Tenet
Fotografia: Warner Bros./Divulgação

Crítica. ‘Tenet’: Christopher Nolan é grandioso mesmo quando dá um passo atrás

O filme chega aos cinemas portugueses a 26 de agosto.

É já nesta quarta-feira (26) que Tenet, o novo filme de Christopher Nolan, chega às salas de cinema portuguesas. A produção norte-americana carrega consigo a árdua missão de convencer os espectadores de que é seguro o regresso aos cinemas, numa tarefa complicada de impedir a falência total da indústria cinematográfica.

Devido à pandemia, o filme foi sucessivamente adiado, mas Nolan manteve-se sempre firme na vontade de ver o seu novo épico de espionagem chegar ao grande ecrã. Para isso, a Warner Bros. modificou a política de lançamento do filme, sendo que Tenet estreia esta semana em mais de 70 países, incluindo Portugal, mas só será visto pelo público norte-americano a 3 de setembro. A decisão pode parecer estranha dado que os Estados Unidos será o local onde Tenet terá mais lucro, mas tudo isto se explica pelo aumento de casos da Covid-19 no país.

O Espalha-Factos assistiu à antestreia do filme e conta-te o que podes esperar da nova obra de Christopher Nolan.

AVISO: Este artigo contém spoilers sobre o filme Tenet

Tenet é uma maravilha técnica com história aquém

Tenet é, do ponto de vista técnico, o melhor filme de sempre de Nolan. E isto é dizer muito, dado que o realizador foi a mente por detrás de maravilhas visuais como os wormholes de Interstellar, as ruas de Paris que se dobram em A Origem ou quando decidiu usar Spitfires verdadeiros para simular lutas aéreas em Dunkirk. Neste domínio, Nolan apresenta-nos o seu melhor produto até à data, completamente imaculado.

Mas há falhas na história e na forma como esta nos é entregue no grande ecrã, que levam à conclusão de que Tenet não é perfeito. Parece que faltou algo a Nolan para chegar ao patamar da excelência, apesar do verdadeiro festim visual e sonoro com que nos presenteia, para além de um elenco que dispensa apresentações.

O argumento centra-se numa missão dada ao The Protagonist (John David Washington), um agente secreto incumbido de localizar e eliminar Andrei Sator (Kenneth Branagh), um oligarca russo que está no centro dos acontecimentos que desencadeiam a narrativa. Para levar a cabo a sua missão, The Protagonist conta com a ajuda do espião inglês Neil (Robert Pattinson) e vai ter de inverter o tempo de modo a parar Sator, que quer começar a terceira Guerra Mundial e acabar com o mundo inteiro.

A história começa dentro de uma sala de espectáculos, na Ucrânia, cheia de pessoas sentadas a usar máscara (e aqui Nolan parece prever os nossos dias de hoje), adormecidas, prestes a serem todas assassinadas, numa cena que explode de tensão graças à banda-sonora de Ludwig Göransson, que fez tremer o chão da sala IMAX do Colombo. Göransson teve a complicada tarefa de substituir Hans Zimmer, o habitual parceiro de Christopher, no departamento sonoro e, oferecendo ritmos pulsantes e electrónicos, cumpriu na perfeição a sua missão.

A cena apresenta-nos ao já citado The Protagonist, onde tenta impedir um ataque terrorista, que iria resultar na morte da plateia da sala, acabando por ser capturado e torturado. De modo a não partilhar informações secretas com os russos, consegue tomar um comprimido de suicídio que a CIA lhe deu. A personagem de Washington acorda num hospital, onde lhe é contado que o comprimido era um teste e que este está agora pronto para tentar prevenir a futura Guerra Fria que aí se avizinha.

À medida que o filme avança, Nolan dá-nos a conhecer mais cenas de ação impressionantes, desde personagens a fazer bungee-jumping em cascata sobre um arranha-céus, coreografias de lutas corpo a corpo e uma perseguição de carro de cortar a respiração. As duas últimas, aliás, trazem consigo a premissa da inversão do tempo, provocando resultados fulgurantes.

Para além disso, Tenet é um verdadeiro guia turístico, levando o The Protagonist a visitar o Reino Unido, a Índia, Itália, Estónia, entre outros países, em mais um soberbo trabalho de fotografia de Hoyte van Hoytema, já conhecido de Nolan dos tempos de Interstellar e Dunkirk.

A excessiva exposição nos filmes de Nolan

Ao longo da carreira, Nolan tem-nos apresentado a sua paixão temática predilecta, o tempo, e a forma como este influencia as nossas vidas. Tenet está mais próximo, do ponto de vista narrativo, de A Origem ou Interstellar, por exemplo, do que o seu último trabalho, Dunkirk. E a verdade é que os seus filmes se tornam menos consensuais quando abordam a temática porque é aqui, e principalmente em Tenet, que Christopher expõe os seus pontos mais fracos enquanto cineasta.

Recuando brevemente no tempo, Dunkirk foi o primeiro filme responsável por dar a Christopher Nolan a nomeação para o Óscar de Melhor Realizador. A produção, centrada no evento histórico da II Guerra Mundial, é o filme mais curto da carreira de Nolan, contando com uns “meros” 94 minutos. Serviu de resposta a uma das maiores críticas feitas a Christopher – a excessiva exposição que paira sobre os seus enredos, dado que existem muito poucas falas em Dunkirk.

Quem não se lembra dos minutos gastos em Interstellar onde se discutiu o que acontecia dentro do Tesseract (uma das mais bonitas criações de Nolan e da sua equipa de produção)? Ou quando a personagem de Matthew McConaughey precisa que lhe expliquem como funciona um wormhole mesmo antes de entrar dentro dele? Percebe-se de onde Christopher Nolan parte, dado que apresenta à audiência conceitos complicados nos seus filmes, que certamente requerem um maior grau de explicação para que não percamos o fio à meada.

O cineasta brilha quando consegue transpor visualmente tudo aquilo que as personagens explicaram minutos antes, mas perde-se muito, e de forma recorrente, em explicações que apenas adensam a narrativa e a tornam num quebra-cabeças mais complicado do que o necessário. Em Tenet, multiplica este problema por dez. O filme, aliás, pode ser dividido no lado A e no lado B: no primeiro temos as conversas entre The Protagonist e inúmeras personagens, onde se discutem temas como física quântica, paradoxos temporais, a inversão e entropia, e no lado B, as cenas grandiosas de ação que põem em prática esses mesmos conceitos.

Tenet Estreias

Se o lado B é o ponto forte de Tenet, onde Christopher tem a oportunidade de pôr um Boeing 747 de carga, usado como distração, a embater contra o terminal de um aeroporto, de gravar perseguições automóveis em dois momentos temporais distintos, mas de forma simultânea, ou de nos mostrar balas revertidas, que regressam da parede de onde estavam para a arma, deixando o espectador maravilhado com o espectáculo que lhe está a ser apresentado, o lado A é o que puxa o filme para baixo, tornando Tenet num produto mais confuso do que era necessário.

A certo momento de Tenet, a personagem de Clémence Poésy, cientista na trama, parece resumir bem o espírito de quem está a ver o filme. “Não tentes percebê-lo, sente-o.”, diz a cientista ao The Protagonist, quando este entra em contacto com um novo tipo de arma radioactiva, mais especificamente, as armas invertidas, que já foram disparadas num certo momento do futuro e que vieram de lá para o tempo presente da história.

Nolan parece que está a falar com a sua audiência, pedindo-nos que confiemos nele e em tudo o que põe em prática, mas é complicado de satisfazermos o pedido quando temos de tentar conectar pontos da trama embutidos em duas horas e meia de explicações pesadas sobre física. Logo, sucessivas personagens fazem questões como “Sabes o que é um freeport?”, ou “Sabes o que é o paradoxo do avô?”, não perdendo tempo, imediatamente a seguir, a debitar as respostas que servem de caminho assinalado para o The Protagonist, e nós, enquanto audiência, chegarmos à meta final pensada por Christopher.

O filme começa desde logo a marcar o seu tom expositivo quando o The Protagonist é apresentado aos mistérios da inversão, em que lhe é explicado ao detalhe a forma como um objecto, ou uma pessoa, pode ter a sua entropia revertida, fazendo com que, para quem esteja a avançar para a frente no tempo, esse mesmo objecto pareça estar a andar para trás.

Explicar ou sintetizar a argumentação que nos é apresentada no filme, para além de estragar algumas das surpresas que Christopher reservou para o espectador, seria ineficaz na medida em que Tenet requer uma segunda ou terceira visualização, dada a complexidade dos assuntos em cima da mesa. Certas reviravoltas do filme serão melhor compreendidas se tivermos mais atenção a pequenos detalhes que só poderão ser absorvidos à luz de uma segunda ida ao cinema.

E Nolan divide-se em duas tarefas que são, pelo menos no filme, manifestamente contrárias uma da outra. Se em primeiro lugar, quer deixar a audiência bem informada, colocando Michael Caine, Clémence Poésy e Robert Pattinson em parte, como agentes de exposição dos conceitos científicos, por outro lado, quer omitir pormenores e segredos ao espectador, criando paradoxos narrativos e laços que teimam em atar-se.

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Um elenco assombroso exceptuando o antiquado Brannagh

Mas, quando falamos do novo filme de Christopher, não podemos apontar-lhe a ausência de humor como se de uma falha se tratasse. Quem conhece os trabalhos anteriores de Nolan sabe que as suas narrativas deixam pouco espaço para momentos mais leves e o seu mais recente filme é, aliás, dos que mais gargalhadas proporciona ao espectador. Michael Caine oferece-nos uma pequena dose, e tão necessária, de humor inglês, na sua breve aparição. Já alguns dos diálogos, a roçar a ironia, entre Pattinson e Washington, carregam em si uma leveza bem-vinda, enquanto estes navegam pelos conceitos mais complexos da inversão.

Kenneth Branagh e Elizabeth Debicki numa intensa cena de luta invertida.
Warner Bros. / Divulgação

Ao nível de elenco, a única carta fora do baralho é Kenneth Brannagh, no papel do vilão russo. Demasiado caricatural e apresentando um sotaque russo bolorento, dos tempos da Guerra Fria, pedia-se mais densidade às motivações da personagem que quer acabar com o mundo. Sator quer provocar o fim do mundo porque tem cancro terminal e, nas suas palavras, se ele não pode ser feliz, ninguém mais o pode ser.

Só mais perto do fim do filme é que nos apresenta outro tipo de justificação para as suas ações, como as alterações climáticas que fazem urgir um reset do mundo em que vivemos, mas é algo que se perde no meio da velocidade da trama e nas várias linhas temporais que colidem nos últimos momentos de Tenet. As ramificações do seu plano são muito interessantes de serem exploradas, mas Nolan nunca chega a esse território.

John David Washington cumpre bem a tarefa que lhe é proposta, mostrando que consegue carregar aos ombros filmes mais pequenos como o brilhante BlacKkKlansman de Spike Lee, ou esta grandiosa produção com um orçamento de cerca de 180 milhões de euros. A sua tarefa não é fácil, dado que a personagem de Washington se chama simplesmente The Protagonist (segundo os créditos do filme) e não tem nenhuma história pessoal que faça, à primeira vista, com que nos prendamos emocionalmente com este.

Isto poderia ser altamente problemático, e é também uma das críticas que se aponta a Nolan, no facto deste, na opinião de alguns, não saber construir personagens e servir-se apenas delas para o esquema maior, o argumento construído. Ao usar o elenco para fins puramente explicativos e de entrega dos conceitos intrincados que marcam as suas criações, é normal que os atores nos filmes de Nolan pareçam mais mecanizados do que o normal.

Mas Washington vende bem a sua parte ao espectador, apresentando um fulgor invejável em todas as intensas cenas de ação em que está envolvido, em que se salienta, por exemplo, a cena de luta coreografada numa cozinha, demonstrativa também da evolução de Nolan no que toca a filmar lutas entre personagens, envergonhando trabalhos seus anteriores, especialmente Batman – O Início. Para além disso, o ator demonstra uma honestidade palpável nas suas expressões, sendo eficaz a transmitir-nos que está a aprender tudo sobre a inversão ao mesmo tempo que nós.

Robert Pattinson e John David Washington têm a melhor química de todo o filme.
Warner Bros. / Divulgação

Se o papel de The Protagonist está bem entregue a Washington, os pontos mais brilhantes são Robert Pattinson e Elizabeth Debecki. Pattinson oferece carisma e charme a Neil, estabelecendo uma química invejável com o The Protagonist, com o seu cool british accent, mas encerrando sempre em si um mistério de alguém que não conta tudo aquilo que sabe, uma personagem mais densa do que aparenta ser.

Debecki, do seu lado, oferece algo a Tenet – uma âncora emocional. Vestindo a pele de Kat, a mulher de Sator, a personagem sofre horrores às mãos do marido e vê-se impedida de se divorciar dele e fugir com o filho que ambos têm em comum. Apesar de por vezes roçar o conceito da clássica rapariga que está à espera que a salvem, aquilo que a sua personagem traz, quando anda para trás e para a frente no tempo, é uma novidade face às personagens femininas, maioritariamente virginais, que pontuam os anteriores trabalhos de Nolan, sempre tão pobres em relação ao lado feminino.

Tenet é um passo atrás na carreira de Nolan

Mas Kat não basta para que o filme se conecte emocionalmente com o espectador. Muito por culpa de The Protagonist se reduzir a isso mesmo, a um protagonista não identificado e a tantas explicações de física, paradoxos e carros invertidos, o espectador não tem tempo e espaço para se deixar ligar com o coração ao filme. Isto é também algo recorrente nas criações originais de Nolan, mas é um passo atrás em relação a Interstellar, o seu último filme menos linear, de 2014.

Foi em Interstellar que, pela primeira vez, Christopher nos deixou entrar no seu lado mais emotivo, explorando a relação de um pai e uma filha, o que o distanciamento físico e temporal pode causar, e a forma como a passagem (dilatada) do tempo influência as nossas relações. Trago de volta a cena em que Cooper (Matthew McConaughey) chora copiosamente ao ver vídeos deixados pela filha, depois de ter entrado num blackhole durante umas horas, que fez com que tivessem passado 20 anos na Terra.

Se em 2014 isto tinha sido uma bonita e comovente novidade naquilo que Nolan trazia em carteira, não temos nada que chegue a este patamar em Tenet. Não há desenvolvimento nas ambições das personagens e o filme perde-se a tentar esconder, com uma mirabolante ginástica expositiva, a sua premissa que é, na verdade, bastante simples. Tenet é um clássico filme de espionagem (indo muito para além dos filmes de Bond, é certo), com o twist de ficção cientifica típico nas obras de Christopher. E o filme seria melhor se adotasse, de braços abertos, a acessibilidade que marca a base da sua história.

No final, Tenet não “borra a pintura”

Apesar de algumas decisões criativas problemáticas, não podemos virar a cara ao esforço de Nolan. Tenet é visto por muitos como o salvador da sétima arte, o blockbuster certo para trazer de volta as pessoas às salas de cinema, salvando a indústria da queda colossal que sofreu durante a quarentena imposta pela Covid-19. E temos de aplaudir Christopher por querer salvar a indústria que tanto gosta com o empenho que lhe é reconhecido.

Não há ninguém, hoje em dia, que disponha um orçamento de 180 milhões de euros e crie filmes tão originais e marcantes como Nolan. James Cameron anda a dedicar-se, desde 2009, a trabalhar em quatro sequelas do já longínquo Avatar. Peter Jackson investiu em três filmes de Hobbit. Nolan move-se num território que é só dele, nos dias de hoje, ao apostar em histórias únicas, fora das caixas típicas das franchises, sequelas e filmes de super-heróis.

É de louvar a forma como tenta, com o orçamento que tem nas mãos, fazer um filme como Tenet, aliando espectáculo e grandes sequências de ação com um argumento inteligente e complexo, diferenciando-o dos restantes blockbusters tradicionais, mesmo que chegue a resultados mais confusos desta vez. Mesmo assim, Tenet é um filme monumental, que merece ser visto no maior ecrã possível, dado que grande parte foi gravado com câmaras IMAX.

O filme é brilhante a espaços, quando conseguimos tomar o conselho da personagem de Poésy e “sentirmos” o filme, deixando-nos levar pelo carro do The Protagonist a ir numa direção e o carro de Sator a acelerar para trás, ou quando, numa cena singular na cinematografia de Nolan, o realizador entrega-nos uma sequência de guerra perto do fim do filme. Christopher coloca dois exércitos a trabalhar na mesma cena, mas separadamente, um a avançar no tempo e o outro a ir em direção contrária. É neste tipo de sequências que Tenet chega ao patamar dos melhores filmes de Nolan e leva-nos a perguntar como é que o realizador e a sua equipa de produção conseguiram, logisticamente, chegar a estes resultados.

Apesar de ser mais simples do que tenta transparecer, Tenet é imersivo na sua experiência, arrebatador em partes, barulhento e cheio de reviravoltas, muitas delas complicadas de se entender e que serão, talvez, a chave para que o filme tenha sucesso a nível de bilheteiras, em plena pandemia. Nolan construiu a narrativa de forma a que os espaços de discussão no Reddit tenham uma implosão ao nível de teorias em torno de alguns eventos de Tenet, e convida o espectador a ir mais que uma vez ao cinema, para tentar desvendar (talvez em vão) os mistérios que lhe são colocados à frente.

Mesmo que quem vá ver Tenet saia da sala de cinema sem entender totalmente o que acabou de ver durante duas horas e meia, o filme nunca é aborrecido, apresentando-nos um conceito original e refrescante, que foge dos padrões habituais, dos remakes e reboots que marcam o mais recente panorama cinematográfico. E é produto de Nolan, um cineasta seguro de si mesmo, sempre responsável por filmes com selos garantidos de qualidade, sendo incrível a forma como este consegue capturar a nossa imaginação e fazer-nos meditar sobre o tempo e as suas consequências.

Tenet pode não ser revolucionário, mas dá-nos algo que ansiamos há muito tempo desde a quarentena: um produto que nos distrai e faz esquecer a crise humanitária que atravessamos. Não sendo o melhor filme de Nolan, é um escape necessário à nossa realidade, e Tenet cumpre esse papel na perfeição, merecendo ser visto na sala de cinema mais próxima.

Tenet
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