Golpe de Sol
Fotografia: Divulgação/NOS Audiovisuais

Crítica. ‘Golpe de Sol’ é humano, mas não é tocante

Golpe de Sol é o novo filme de Vicente Alves do Ó. A produção conta com Ricardo Pereira, Oceana Basílio, Nuno Pardal e Ricardo Barbosa no elenco principal, mas se o elenco agrada, o enredo nem tanto.

A anteestreia aconteceu em setembro de 2019, no Queer Lisboa. Agora, quase um ano depois, o filme tem estreia marcada para 13 de agosto nas salas de cinema do país. Desde então, as saudades de revisitar a obra de Alves do Ó não são muitas. Golpe de Sol apresenta-nos um elenco forte, carismático e profissional, mas envolvido num drama incapaz de ser tocante ou até compreensível.

O que poderia ser refrescante e inovador acabou por ser um filme português esquecível. A temática LGBTQ+ está fortemente vincada na obra do realizador, mas nem por isso é suficientemente forte para cativar o espectador a sentir-se interessado durante a duração do filme. As imagens são bonitas, a realização é agradável e Vicente Alves do Ó mostra que sabe dirigir um filme — afinal já o fez várias vezes ao longo da sua carreira —, mas Golpe de Sol não é um dos produtos que vá ficar bem na página do LinkedIn. A emoção que transparece é fraca e nula; existe uma incapacidade total de compreensão das personagens, não devido a um possível défice de atenção do espectador, mas a défices de camadas psicológicas na construção das personagens, que parecem perdidas num enredo tão à deriva quanto um flamingo insuflável numa piscina bonita.

Ricardo Barbosa protagoniza 'Golpe de Sol'.
Ricardo Barbosa é ‘Simão’, o protagonista do filme.

Golpe de Sol cai na tentativa de ser culto, pois falar com emoção é algo que parece ser exclusivo dos mais eruditos, algo irónico, uma vez que os sentimentos fazem parte de todos nós, do mais simples ao mais complexo. A obra apresenta-se de narrativa complexa e com personagens perturbadas por um passado que poderá, a qualquer altura, retornar. A questão é: todo o filme é construído perante a ansiedade do retorno do passado, que neste caso é um homem com quem todas as personagens principais se envolveram romanticamente, mas, quando o passado toca à porta, o filme termina. E termina como começou: fraco.

O protagonista da obra, Simão, é um guionista a escrever o seu próprio filme. Uma história complexa, profunda, dramática e meio biográfica, tal como Golpe de Sol parece ser. Talvez devido à atuação do ator Ricardo Barbosa, a personagem pareça vazia e pouco credível, o que dificulta o processo de proximidade à história, não fosse o protagonista tão enigmático, estranho e cansativamente calado.

Ao longo da sua hora e meia, o pico de Golpe de Sol são as cenas de Oceana Basílio e Nuno Pardal, que inesperadamente se tornam o centro do filme, roubando a atenção e carregando a obra às costas. No geral, todos os atores tiveram atuações credíveis e humanas, mas é-nos difícil encontrar um ponto em que se crie uma conexão com a história, talvez por não nos termos apaixonado por David — ao contrário dos quatro protagonistas.

O amor perdido

'Golpe de Sol' é protagonizado por Nuno Pardal, Oceana Basílio, Ricardo Pereira e Ricardo Barbosa.
Nuno Pardal, Oceana Basílio, Ricardo Pereira e Ricardo Barbosa são ‘Francisco’, ‘Joana’, ‘Vasco’ e ‘Simão’ em ‘Golpe de Sol’.

A ideia do David é curiosa. É, talvez, o ponto de maior conexão entre o enredo e quem o assiste. É fácil pensar num David que nos tenha magoado e fugido no tempo. E é fácil perceber o medo do seu regresso iminente, mesmo que pareça inocente. Os quatro amigos de Golpe de Sol são unidos pelo trauma de um amor que não se concretizou, talvez pelo destino, pela vida ou pelo próprio David. O elo de ligação entre as personagens é forte e intrigante — o ponto forte da longa metragem.

O regresso de David perturba a paz no paraíso. As férias, calmas e sossegadas, despertam nos amigos a incerteza sobre o futuro e as mágoas do passado. Existe algo simbólico nesta destruição de uma tarde de verão, mas a aliança com o público tornou-se uma tarefa difícil, mesmo para um filme que foi apresentado num festival LGBTQ+. A temática está presente, e é representada com a normalidade devida. Não é um filme sobre a sexualidade, é um filme sobre amor, mágoa e desilusão. É uma obra muito humana. Mas nem por isso é tocante.

É compreensível o facto de ser uma obra especialmente marcante para o realizador. Golpe de Sol revela-se um espelho de uma possível vida de Vicente Alves do Ó. E merece ser destacado pela ousadia, mas fica esquecido pela dificuldade emotiva que apresenta e pelo desfecho infeliz e revoltante.

É sobre amor, mas não apaixona.

Título original: Golpe de Sol
Realização: Vicente Alves do Ó
Argumento: Vicente Alves do Ó
Elenco: Ricardo Barbosa, Nuno Pardal, Ricardo Pereira, Oceana Basílio
Género: Drama, Romance
Duração: 82 minutos

Golpe de Sol
Crítica. ‘Golpe de Sol’ é humano, mas não é tocante
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