Lovecraft Country

Lovecraft Country. Os monstros da ficção e os monstros do racismo

Lovecraft Country é a nova série da HBO. O primeiro episódio estreou no domingo (16) e esperam-se mais nove até ao final desta temporada. Baseada numa obra com o mesmo nome e adaptada para televisão por Misha Green, a narrativa promete misturar a História dos Estados Unidos com personagens do terror literário.

A série segue Atticus Freeman (Jonathan Majors), um veterano da Guerra da Coreia, que parte à procura do pai desaparecido, numa viagem pelo Sul segregado e altamente racista dos Estados Unidos dos anos 50. A seu lado tem o fiel Tio George (Courtney B. Vance) e a amiga Letitia Lewis (Jurnee Smollett). Pelo caminho, vão encontrar mais do que apenas humanos monstruosos.

Espalha-Factos diz-te tudo o que precisas de saber sobre a estreia de Lovecraft Countrya nova aposta da HBO.

Muitos mistérios por desvendar

A narrativa principal e linear de Lovecraft Country é o caso de uma pessoa desaparecida. As pistas do paradeiro do pai de Atticus resumem-se a uma carta e testemunhos oculares. Pouco, para qualquer investigação. Mesmo assim, uma peça fundamental ajuda os protagonistas a começarem a sua jornada: a carta contém referências ao autor H.P. Lovecraft.

São estas menções que vão levar o trio a viajar para Massachusetts. A zona inspirou, verdadeiramente, muitos contos do autor em questão. À semelhança de Stephen King, Lovecraft criou uma cidade ficcional – Arkham – baseada em locais de Massachusetts. É lá, no chamado Lovecraft Country, onde o pai de Atticus aparenta estar.

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No entanto, o protagonista tem mais preocupações que o primeiro episódio ainda não esclarece. Atticus tem uma relação com uma habitante da Coreia do Sul, mas pouco se sabe para além de uma chamada telefónica. Além disso, pessoas misteriosas que provêm da classe alta parecem ter particular interesse na investigação dos protagonistas. Estas e outras questões mais secundárias vão, certamente, ser exploradas ao longo dos dez episódios.

O enredo é complexo e bem estruturado. As personagens são tridimensionais e realistas e as atuações não ficam atrás. Jonathan Majors interpreta, subtilmente, um homem esperto e hábil, com traumas de guerra e de infância. Jurnee Smollett dá vida a uma mulher de espírito rebelde e independente de conservadorismos . Courtney B. Vance, como não podia deixar de ser, acrescenta um toque de excelência ao sábio e irreverente Tio George. Um trio sólido de estrelas principais, com um elenco secundário à altura.

Lovecraft Country
Fotografia: HBO

O país racista de Lovecraft

Dois aspetos são inegáveis sobre H.P. Lovecraft: Criou um universo ficcional icónico e era um homem profundamente racista. A série usa estes factos para criar um contraste entre autor, obra e realidade. Afinal, os Estados Unidos da América de Lovecraft estão tão recheados de monstros como o país que escravizou milhões de negros.

Lovecraft Country assume-se como uma série de terror e isso permite-lhe outro paralelo brilhante. A obra do autor caracteriza um horror existencial, onde o ser humano percebe que é um ser insignificante comparado com entidades mais poderosas e impiedosas. E, em meros 40 minutos, o primeiro episódio exemplifica, de uma forma dolorosamente realista, o horror existencial de um negro no Sul segregado americano. O espetador sente que cada olhar pode ser uma sentença de morte. É um desconforto permanente, conseguido usando o infeliz conhecimento histórico da época e uma escrita que sabe espremer bem os momentos de tensão.

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Quem é o verdadeiro monstro? Um ser selvagem de outra realidade? Ou um oficial da lei que persegue aqueles que têm uma pele diferente da sua? Perguntas que Lovecraft Country não tem medo de colocar na sua primeira hora de televisão.

Mas claro, a série não deixa de fazer jus ao nome. Estamos a falar de Lovecraft e os monstros surreais não podem ficar só na imaginação dos nossos sonhos. Nos momentos finais, o episódio de estreia leva-nos para um cenário que deve muito ao marcante Night of the Living Dead, de 1968. Só que, ao contrário do fim trágico de George A. RomeroLovecraft Country executa uma subversão inteligente que reforça os temas da narrativa.

Lovecraft Country
Fotografia: HBO

Uma lição de História e uma celebração do fantástico

Em termos técnicos, a série é um bom produto televisivo. A banda sonora é uma mistura de canções de época e contemporâneas. O enquadramento dos planos é apelativo e, em momentos de terror, eficaz. Os efeitos especiais, desde a caracterização a computador, à maquilhagem prática da violência, cumprem os padrões de uma produção HBO.

O argumento e as personagens são o ponto mais forte. Lovecraft Country foi criado antes do caso George Floyd, porém é perfeito para o contexto atual da sociedade americana. Certas frases quase que são premonitórias das discussões dos últimos meses.

É um lição do passado que tem um forte impacto no presente. E é também uma celebração do legado de H.P. Lovecraft, como quem diz, do espólio ficcional que deixou para muitos escritores do fantástico e do terror. Sem nunca esquecer os lados deploráveis do artista.

Para os mais interessados, a HBO produz um podcast de acompanhamento para cada episódio de Lovecraft Country. É um diálogo enriquecedor, com uma argumentista, sobre a série e sobre a experiência afro-americana. Mais uma das ferramentas educativas desta obra.

Lovecraft Country é uma aposta bem-sucedida da HBO que agarra os espetadores imediatamente. Que venham os próximos nove episódios da aventura de Atticus e companhia.

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