Maria Louceiro
Icona Pop no festival Way Out West para a Pitchfork. Fotografia: Maria Louceiro

O universo mágico eternizado nas fotografias de Maria Louceiro

Em Dia Mundial da Fotografia, o Espalha-Factos destaca o trabalho da portuguesa que fotografa para nomes como a Pitchfork, a Universal Music Group, a MTV, o Coachella, a Adobe, a Red Bull Music Academy, a VICE e a Getty Images. Em videochamada diretamente com Berlim, cidade onde Maria Louceiro vive há quatro anos, ficamos a conhecer um pouco a mente de quem transforma os artistas que fotografa em seres míticos e consegue que até as coisas mais banais pareçam vislumbres de sonhos.

Maria Louceiro cresceu no Porto. Estudou Engenharia de Minas e Geoambiente na Universidade do Porto e Design de Comunicação na Escola Superior de Artes e Design (ESAD) – duas realidades distintas que acabaram por marcar este percurso tão único. Quando se lhe pede para viajar no tempo e regressar a onde tudo começou, diz simplesmente que começou “a fotografar concertos há uns anos”. “Na altura estava a tentar fazer algo um pouco diferente do que se costuma ver – o habitual é algo mais documental e eu era assim mais artística”, acrescenta por entre risos.

Auto-retrato. Fotografia: Maria Louceiro

As movimentações pelas salas de concertos portuenses permitiram-lhe “conhecer pessoas da organização dos concertos”. Começou a fotografar para a Amplificasom e com o tempo foram chegando mais e-mails e clientes “considerados mais relevantes” – porque “um cliente grande atrai outros clientes grandes”. Um dia, uma amiga desafiou-a a enviar as fotografias de um dos Amplifest para a Pitchfork. “Foi mesmo um e-mail – literalmente, foi um e-mail. E um bom timing”, dado que, passado uns meses, estava no Parque da Cidade a fotografar o Primavera Sound com o logótipo da publicação americana ao pescoço.

Agora, seis anos voaram e Maria continua a colaborar anualmente com a gigante da música indie. Entretanto, mudou-se para Berlim, depois de um estágio na IDAGIO (uma plataforma semelhante ao Spotify mas para música clássica) em 2016 que virou trabalho em design gráfico e, depois, em direção de arte. No ano passado, percebeu que o equilíbrio entre projetos estava instável: “Estava a começar a ter mais e mais trabalhos em fotografia e não estava a conseguir balançar; não tive fins-de-semana durante meses.” Decidiu que a fotografia precisava de ainda mais espaço na sua vida e voltou a ser freelancer a tempo integral. “E despedi-me e eles depois contrataram-me enquanto freelancer”, acrescenta.

Fotografias em que não se distingue a realidade do sonho

Quando abrimos uma galeria da Pitchfork, as fotografias de Maria são instantaneamente identificáveis. As figuras ondulam entre o anjo e o espectro, as cores são ricas embora suaves e as múltiplas fontes de luz são uma constante, bem como as silhuetas e os movimentos. As imagens preenchidas por texturas contrastam com as mais simples – delicadas, quase. Se não fosse pela fotografia, toda esta beleza visual ficaria guardada apenas na imaginação. Com os registos tanto digitais como analógicos, os retratados passam a habitar este universo mágico – e nós somos convidados a nele espreitar também.

Haim para a Pitchfork. Fotografia: Maria Louceiro

Para Maria, esta identidade visual tão vincada nasceu no facto de não ter começado a fotografar para ninguém mais que si própria. No início, não existia ainda a pressão de clientes ou expetativas. A fotografia era instintiva e muito mais simples – apesar de admitir ser difícil mesmo para si “perceber alguma coisa do que estava a acontecer na própria cabeça” quando compunha as imagens. O cinema e a música sempre foram das principais fontes de inspiração, bem como a pintura (“até quis ser pintora, mas não ia resultar”, brinca), apesar de sublinhar que “tudo o que nos rodeia, mesmo que não sejam coisas visuais, acaba por ficar de alguma forma no inconsciente”.

Nesses tempos, “tinha uma ideia muito etérea, muito romântica, de como a imagem poderia ser”. Ia aos concertos porque eram oportunidades para fotografar. “Não é que não quisesse ir aos concertos… mas está lá tudo o que precisas, está tudo montado, tens iluminação profissional e a única coisa que tens de fazer é fotografar”, explica, relembrando que “houve um boom de concertos, então era fixe porque podia fazer isto semanalmente”.

A partir do momento em que a paixão virou profissão, teve de começar a procurar o equilíbrio entre a sua visão, a “estética forte” que é tão marcadamente sua, e o que os clientes queriam. “Agora é mais fácil, mas no início era muito difícil. Percebi com o tempo que, se queria continuar a fazer aquilo, tinha de encontrar um certo equilíbrio… e isso também é interessante, porque não queres estar a repetir-te.” O segredo está em encontrar as peculiaridades de cada pessoa – um olhar, um movimento com as mãos. Acaba por ser tudo muito mais pensado, como é o caso dos retratos de músicos para imprensa, em que têm de “parecer o seu melhor”.

Weyes Blood para a Pitchfork. Fotografia: Maria Louceiro

Ainda assim, é tudo bastante livre – mesmo a nível de suporte. Em concertos fotografa em digital (“tem de ser tudo muito rápido), mas muitos dos retratos são feitos em analógico, “o que é muito bom”. “E, claro, no final acaba por não se perceber muito bem a diferença”, acrescenta divertida. Com a multiplicidade de ferramentas que existem nos dias de hoje, as linhas esbatem-se e as imagens podem ser criadas com um toque de tudo ou de nada. Por vezes, até mistura digital com analógico: apanha “uma textura com a analógica” e acrescenta em pós-produção a um retrato digital de um artista”.

Berlim, Coachella e outras aventuras

“Claro que se pudesse escolher, preferia viver perto do mar em Portugal, mas é uma questão de fazeres concessões.” Maria conta que sempre quis “ter alguma experiência fora de Portugal” e que, apesar de adorar o país, “para certas profissões torna-se tudo um pouco mais difícil, infelizmente”. Recorda os tempos em que tentou ser freelancer no Porto, mas “era tudo mal pago e não conseguia gerir a vida assim”. E os clientes grandes com quem trabalhava eram de fora, o que a fez pensar que “a alternativa poderia estar mesmo aí”.

Entre ter um emprego de que não gostava e dar asas à veia artística no tempo livre ou ir para o estrangeiro, preferiu a segunda opção – “toda a gente deve fazer o que gosta, mas às vezes temos de agitar um pouco as coisas para conseguirmos suster-nos”. Berlim é uma metrópole central, o que simplifica contactos com clientes. É, paralelamente, “uma cidade que apoia muito os artistas”; mesmo agora que voltou ao freelance, “continua a ser mil vezes mais fácil do que em Portugal”.

Zedd para o Coachella. Fotografia: Maria Louceiro

Sobre experiências preferidas, destaca o Amplifest de 2015 “em termos pessoais” – na altura ainda estava a começar o trabalho de backstage e fotografou muitas bandas nesse ano. No entanto, o Coachella do ano passado ainda está bem presente e talvez tenha sido “o mais importante em termos de carreira”. Aponta que foi uma “experiência completamente diferente” do que esperava: “nunca tinha ido ao festival nem a Los Angeles (nem ao deserto) e a forma como eles trabalham é muito metódica e rápida – é todo um sistema organizado de pessoas”.

Com o tempo, há artistas que acabam por voltar, pessoas com as quais se cruza uma e outra vez. Os Digitalism, por exemplo, são um duo alemão de eletrónica que a contacta frequentemente – e “isso acaba por ser interessante, porque eles vão evoluindo na carreira e eu vou vendo isso”. Na capital alemã “há sempre muita coisa a acontecer em termos culturais”. Artistas grandes e artistas pequenos fundem-se numa cena artística frutífera e a portuguesa diz que os eventos a que vai são do que mais a inspira hoje em dia (“e depois, claro, o cinema é uma fonte de inspiração que nunca para”).

Dicas para quem está a começar

“As coisas mudam tão depressa que não posso sequer fazer uma comparação com o meu percurso.” Rindo-se, comenta: “na minha altura, quando era jovem, o que fiz foi simplesmente aparecer nos concertos. Quando começou, “as coisas ainda eram baratas, podias simplesmente comprar o bilhete e não era assim uma coisa do outro mundo”. Aconselha ir a muitos concertos pequenos, porque são de acesso fácil e as pessoas que se movimentam por esses espaços são sempre as mesmas. “E, inevitavelmente, vais começando a conhecer pessoas e podes começar a mostrar interesse. Podes dizer que gostas de fazer fotografia, perguntar se podes aparecer e fotografar. A partir daí é um ciclo vicioso, quase, ou uma bola de neve de contactos”, continua.

Na opinião de Louceiro, a evolução de um fotógrafo acaba por ser semelhante à de um atleta: é preciso treinar muitas vezes e repetir muitas vezes as mesmas coisas até se conseguir chegar a um ponto em que é aquilo que se quer, em que era aquele o objetivo”. Destaca a importância de se ser persistente e consistente, de ir aos sítios e fotografar, de mostrar interesse e falar com as pessoas, bem como, sempre, de se ser apaixonado em tudo o que se faz.

Mac DeMarco para a Pitchfork. Fotografia: Maria Louceiro

No contexto português, é possível passar para o nível profissional naturalmente: “Conheces alguém e alguém conhece alguém, e depois essa pessoa vai dizer a outra pessoa que esta rapariga gosta de tirar fotografias e está interessada. É toda uma rede”. Mesmo em Berlim acaba por ser semelhante, dado que há músicos que a contactam porque outros músicos que fotografou lhes fizeram a recomendação. Aponta que, “embora seja uma cidade gigante, a comunidade artística acaba por ter uma dimensão suficiente para o passa-palavra acontecer”.

Tendo em conta o contexto económico diferente de cada pessoa, Maria salienta a importância de contactar pessoas – organizadores de eventos, agências de produção, ateliers, estúdios – porque há sempre alguém a precisar de fotografias. “É preciso ir à fonte de onde possam vir os trabalhos”. Mesmo a nível de agências fora de Portugal, o trabalho também pode chegar. Hoje em dia, as distâncias estão tão esbatidas que é possível entrar em contacto tanto com agências portuguesas como europeias e, até, americanas.

Lorde no Primavera Sound em Barcelona para a Pitchfork. Fotografia: Maria Louceiro

“Claro que também é tudo uma questão de timing, podes estar a contactar na altura certa ou na altura errada”, admite, mas há sempre a possibilidade de precisarem “de alguém a fotografar em Portugal e preferirem ter um fotógrafo no país”. Há muitas empresas americanas que precisam de fotógrafos na Europa, “portanto, estejas em Portugal, estejas na Alemanha, não interessa, facilmente te marcam um voo para ires fazer um trabalho noutro país – porque é preferível ter alguém já na Europa do que mandar alguém dos Estados Unidos”. Considera esta uma boa estratégia, mesmo a nível de empresas europeias.

Já em jeito de brincadeira, diz que o importante “é ser chato”. Com ou sem brincadeira, a verdade é que Maria Louceiro tem fotografado concertos e festivais um pouco por toda a Europa. Mac DeMarco, HAIM, Weyes Blood, JPEGMAFIA, Nilüfer Yanya, Chvrches, Perfume Genious, Tom Misch e Blood Orange – apenas para referir alguns nomes da cena musical alternativa – são algumas das figuras já retratadas pelas suas lentes. A nível de concertos, a lista é infinita. Os efeitos da pandemia sentem-se particularmente no mundo na música e 2020 está a ser um ano quase inexistente no que toca às atuações ao vivo. Maria Louceiro espera poder regressar aos eventos durante o próximo ano – e nós também esperamos, para que o universo mágico das suas fotografias nunca pare de ganhar novas formas.

Mais Artigos
Festival Glastonbury
Reino Unido aprova dispositivo de testes rápidos à Covid-19 para festivais