que o tornava único e passou a ver Chloe ser a encantadora de desejos durante os interrogatórios.

Os poderes eventualmente voltaram para Lucifer, mas deixou de ser vulnerável quando a detetive está por perto. Prova disto foi quando Dan, após ter visto a devil face de Lucifer e ter descoberto que ele é o Diabo, alvejou Lucifer e este não ficou com um único arranhão.

O primeiro amor de Ella e o assassino silencioso

Um dos pontos mais importantes da história tem um nome: o assassino silencioso. Os assassinatos do serial killer que coloca um ramo de lírios na mão das vítimas e, de seguida, lhes corta as cordas vocais é investigado pela dupla Chloe e Lucifer que, eventualmente, apanham o responsável. Ou assim pensamos nós.

Quatro mulheres foram mortas, mas apenas três delas têm o mesmo modus operandi, o que leva Chloe a interrogar novamente o suspeito que prenderam. Num conjunto de perguntas com ratoeiras suficientes para o apanhar em falso, a detetive descobre que esse homem é um copycat e só matou uma das quatro mulheres.

Assim sendo, quem é e onde anda o verdadeiro assassino? Esta é uma pergunta que ninguém está preparado para ver respondida.

Virando agora a atenção para a Ella, descobrimos que o ponto fraco da nerd é envolver-se com bad boys. Depois de tantas más decisões, ela conhece Pete (Alexander Koch), um jornalista amoroso que é um forte candidato ao seu coração.

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Ella e Pete | Fotografia: Netflix/Divulgação

Lucifer acaba por incentivá-la a dar uma oportunidade a Pete, na esperança que Miss Lopez seja finalmente feliz. Quando os dois iniciam uma relação, a nossa cientista forense está verdadeiramente feliz e o rei do Inferno dá por si a desejar ter uma cumplicidade tão grande com Chloe como a que Ella e Pete partilham.

Quando a equipa precisa de ajuda para apanhar o verdadeiro assassino silencioso, Pete e Ella juntam-se para investigar e o jornalista chega a pesquisar por conta própria, colecionando em casa uma caixa repleta de ficheiros sobre o caso.

Pete decide então dar o passo seguinte na relação e surpreender Ella com uma chave para o seu apartamento. No entanto, quando Ella vai ao apartamento do namorado buscar os ficheiros que ajudariam no caso do assassino silencioso, encontra um quarto secreto escondido atrás de uma parede. Lá dentro crescem dezenas de lírios e é nesse momento que Ella descobre quem é o assassino. Ainda incrédula, quando se prepara para sair, é surpreendida por Pete e tenta o seu melhor para disfarçar o choque.

Escusado será dizer que o serial killer está pronto para a matar, mas Ella não se deixa deter e consegue magoá-lo o suficiente para o parar e chamar a polícia.

Detetive Morningstar e a batalha celestial

Sempre forte e destemido, no oitavo episódio, Lucifer perde a compostura quando descobre que Chloe foi raptada.

Inicialmente convicto de que o assassino silencioso raptou a detetive, visto que Chloe andava a investigar pistas sobre o seu paradeiro na darkweb, Lucifer vestiu a pele de detetive e surpreendeu toda a gente quando montou uma investigação à volta do rapto, pondo em prática o que aprendeu com Chloe.

A reviravolta acontece quando descobrem que, afinal, foi o seu irmão gémeo Michael quem raptou Chloe para chegar até ao irmão. O mais chocante é que foi Dan quem ajudou o arcanjo nos seus planos, na promessa de destruírem Lucifer juntos.

Assim que Lucifer envia Maze e Amenadiel para salvar a detetive, tudo acaba em bem. Well, quase tudo, já que, quando se reencontra com a detetive e está prestes a retribuir o tão esperado I love you, o tempo pára. Que timing, Amenadiel.

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Michael, Lucifer e Amenadiel | Fotografia: Netflix/Divulgação

Tudo isto nos leva ao confronto final, uma cena de luta feroz e fortemente coreografada entre Michael, Lucifer, Amenadiel e Maze, que se enfrentam numa batalha celestial que só termina quando Deus (Dennis Haysbert) chegou à Terra e pôs um ponto final na luta entre os filhos.

Cinco temporadas depois, Lucifer continua a saber surpreender

O cliffhanger foi totalmente inesperado e acaba por gerar uma reflexão. Até à data, os irmãos celestiais sempre foram caucasianos, à exceção de Amenadiel e, de certa forma, a série sempre foi construída de forma a parecer que Deus, ou teria a mesma etnia, ou nunca iria revelar a sua identidade.

O facto de Deus ser um homem negro vem quebrar vários estereótipos. Sendo Ele a mais poderosa criatura celestial, Deus podia apresentar-se com qualquer forma ou cor, ou até como uma mulher. A diversidade racial é bonita de se ver em Lucifer.

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Deus | Fotografia: Netflix/Divulgação

Pela forma como o último episódio termina, é provável que Michael seja o grande vilão da segunda parte da temporada, o que parece ser uma decisão acertada, já que o arcanjo tem um grande potencial de evolução. Deus também poderá estar no centro das atenções, principalmente se a relação entre Ele e Lucifer for explorada.

Recheada de revelações, com uma narrativa fresca e repleta de strong statements, esta quinta temporada não desiludiu e cumpriu todas as expectativas.

Com uma sexta temporada já garantida, prevê-se que a segunda parte deste capítulo fique disponível na Netflix em dezembro ou início de 2021.

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