Fotografia: Netflix/Divulgação

Crítica. ‘Biohackers’ tinha tudo para ser perfeita

O thriller tecnológico é a mais recente aposta alemã da Netflix. Apesar de ter vindo a ser comparada à compatriota Dark, a narrativa de Biohackers lembra séries como Black Mirror, Altered Carbon e Orphan Black (apesar de não chegar nem perto do nível de genialidade, principalmente desta última). Criada por Christian Ditter (realizador de filmes como Deixa o Amor Entrar e Como Ser Solteira e da série Girlboss, igualmente da Netflix) e com Luna Wedler no papel principal, a produção acompanha as peripécias da jovem Mia Akerlund ao mesmo tempo que questiona o papel da ciência no mundo atual.

A produção dividida em seis partes finalizou rodagem no início de setembro do ano passado. Apesar da satisfação inicial, a estreia foi adiada pela Netflix de 30 de abril para 20 de agosto – mais um dos múltiplos efeitos da pandemia. Em causa estavam algumas cenas que poderiam ser associadas à Covid-19, bem como a própria temática da série. A verdade é que, independentemente disto, a série está no top 10 em Portugal da plataforma de streaming desde que ficou disponível.

Biologia sintética

Segundo Ditter, a ideia para esta história partiu de uma simples pergunta feita a cientistas: “O que não te deixa dormir à noite?” Esperando respostas como “inteligência artificial” ou “alterações climáticas”, o realizador ficou surpreendido ao ouvir a resposta “biologia sintética”. Mas, afinal, o que é isto?

A biologia sintética combina áreas como a biologia molecular, a química orgânica e a bioengenharia para criar células sintéticas com propriedades específicas. “É como usar blocos de LEGO“, nas palavras do realizador. Lorenz, a antagonista de Biohackers, também explica logo no primeiro episódio este mundo ainda pouco conhecido do cidadão comum – e, até, algo assustador.

Fotografia: Netflix/Divulgação

A biologia sintética faz-nos passar de criaturas a criadores. Não é apenas o futuro da medicina, mas o futuro da Humanidade. Podemos prevenir doenças antes que surjam. Dar oportunidades iguais independentemente de fronteiras e classes sociais. Erradicar doenças genéticas. Ou toda a Humanidade, se não fizermos bem os nossos trabalhos. É nossa responsabilidade criar o mundo do futuro. É vossa responsabilidade. São os criadores do amanhã.” A isto, uma das alunas na sala interroga “E Deus?”, ao que a bióloga responde com “Honestamente? Tornaremos Deus obsoleto”.

De acordo com a divulgação feita pela Netflix, Biohackers foi escrita e filmada com acompanhamento próximo de cientistas e especialistas da área. À partida, a ciência estará correta e dentro do eventualmente possível, apesar de roçar bastante a ficção científica. Na prática, a componente mais ficcionada surge do mundo underground do biohacking que, evidentemente, dá nome à série. Esta realidade junta a teoria da biologia sintética à ética hacker, desenvolvida em regime DIY (faz tu mesmo) e, em muitos casos, com mais riscos do que benefícios.

Até agora, as grandes multinacionais e instituições no meio têm-se mantido à margem (pelo menos oficialmente) desta prática, chegando mesmo a ser ilegal em diversos países – como é o caso da Alemanha. No fundo, toda esta biotecnologia mostrada na série tem a intenção de levantar questões como Onde estão os limites da ciência?, “Quem os estabelece?” e “Até onde podemos – ou devemos – ir?”.

Premissa idealizada para agarrar a curiosidade

A narrativa central de Biohackers foca-se em Mia (Luna Wedler), uma estudante de medicina acabada de chegar à Universidade de Friburgo. Percebe-se logo à partida que o seu interesse pela medicina, pela biologia ou mesmo pelos mundos revolucionários da biologia sintética e do biohacking não é puramente académico. Mia pretende ganhar a confiança da professora Tanja Lorenz (Jessica Schwarz, O Perfume: História de um Assassino), bióloga e médica apresentada com pompa e circunstância aos alunos. Apesar da ligação demorar a ser revelada, fica subentendido que Lorenz terá estado envolvida (ou até mesmo determinado) no destino do gémeo de Mia, Ben, e que há muito mais para lá do que a cientista deixa o mundo ver relativamente aos seus estudos.

Também logo nessa primeira aula, Mia fica a conhecer Jasper (Adrian Julius Tillmann), um estudante de biologia que adormece nas aulas e, mesmo assim, é o assistente pessoal de Lorenz. Já Chen-Lu (Jing Xiang), Ole (Sebastian Jakob Doppelbauer) e Lotta (Caro Cult) são os companheiros de casa de Mia. Bizarros, mas adoráveis.

Avanços e recuos

O primeiro episódio arranca em força com uma sequência de eventos catastrófica. Mia e um rapaz estão de mão dada num comboio; de repente, uma senhora cai com o que parece ser uma paragem cardíaca. Uns segundos depois, outra senhora cai com o que parece ser outra paragem cardíaca, seguida de outra e mais outra. Em poucos minutos, toda a carruagem está inconsciente.

Mudando drasticamente de cenário, a narrativa recua duas semanas para uma Mia a chegar ao seu novo apartamento em Friburgo. Daí para a frente, a série vai combinado momentos relaxados da vida de estudantes universitários com cenas carregadas de suspense e mistério, à medida que a jovem vai avançando na sua investigação furtiva. Paralelamente, o momento presente (ou melhor, o passado duas semanas antes do presente) vai sendo interrompido por flashbacks da infância de Mia e flashforwards da fatídica viagem de comboio. Esta estratégia narrativa acaba por ser crucial para agarrar os espectadores, dando pequenas pistas para como tudo poderá estar interligado.

Fotografia: Netflix/Divulgação

Ainda assim, o primeiro episódio não acerta bem no que toca a convencer a seguir a série – talvez por ser um pouco desorganizado. Para uma introdução, deixa no ar a ideia de uma bióloga milionária sem escrúpulos que parece ter o Complexo de Deus, um triângulo amoroso à espera de explodir – quando se percebe que o jovem do comboio é Niklas (Thomas Prenn), o melhor amigo de Jasper – e a tensão palpável entre Mia e Lorenz, aliada ao passado ainda turvo de ambas.

Se o primeiro não agarra, os seguintes deixam qualquer pessoa colada ao sofá. É uma daquelas séries que torna humanamente impossível fugir ao binge-watching. A velocidade vai aumentando, a ansiedade também e a partir de um certo ponto o ritmo da série é rápido e as voltas e reviravoltas são uma constante. Acaba por ser viciante, acabando, inevitavelmente, o espetador por assumir um papel de detetive, tentado acertar com todas as peças do puzzle e revelar a imagem final antes de a série lá chegar.

Escolhas

Apesar de a ideia estar explícita no trailer inicial, a verdade é que se esperava uma série um pouco mais séria: perde-se demasiado com futilidades de adolescentes e um triângulo amoroso que nem precisava de existir. Mia é demasiado inteligente para quase deitar tudo a perder por namoricos. Da mesma forma, a personagem em si é demasiado inteligente para cometer certos erros e brincar com o perigo – e o tempo – como o faz.

A nível das outras personagens, Chen-Lu e Ole acrescentam um lado divertido e fascinante com as suas invenções de biohacking. Jasper passa a ser uma desilusão, embora se redima no final. E se 2020 fosse uma personagem, seria a Drª Lorenz – sem qualquer sombra de dúvida.

Fotografia: Netflix/Divulgação

Já o final é absolutamente desnecessário. Podia alongar-se por mais uns minutos, resolver a intriga de uma forma conclusiva e terminar a série assim. Em vez disso, é despejado um cliffhanger que deixa a ideia de uma segunda temporada, ainda que esta não tenha qualquer garantia de acontecer. Se bem executada, pode valer a pena, embora certas narrativas funcionem na perfeição como minisséries e alongar se torne num erro.

Biohackers é uma produção interessante de se ver. A direção de fotografia é bastante boa, ainda que opte por alguns movimentos de câmara questionáveis. Se a ideia era manter-se fiel à ciência, foge um pouco para o universo da ficção científica, com manipulação genética q.b. e resultados que deixam a saúde dos próprios num estado duvidoso. A vingança que Mia – ou Emma – tanto ambiciona acaba por ser o combustível que continua a mover tudo e todos. Mesmo enquadrando-se no limiar das séries para jovens, a produção alemã é uma lufada de ar fresco temática. Refrescante, empolgante e uma excelente embaixadora das produções europeias.

Brincar com a ciência

Uns dias antes da estreia da série, a Netflix divulgou um vídeo promocional em que aborda a ciência que suporta Biohackers (“para mostrar que isto é mais ciência do que ficção”) e anuncia, também, que esta é a primeira série do mundo a ser armazenada em ADN. “A nossa série sobre biotecnologia é agora uma experiência biotecnológica em si”, explica Luna Wedler. Mas como é isto possível?

O ADN tem capacidade de armazenamento infinitamente maior do que qualquer tipo de armazenamento digital conhecido. O ficheiro do primeiro episódio foi convertido em zeros e uns – o código binário que é a base de todo o processamento de informação digital. Depois, a própria sequência binária também foi transformada; o código em zeros e uns passou a ser código nas quatro bases que constituem os blocos genéticos: adenina, guanina, citosina e timina. Desta forma, as sequências de ADN puderam ser geradas a partir do código, sendo posteriormente preservadas em compartimentos de vidro invisíveis a olho nu. Por fim, estas “nano-contas” foram adicionadas ao fluído cor de rosa visível no vídeo, contendo ao todo cerca de um milhão de cópias do primeiro episódio de Biohackers.

Com tanta tecnologia para criar biologia ou biologia para criar tecnologia, será que estas personagens vão conseguir alguma paz? Teremos de esperar por uma eventual segunda temporada para o saber.

'Biohackers'
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