Rita Redshoes
Fotografia: Rita Redshoes/Facebook

Entrevista. Rita Redshoes: “Veio à tona tudo o que está por fazer”

Num ano difícil e diferente devido à pandemia que tudo parou, o Dia do Artista assinala-se esta segunda-feira, dia 24 de agosto

O Dia do Artista celebra-se esta segunda-feira, dia 24 de agosto, embora noutras cores. A pandemia da Covid-19 levou à suspensão de todos os eventos culturais de cariz presencial, o que deixou muitos artistas sem qualquer forma de gerar rendimento. Em conversa com o Espalha-Factos, Rita Redshoes afirmou que “há uma falta de conhecimento da parte do Governo sobre a vida real das pessoas que trabalham e que vivem da arte em Portugal” e que isso se revela na falta de soluções para ajudar os artistas.

Para além da falta de ajudas por parte do Governo, a cantora e compositora falou ainda sobre o confinamento que viveu com o namorado e a filha e os concertos no quintal. Por outro lado, Rita Redshoes revelou situações de dificuldade por parte de colegas e conhecidos que lhe “tiraram o sono muitas noites”. A artista acredita que as repercussões desta crise acentuada no setor cultural vão ser cada vez mais dificuldades, mais fome, mais pessoas a terem que deixar de ser músicos ou técnicos e vão ter que encontrar outra solução”.

Rita Redshoes
Fotografia: D.R.
Como foi, de repente, verem os concertos e em grande parte as gravações de novos trabalhos, que são as vossas principais fontes de rendimento, serem suspensos?

Tem sido um processo doloroso e angustiante, como é óbvio, estar nesta fase sem poder, no fundo, trabalhar. Porque não é uma questão de querer, ou de fazer uma pausa, ou de não ter um disco. É, de facto, uma coisa que nos transcende e que nós não temos controlo sobre ela. Isso torna as coisas mais complicadas de gerir em termos de ansiedade. Não sabemos quando é que isto vai passar e, portanto, vemos o nosso trabalho comprometido por tempo indefinido. Tem sido um processo de ter que arranjar paciência, resiliência, alguma coragem e algum otimismo.

Sem poder dar concertos ou lançar discos, quais eram as soluções?

Na verdade não há assim muitas soluções para aquilo que nós fazemos. Durante o confinamento, houve algumas iniciativas, por parte de bastantes músicos, artistas, atores e atrizes, de fazer lives para as pessoas de uma forma gratuita, dando o nosso trabalho às pessoas. Mas claro que não é uma situação que se possa prolongar ou repetir, porque nós vivemos dos concertos, de tocar, de criar. Tem que haver, de alguma forma, um retorno, para podermos pagar as contas. A solução do voltar a esta normalidade que não sei se vai ser igual à que vivemos até aqui, pelo menos durante uns tempos, não sei quando vai acontecer.

O que sabemos neste momento, e aquilo com que estamos a trabalhar, é tentar marcar os concertos de forma segura para todos, para quem está a trabalhar e para quem vai assistir. Mas isso implica a redução de público, a redução de concertos e tem muitas contingências ao nível do espaço, da logística. Embora eu espere que se retome a atividade nos teatros, saber que vou para um teatro que à partida tem que ter meia casa, os custos que tenho, com músicos, técnicos, alimentações, estadias e tudo mais, se não houver um apoio ou a própria câmara comprar o concerto, o risco é nosso. Isso dificulta muito a logística das coisas, obviamente. Os discos podem ser gravados e lançados na mesma. Mas sem serem depois partilhados ao vivo com o público fica um bocadinho esquisito.

Ficaste com algum projeto pendente devido a esta paragem?

Eu felizmente consegui terminar o meu disco. Tenho um disco novo gravado, acabado para aí duas semanas antes do confinamento. Foi uma sorte incrível. Acho que se não acabasse estaria muito mais angustiada, porque ficar com coisas a meio, para mim, não é uma coisa boa. Mas era para ter sido lançado em abril e tive que suspender e ainda estou a ponderar se o vou lançar em outubro. Acho que sim, porque depois também as coisas deixam de fazer sentido. As canções têm um contexto. Mas continuo sem saber se vou poder lançar o disco ou poder tocá-lo.

Sentiste, nessa fase, apoio dos teus fãs e das pessoas no geral?

Sim. Eu acabei por ter uma quarentena curiosa e menos dolorosa, porque fiz com o meu namorado e com o meu vizinho, que também é músico, concertos no nosso quintal, para os vizinhos dos prédios e para quem quisesse acompanhar nas redes sociais. Isso diminuiu um bocadinho aquela sensação de ficar meses sem tocar com ninguém, sem ter contacto com o público e com as pessoas. Diminuiu um bocadinho a sensação de estranheza que a pandemia traz para toda a gente. Nesse sentido, foi muito reconfortante, porque tivemos ali aquele feedback diário das pessoas. Portanto, nesse sentido, sim, acho que foi uma coisa mútua. Ou seja, nós resolvemos dar a nossa música, mas também recebemos muito retorno das pessoas. Havia muita gente sozinha e muita gente em ansiedade e pelo menos aquele momento era uma união para todos.

Sim, ao contrário de outros artistas, que faziam apenas lives, tu começaste a fazer concertos no quintal. De onde surgiu essa ideia?

No fundo foi uma casualidade. Eu estava a ver televisão uns dias antes de iniciarmos e achei muito bonito o facto de, em Itália, os vizinhos virem à janela a dada altura cumprimentar-se e cantar em conjunto. Achei aquilo muito bonito. Tocou-me imenso. E então pensei: “Então, mas está o vizinho na casa ao lado a tocar sozinho, estamos nós os dois aqui, que também somos músicos… Porque é que não nos juntamos?”. Desafiei na altura o meu namorado, o Bruno Santos, e o Ricardo Toscano para fazermos isso, mas, já agora, no quintal, porque temos os quintais colados, cada um no seu quintal, mas vemo-nos e ouvimo-nos, portanto é possível tocar, e as pessoas que queiram podem ter ali um bocadinho de música. Foi tão espontâneo quanto isto.

Logo no primeiro dia que começamos a fazer, houve um feedback muito bom por parte dos vizinhos, agradeceram imenso, ouvíamos palmas de prédios algures, que nem sabíamos de onde vinham… Depois decidimos passar esses concertos também nas redes sociais e foi de facto um momento mesmo bonito. Acho que é a única lembrança bonita daquela fase tão difícil para toda a gente. Esse momento de união. E foi ainda mais bonito porque não foi uma coisa pensada, foi uma coisa espontânea.

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Esta é uma bonita história (talvez a única) que terei para contar à minha filha sobre os tempos da pandemia. Em vez de ficarmos fechados o dia todo em casa, decidimos vir para o quintal e, juntamente com o vizinho do lado, fazer música para os outros vizinhos ouvirem. Foram 50 sessões (eu não estive em todas) que têm o seu final este sábado no Jardim do @museudelisboa Obrigada a quem nos acompanhou nos prédios em volta e através das redes sociais. Foram oxigénio nos dias de confinamento. Obrigada à @egeac pela oportunidade deste trio se encontrar convosco ao vivo e a cores! (Penso que a sessão já está esgotada mas vai ser transmitida na página de facebook da @camara_municipal_lisboa) 🙏🏻❤️

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Este tipo de iniciativas pessoais foi uma forma de, de certo modo, camuflar a falta dos concertos e o medo do que estava para vir? O que foi par ti?

Foi reconfortante. Lá está, poder estar a tocar e cantar, que é aquilo que nós fazemos, diminuiu um bocadinho a sensação de paragem e de inatividade. E tem a diferença dos lives, porque ali havia pessoas mesmo nas janelas e isso era mais parecido com um concerto do que estar a fazer um live para uma câmara sem saber exatamente quem está a ver e de que forma é que as pessoas estão a reagir. Mas, como solução propriamente dita, não é, como é óbvio. Apesar de nós gostarmos muito de tocar para as pessoas e para os vizinhos, não é uma solução, certamente. Foi um momento de encontrar alguma paz e algum alento.

Para além destes concertos, o que te ajudou a ti a ultrapassar este período de confinamento e de suspensão da atividade?

Nitidamente, o facto de ter uma bebé, de quase dois anos, apesar de ela não me deixar um segundo descansada. Foi a minha inspiração, porque eu muitas vezes olhava para a minha filha e pensava: “ela não tem ideia nenhuma do que é que se está a passar no mundo, está aqui feliz da vida a brincar”. Isso acabou por me fazer centrar um bocadinho mais nela e não começar a extravasar pensamentos para os quais eu não ia ter resposta nem solução naquela altura. Passei a centrar-me e a viver o momento, na esperança que as coisas se resolvessem rapidamente. Isso foi mesmo o que me deu alento.

Há pouco perguntava-te se sentiste o apoio dos fãs e das pessoas em geral. E do Governo, as medidas pensadas para ajudar o setor cultural foram suficientes?

Nitidamente, não. Não foram na altura e ainda não são. Eu acho que já há muitos anos a Constituição e a nossa consciência política devia ser bastante diferente em relação ao mundo artístico e à arte. Para já, pela importância que isso tem para o país lá fora, para o país cá dentro e para as pessoas. Depois, também há que ver, e eu acho que era interessante fazer-se um estudo nesse sentido, que em termos financeiros, a cultura tem um retorno certamente interessante para o país. Mas eu acho que se calhar damos muito mais do que o que recebemos.

O que se notou e que veio à tona de forma mais clara nesta fase mais complexa foi precisamente tudo o que está por fazer. Não há legislação, não há proteção para os artistas que vivem a recibos verdes, com trabalhos intermitentes, sem saberem se vão ter trabalho no mês a seguir, onde a Segurança Social faz as contas de acordo com um valor que no ano seguinte pode ser o inverso… Nisto tudo, eu acho que há uma falta de conhecimento da parte do Governo sobre a vida real das pessoas que trabalham e que vivem da arte em Portugal. Não houve soluções, continua a não haver e acho que se não fosse as pessoas terem amigos, estruturas ou unirem-se, nada tinha sido feito, porque tudo o que foi apoios prometidos da Segurança Social tardaram ou nunca chegaram, nunca foi muito claro sequer as regras desses apoios.

Depois, tenho de dizer também que acho que a classe artística é muito pouco unida, acho que funciona muito por nichos, por grupos. E assim torna-se muito complicado, porque temos muito menos força quando é para reivindicar, para chamar à atenção, porque as coisas ficam muito mais dispersas.

Acho que há uma falta de conhecimento da parte do Governo sobre a vida real das pessoas que trabalham e que vivem da arte em Portugal”

Acerca desses nichos, houve grande polémica em torno da iniciativa do TV Fest. Numa publicação, chegaste a mencionar que muitos artistas aceitaram participar mesmo por necessidade e que, com o cancelamento, o pouco dinheiro que podiam ter recebido passava a ser nenhum. Até que ponto pequenas iniciativas como essa chegavam para salvar os artistas ou alguns deles?

O TV Fest estava longe de ser uma ideia brilhante que viria salvar os artistas, os técnicos, os músicos… Não era. Contudo, foi uma iniciativa, foi uma ideia. Eu olhei para esse festival como uma oportunidade, embora muito coxa, de, a partir daí, fazendo qualquer coisa e aceitando isto, na próxima edição já se poder ter regras e chegar a mais gente. Ainda que eu ache que o festival tinha as bases em si. E esta ideia não veio do Governo, veio de pessoas de fora, até porque eu sou apartidária e não estou aqui a defender este Governo de todo, nem quando escrevi um texto a explicar o meu ponto de vista em relação ao TV Fest estava a defender questões políticas. Estava a defender, para mim, a minha visão em relação ao que era a minha realidade e a realidade à minha volta. O convite feito era a um músico, porque o músico é que tem as canções, para as tocar, porque até pelas condições não se podiam juntar bandas, tinha de ser alguém que de alguma forma pudesse fazer o programa sozinho. Só que o sugerido era que esse valor fosse distribuído pela equipa com que esse artista normalmente trabalha e, assim, poder ser dada alguma ajuda a pequenas famílias que se iam alargando.

O que eu acho que aconteceu com o TV Fest, e digo isso no texto, e continuo a sentir isso, é aquela ideia de que “se não há para todos, não há para nenhum”. Isso é uma coisa que mexe um bocadinho comigo. Eu fui convidada. E sei de outras pessoas que viriam a ser convidadas e que provavelmente até aceitariam, porque aquilo que nos estavam a propor era fazermos o nosso trabalho, era tocar. Ninguém me estava a dizer: “Olha, toma lá este dinheiro. Não vou dar ao outro, mas ti dou-te”. Ninguém disse isto. E eram os artistas que se iam escolhendo uns aos outros, nem era um critério de sorteio. A mim não me caberia na cabeça assinar uma petição para tirar trabalho a um colega. Este é o meu princípio. Mesmo que eu não fosse receber. Poderia não achar justo, poderia perguntar como é que funcionava ou porque era assim, mas deitar abaixo, que foi o que aconteceu, não compreendo, tenho muita dificuldade em compreender. A mim não me cabe na cabeça boicotar o trabalho de um colega. Isso foi triste. Acho que aquilo que aconteceu foi, em vez de isto ser um momento de união, foi um momento de desunião completa. Portanto, pessoas que necessitavam desse dinheiro continuam a necessitar, pessoas que podiam ter sido ajudadas não foram ajudadas e continua tudo na mesma, porque não mudou nenhuma legislação e não foi feito nada.

Rita Redshoes
Fotografia: Rita Redshoes/Facebook
Com toda esta situação e a crise ainda mais acentuada na cultura, que repercussões pensas que vão ser visíveis nos próximos meses no setor?

Eu acho que vão haver cada vez mais dificuldades, mais fome, mais pessoas a terem que deixar de ser músicos ou técnicos e que vão ter que encontrar outra solução. Melhorar, a não ser que haja uma grande alteração, acho difícil, nos próximos tempos. Portanto, vai haver muito menos trabalho, coisa que a que o setor já está um bocadinho habituado no outono/inverno, mas este ano não houve no verão e aquilo que se podia ter amealhado no verão não existiu. Por isso, prevejo tempos bastante complicados. Acho que há muita gente a tentar encontrar soluções de forma a minorar este filme de terror, mas não é fácil, ainda somos muitos neste setor e, portanto, das duas, uma: ou a pessoa tem forma de subsistir e tem apoio de alguma forma, ou tem que se reinventar, a fazer outra coisa qualquer ou criar alguma coisa que seja possível fazer, em tempos de pandemia, para ter um retorno. Eu ainda estou na fase otimista de achar que vou tentar encontrar alguma coisa que me ocupe e que seja de alguma forma relevante para fazer, porque não prevejo que vá ter muitos concertos sequer.

Acho que vão haver cada vez mais dificuldades, mais fome, mais pessoas a terem que deixar de ser músicos ou técnicos e que vão ter que encontrar outra solução”

Tens recordação de alguma situação marcante trazida por esta suspensão da atividade, vivida por ti ou que tenhas conhecimento?

Sim. Tenho pessoas da minha equipa, com família e filhos, que de repente deixaram de ter meios para pagar as contas. Isso tirou-me o sono durante muitas noites. Uma das coisas que me fez aceitar o convite para o TV Fest foi essa ideia de poder ajudar algumas destas pessoas. É muito duro. Tenho inúmeros exemplos, sei de inúmeras pessoas com família que estão em grandes dificuldades.

Como foi, passados meses, retomar gradualmente à atividade?

Foi uma sensação muito boa, obviamente. Foi muito emocionante, porque, de alguma forma, veio devolver um pouco a normalidade a que estávamos habituados. Por outro lado, foi bom perceber que o medo, tanto nosso como do público, já estava um bocadinho mais domesticado. Porque viver com medo é uma coisa horrível e acho que todos vivemos um bocadinho assim, durante algum tempo. Eu acho que foi um sentimento de liberdade grande e de realização. O primeiro concerto que eu dei foi no São Luís e foi mesmo muito emocionante, eu estava quase no limite de não conseguir cantar, porque era muito tocante ver ali as pessoas e eu achei que ainda ia demorar bastante mais tempo até um concerto poder acontecer. Dá uma certa esperança. Foi uma luz ao fundo do túnel, ainda um túnel muito comprido, mas já se viu qualquer coisa.

Apesar de, nesta fase, ter de se planear as coisas com uma visão de viver um dia de cada vez e ver o que acontece, tens já planos para os próximos tempos?

Coisas concretas e marcadas tenho muito poucas. Tenciono lançar o disco ainda até ao fim do ano, na esperança de poder haver ainda alguma tournée, em moldes diferentes. Mas acho que estou assim um bocadinho em suspenso, como se calhar a maior parte dos meus colegas estará, sem saber o que é muito bem o dia de amanhã, sem fazer também grandes planos, para não ficar frustrada e a tentar imaginar soluções também profissionais. Enfim, ter aqui outras fontes que me possam assegurar os mínimos e não estar a pensar que se não tenho um concerto este mês, não vou poder pagar a eletricidade. Neste momento estou assim.

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