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Imagem das festividades da Senhora d'Agonia, retirada do website da Câmara Municipal de Viana do Castelo.

Romaria de Nossa Senhora d’Agonia: este ano, Viana festeja virtualmente

2020 é o primeiro em 248 anos, em que os vianenses não saem à rua para festejar a maior Romaria do país

A Romaria de Nossa Senhora d’Agonia festeja-se, todos os anos, em Viana do Castelo, na segunda metade do mês de agosto. Sendo por muitos apelidada de maior Romaria do país, este ano a festa não se pode fazer nas ruas, e os vianenses têm de festejar em frente aos ecrãs.

Esta é a primeira vez, em 248 anos, que a Romaria não cumpre com os festejos habituais, que se vivem nas ruas da capital do distrito homónimo.

A festa faz-se desde 1772, quando o Rei D. José concedeu aos vianenses o campo do Castelo para a ocasião de festividade, de dia 18 a dia 20 de agosto, este último dedicado especificamente à padroeira dos pescadores locais, a Senhora d’Agonia. Um século depois, a dimensão da festa, inicialmente religiosa, era de tal forma grandiosa, que se juntaram música, danças e, eventualmente, os vianenses viram a Romaria tornar-se num verdadeiro arraial.

No século XX, a Romaria de Nossa Senhora d’Agonia não era mais uma festa religiosa, e não estava mais limitada ao campo do Castelo: tinha-se tornado na maior Romaria do país e expandido por toda a cidade de Viana, inclusive deixando o seu espaço temporal para se alastrar por todo o mês de agosto em espírito.

Até 2019, o Minho recebeu, em agosto, milhões de pessoas, que viajaram para o Norte para ver os trajes tradicionais e esperar por bolas de Berlim em filas intermináveis no Natário (a título de exemplo). Mas este ano tudo é diferente.

O Espalha-Factos procurou falar com aqueles que melhor sabem como se viverá a Romaria neste atípico ano de 2020: os vianenses.

O impacto económico em Viana do Castelo

Em 2019, estiveram na cidade de Viana do Castelo mais de 1 milhão de pessoas durante a semana das celebrações, que se deu de 16 a 20 de agosto. Este ano, as celebrações estão marcadas de 19 a 23 de agosto. Procurámos saber qual é o impacto, social e económico, esperado com a decisão incontornável de viver a Romaria virtualmente.

Marta Silva, vianense e estudante universitária, anualmente envolvida nas atividades das celebrações e com uma paixão indescritível pela sua cidade, confessa que o impacto é brutal”.

Preocupada, salienta que “o setor da restauração e da hotelaria já estão a sofrer com os efeitos do cancelamento daquela que é a maior festa do país e o motor da economia local. Muitos empresários contavam com as receitas da Romaria para fazer face a um outono e inverno que já costumam ser dificílimos. Neste momento, incerteza é a palavra de ordem na capital do Alto Minho.

Estima-se que, anualmente, a Romaria de Nossa Senhora d’Agonia gera receitas na ordem dos 10 milhões de euros que, anuncia o Presidente da Câmara Municipal, serão perdidos este ano. “Para os vianenses, não poder viver a sua romaria é um vazio de alma”, considerou José Maria Costa, em entrevista ao Diário do Minho.

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Procissão ao mar, um dos eventos no programa da Romaria. Foto: website da Câmara Municipal de Viana do Castelo

Romaria das ruas para as redes sociais

Alguns dos momentos mais marcantes da Romaria são o Desfile da Mordomia, a(s) Procissão(ões), os tapetes de sal na Ribeira, o Cortejo Histórico/Etnográfico. O programa da Romaria de Nossa Senhora d’Agonia, a Rainha das Romarias de Portugal, este ano tem um aspeto muito peculiar. Menciona todos estes momentos, mas não os deixam de acompanhar descrições como Filme nas redes sociais”, Espetáculo nas redes sociais”, Transmissão em direto nas redes sociais”.

Quando questionada sobre como se lida com isto e como mudou o trabalho de todos os envolvidos nas celebrações da Romaria, Marta Silva não tem dúvidas de que as redes sociais são insuficientes para cobrir a mais impressionante e bela Romaria”, acrescentando que só há uma forma de a viver: “ao vivo e a cores”.

A vianense salienta a celeridade e segurança com que a adaptação da festa foi feita, tendo em conta o contexto vivido, devido à Covid-19, embora confesse quea magia d’Agonia perde impacto”.

Ainda assim, há como contornar esta melancolia virtual: A impressão com que tenho ficado nos últimos tempos é a de que a Romaria pode e deve ser vivida de outra forma para além das redes sociais, nomeadamente através do apelo feito pela Associação de Grupos Folclóricos do Alto Minho à população”.

O apelo passa pelo incentivo a que os vianenses, estando nas ruas da cidade, o façam “trajados e ourados”, durante os quatro dias da Romaria. Importa salientar que, este ano, Viana não terá a quantidade de visitantes, entre turistas e emigrantes, que tem todos os anos durante estes dias.

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Detalhes dos trajes envergados pelas mulheres vianenses, no Desfile da Mordomia. Foto: website da Câmara Municipal de Viana do Castelo.

“Agora, mais do que nunca, torna-se imprescindível mostrar que a comunidade está junta e que, apesar das adversidades, continuamos com a chieira habitual durante uma época anormal. Viana sabe cultivar os valores que herdou.

Para todos os que vão ficar em casa este ano, sejam habitantes de Viana do Castelo ou de qualquer outra zona do país (e até fora do mesmo, vejam-se as vantagens da virtualidade), o programa das celebrações da Romaria, de 2020, está disponível aqui.

Afinal, o que é a Romaria de Nossa Senhora d’Agonia para o vianense?

Por fim, mas não menos importante, perguntámos a Marta Silva o que é que esta grandiosa festa representa para si, enquanto vianense, e qual o seu impacto – não apenas económico e social, mas talvez até emocional – na sua vida.

A resposta é esta e prescinde de interrupções:

Em Viana, durante as festas, as pessoas ganham outra vida. No Desfile da Mordomia, a Avenida transforma-se num autêntico quadro de Sarah Affonso: o vermelho, o verde, o azul e o amarelo dos trajes (que correspondem a cada terra do Concelho) juntam-se para dar cor e alegria às ruas. Devo confessar que usar um traje tão quente e pesado como o nosso não é uma tarefa fácil, uma vez que as temperaturas chegam a ultrapassar os 30ºC durante aqueles dias de agosto. Mas não há nada que nos demova. Somos fieis à tradição e sabemos que o sentimento que nos inunda de vaidade e orgulho e para o qual até arranjamos um nome específico — chieira — é indiscutivelmente nosso.

Miguel Esteves Cardoso dizia que o Minho é a província mais estragada e continua a ser a mais bela. Raramente ouço na comunicação social convencional uma pronúncia como a minha, e muito raramente a Agonia é reconhecida pelos jovens das grandes cidades. Por exemplo, quando fui estudar para o Porto apercebi-me de que só um número reduzido dos meus colegas tinha noção da magnitude desta festa. Contudo, e para além de todas as expectativas, a idade que garantiu o maior número de inscrições no Desfile da Mordomia do ano passado foi dos 20 aos 29 anos.

A razão pela qual mais de seiscentas mulheres e respetivas famílias prescindem de um dia a apanhar banhos de sol para envergar um traje e desfilar é simples: mostrar a nossa singularidade ao mundo. O rigor e a atenção ao detalhe são peças fundamentais para que tudo corra bem. A preparação para o desfile da Mordomia levou-me, pelo menos, cinco horas em 2019. Essa preparação não passa só pelo traje, passa igualmente pelo ouro. No total, estima-se que a Mordomia põe na rua de Viana do Castelo 30 milhões de euros em ouro. É um número impressionante.

Para mim, é uma forma de honrar a memória dos meus antepassados, a força das mulheres do Alto Minho e o desejo de exprimir o meu amor por Viana. O ouro que uso pertenceu às minhas avós, bisavós, tetravós e assim por diante.

No final da Romaria, caem-me lágrimas. É inexplicável.

Assim que começo a ouvir a voz de Amália Rodrigues com “Havemos de Ir a Viana”, de Pedro Homem de Mello, a emoção apodera-se de mim. O barulho dos bombos arrepia-me. A Ponte Eiffel iluminada no último dia com a icónica frase “Viana é Amor” deixa qualquer um refém da beleza verde-lima do rio. Ali, naquelas margens, sei que estou lírica, serena e mais humana”.

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